A Cidade e as Serras

Uma sátira aos progressos dos tempos modernos

A Cidade e as Serras” é o último romance de Eça de Queiroz. Publicado um ano após a morte do autor, a obra apresenta um comparativo entre a vida rural e urbana, além de criticar os inventos tecnológicos e os progressos no ambiente social durante a virada do século XIX para o XX.

Resumo

Livro A Cidade e as Serras
Livro “A Cidade e as Serras” de Eça de Queiroz. (Foto: Saraiva)

A história de “A Cidade e as Serras” é narrada por Zé Fernandes, que através da trajetória vivida por seu amigo Jacinto Galião, protagonista da obra, deseja convencer o leitor de que a vida no campo é superior à urbana.

A narrativa tem início com a história de D. Jacinto Galião, avô do protagonista e riquíssimo proprietários de terras de Portugal, que exilou-se voluntariamente em Paris após D. Pedro I destronar o irmão D. Miguel, figura que Galião super estimava.

Quando D. Galião morreu de indigestão, sua esposa não retornou para Portugal. D. Angelina Fafes permaneceu na capital francesa com seu filho, o franzino e adoentado Cintinho, que preferiu ficar em Paris e casar-se com a filha de um desembargador a ir tratar-se no campo.

Esta união gerou o protagonista, mas Cintinho acabou morrendo três meses antes de nascer Jacinto, seu único filho.

 O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival.

Jacinto Galião era um menino forte, saudável, inteligente e capaz. Nasceu e cresceu na famosa Avenida Campos Elísios, nº.202, em Paris, onde desenvolveu um amor pela civilização e pelo progresso.

Aos 23 anos tornou-se um soberbo, vestia-se impecavelmente, cabelos e bigodes bem tratados, e tudo lhe corria bem. Frequentou a Universidade de Paris, onde conheceu o Zé Fernandes e foi apelidado de “Príncipe da Grã-Ventura”, devido ao seu estilo de vida.

Entusiasmado com as teorias positivistas, Jacinto acreditava que o “homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado”. Sua maior preocupação era defender o progresso, a tese de que a civilização era cidade grande, e as máquinas sinônimos de progresso.

Assim, a civilização era enxergar à frente, ver o futuro. No entanto, o resultado deste entusiasmo se revelou desastroso.

A Cidade: Paris

Após a Universidade, Zé Fernandes regressou a Portugal e passou a cuidar das terras da família, pois o tio não tinha mais condições de o fazer. Sete anos depois, voltou a Paris e ficou espantado ao encontra seu velho amigo rodeado de inovações tecnológicas, como telégrafo, elevador e aquecedor.

Além de todo luxo e modernidade, a mansão localizada no nº 202 contava com uma biblioteca com milhares de títulos dos principais escritores e cientistas do mundo. No entanto, o narrador percebeu certa decepção e decadência em Jacinto.

Os artigos tecnológicos do “príncipe” não funcionavam corretamente, causando-lhe uma desilusão com a sua vida. É nesse momento que Zé Fernandes nota que a pretensa superioridade dos parisienses não era tão encantadora quanto parecia, reiterando sua tese que deu início a narrativa.

Reparei então que o meu amigo emagrecera: e que o nariz se lhe afilara mais entre duas rugas muito fundas, como as dum comediante cansado. Os anéis do seu cabelo lanígero rareavam sobre a testa, que perdera a antiga serenidade de mármore bem polido. Não frisava agora o bigode, murcho, caído em fios pensativos. Também notei que corcovava.

Preocupado, o narrador busca entender o que estava acontecendo com o grande amigo. O fiel criado Grilo, então lhe revela que o tédio que acometia seu patrão era causado pela “fartura”.

Era fartura! O meu Príncipe sentia abafadamente a fartura de Paris: – e na Cidade, na simbólica Cidade, fora de cuja vida culta e forte (como ele outrora gritava, iluminado) o homem do século XIX nunca poderia saborear plenamente a “delícia de viver”, ele não encontrava agora forma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o esforço duma corrida curta numa tipóia fácil. Pobre Jacinto!

As Serras: Portugal

A história de “A Cidade e as Serras” sofre uma reviravolta quando a igreja onde estavam enterrados os avós de Jacinto acaba destruída após uma tormenta. Sem se importar com os gastos, ele ordena que reconstrua tudo.

Um dia, o Príncipe Grã-Ventura, aborrecido da vida urbana, informa a Zé Fernandes que irá até Portugal para transferir os restos mortais de seus avôs, que ele não conhecera, deslocando para lá os confortos do palácio.

Os preparativos para a viagem envolveram uma mudança da civilização para as serras. Afirmando que encontrariam o “202 no interior”, Jacinto encaixotou camas de penas, banheiras, cortinas, divãs, tapetes, livros, despachou tudo que julgava necessário para viver aquele período na serra.

Entretanto, ao desembarcarem em Tormes, Portugal, os dois amigos descobrem que suas bagagens foram enviadas para Alba de Tormes, Espanha.  Assim, o supercivilizado Jacinto fica apenas com a roupa do corpo.

A chegada de Jacinto Galião não era esperada por seus criados, de forma que a propriedade de sua família ainda estava em péssimas condições por causa da forte chuva. Os telhados continuavam sem telhas e as vidraças sem vidros.

Zé Fernandes sugeriu que rumassem para a casa de sua tia Vicência, em Guiães, e Jacinto retrucou que ia mesmo para Lisboa. Pego de surpresa, o caseiro Melchior fez o melhor para atender as necessidades do patrão. Preparou-lhe um jantar simples, totalmente oposto das comidas sofisticadas de Paris.

O bom caseiro sinceramente cria que, perdido nesses remotos Parises, o Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e minguava… e o meu Príncipe, na verdade, parecia saciar uma velhíssima fome e uma longa saudade da abundância, rompendo assim, a cada travessa, em louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da salada que ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra digno dos lábios de Platão, terminou pôr bradar: – “É divino!” Mas nada o entusiasmava como o vinho de Tormes, caindo de alto, da bojuda infusa verde – um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo.

Atraído pela vista, decide permanecer no campo. Após um tempo, Jacinto recupera sua saúde e parece totalmente revigorado. Não se preocupava com sua mudança, nem com o luxo e a tecnologia que tanto estimava.

Em Tormes, conhece a ignorância e o atraso em que viviam os camponeses. Também se deparou com a pobre realidade dos criados.

Jacinto começa a cuidar dos humildes, prometendo melhorar as condições dos seus empregados com aumento de salários e infraestruturas, o que lhe rende uma certa devoção por parte do povo.

Durante uma das visitas à família do amigo, Jacinto conheceu a prima de Fernandes, Joaninha, uma típica camponesa. Apaixonado, o rico rapaz acaba casando-se com a moça, com quem tem dois filhos sadios e alegres.

Cinco anos após a mudança, os caixotes perdidos chegam na fazenda do príncipe Grã-Ventura. Com uma vida totalmente transformada, Jacinto não aproveita quase nada do que há de "civilização" nas malas.

Por fim, o narrador, que também havia se deixado levar por Paris, ao ser dominado por uma paixão carnal pela prostituta Madame Colombe, encerra a narrativa provando que a tese de Jacinto estava errada, pois a vida no campo era bem melhor.

E na verdade me parecia que, pôr aqueles caminhos, através da natureza campestre e mansa – o meu Príncipe, atrigueirado nas soalheiras e nos ventos da Serra, a minha prima Joaninha, tão doce e risonha mãe, os dois primeiros representantes da sua abençoada tribo, e eu – tão longe de amarguradas ilusões e de falsas delícias, trilhando um solo eterno, e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de nós, serenamente e seguramente subíamos – para o Castelo do Grã-Ventura!

Análise do livro “A Cidade e as Serras”

Publicado em 1901, um anos após a morte de Eça de Queirós, o romance “A cidade e as Serras” foi desenvolvido a partir da ideia central contida no conto “Civilização”, datado de 1892.

Com características do realismo e do naturalismo português, “A Cidade e as Serras” é uma obra mais conservadora em relação as outras escritas pelo autor, na qual ele trabalha uma temática mais filosófica: a busca da felicidade na vida moderna.

Enquanto os autores do romantismo procuravam escrever histórias sobre como o mundo deveria ser, ou seja, um mundo idealizado e com personagens heroicos, os escritores do realismo buscavam explorar em suas obras o mundo como ele realmente é.

A exemplo de outras obras de Queiroz, como “O crime do padre Amaro“, “O primo Basílio” e “Os Maias”, nas quais ele ataca a falsidade, o moralismo e a hipocrisia da sociedade portuguesa de sua época, como a burguesia, igreja,  governo e casamento.

Em “A Cidade e as Serras”, uma das obras mais significativas de sua carreira, o autor aborda o contraste entre a vida urbana (espaço civilizado) e o campo (espaço natural). Através destes dois cenários apresenta uma crítica as transformações impostas desde a Revolução industrial.

O romance critica o progresso técnico, urgente e rápido da tecnologia. Apoiado em todas as mazelas causadas por esse avanço, o autor satiriza as ideias positivistas que deslumbravam a juventude intelectual da época.

Além disso, crítica a futilidade existente em Paris, na época considerada a capital da Europa e o centro do mundo, que “corrompia” o conceito de felicidade. Assim, a temática campo versus cidade levanta a seguinte questão:

É melhor viver com conforto, tecnologia e infeliz na cidade ou viver uma vida simples, sem muitos recursos, mas feliz e tranquila no interior? Eça de Queiroz responde essa pergunta através da narrativa de “A Cidade e as Serras”.

Principais personagens

  • Jacinto Galião: protagonista, único herdeiro da família e fanático por tecnologia;
  • José (Zé) Fernandes: narrador e amigo de Jacinto;
  • D. Jacinto Galião: avô de Jacinto;
  • Cintinho: pai de Jacinto;
  • Grilo: criado fiel de Jacinto em Paris;
  • Joaninha: prima de Zé Fernandes e esposa de Jacinto.

Faça o download do PDF do livro “A Cidade e as Serras”.

Faça a referência deste conteúdo seguindo as normas da ABNT:

BRITO, Samara. A Cidade e as Serras; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/a-cidade-e-as-serras >. Acesso em 28 de outubro de 2019 às 15:12.

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