A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água

Clássico da literatura brasileira escrito por Jorge Amado

A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água” é uma das melhores narrativas do aclamando escritor brasileiro Jorge Amado e foi escrito em menos de uma semana. É uma novela que foi publicada pela primeira vez em junho de 1959, na revista Senhor, com ilustrações de Glauco Rodrigues.

Romance de grande sucesso, foi adaptado para a TV, em 1978, com direção de Walter Avancini e para o cinema, em 2010, com direção de Sergio Machado.

“A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água” foi traduzida em mais de 20 idiomas, sendo considerado por muitos críticos o melhor livro de Jorge Amado e, somente no Brasil, vendeu mais de 3.000.000 de cópias.

Clássico da literatura brasileira, narra a história de Joaquim Soares da Cunha, também conhecido como Quincas Berro D’água.

Capa do livro A Morte e Morte de Quincas Berro D'água
Capa da obra “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água”, de Jorge Amado. (Foto: site Saraiva)

Resumo de “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água”

Joaquim Soares da Cunha era um funcionado público que levava vida pacata, homem casado e respeitado pelos colegas e pela família.

Um dia, sem explicação alguma, com palavras ofensivas a família, resolveu largar a vida de funcionário exemplar, pai, esposo e cidadão de bem e passou a viver na rua jogado na malandragem da cidade, tornando-se o “rei dos vagabundos da Bahia”.

Nesse meio tempo, sua esposa Otacília não suportou a situação familiar e morreu. A sua filha Vanda e o marido Leonardo tiveram que aguentar a existência daquele parente envergonhoso.

Foram dez anos entregue a vícios mundanos em companhia dos malandros e prostitutas de Salvador. O maior deles era a bebida.

Um dia, querendo pregar uma peça em Quincas, o dono do botequim “A venda do López”, lhe entregou um copo de água ao invés de cachaça. Ao beber, percebeu que não era cachaça e berrou para todo o mercado ouvir “ááááááguuuuua”.

A princípio, as pessoas ao redor também se assustaram, mas depois caíram na gargalhada e daí nasceu o seu apelido “Quincas Berro D’água”.

Certo dia, aos seus sessenta anos, Quincas Berro D'água apareceu morto, sendo a sua primeira morte. A filha Vanda, tentando esquecer o passado vergonhoso, organizou o velório e o enterro do pai.

O vestiram com elegância na tentativa de restaurar o seu respeito, mas uma coisa ela não conseguiu fazer: tirar o sorriso estampado no rosto do pai. Nem mesmo os funcionários da funerária conseguiram eliminar.

O sorriso parecia uma forma de retomar as ofensas protelada por ele no dia que partiu de casa para viver na rua.

A notícia da morte de Quincas chegou aos ouvidos dos companheiros de farra: Curió, negro Pastinha, cabo Martim e Pé-de-Vento. A noite do velório foi regada a muita cachaça.

Quincas Berro D’água tinha um desejo de seu último momento ser no mar, então embalados pela cachaça, os amigos  resolveram atender ao seu desejo e o levaram para uma farra. Além disso, devido ao sorriso estampado no roso do defunto, eles o tomaram como vivo.

Arrastando o corpo pela cidade, os amigos o levaram pelas ruas de Salvador. Então, decidiram fazer um passeio de barco do mestre Manuel para honrar o desejo do morto.

No entanto, uma súbita tempestade atingiu a embarcação. Com o mar revolto, a embarcação foi lançada de um lado para o outro. Até que em um desses balanços, o corpo de Quincas Berro D’água caiu no mar.

Então, dá-se a segunda morte de Quincas Berro D’água de acordo com seu desejo, junto dos amigos e de sua amante, Quitéria do olho arregalado.

Segundo a lenda, dizem que ao ser lançado no mar, ele teria dito os seguintes versos: “– Me enterro como entender / na hora que resolver. / Podem guardar seu caixão / pra melhor ocasião. /Não vou deixar me prender / em cova rasa no chão”.

A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água: análise da obra

“A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água” é construído com texto enxuto, poético, denso e debochado. Trata-se do conflito entre duas realidades: a ordem social instituída e a liberdade da boemia.

De um lado a realidade estabelecida pelos enquadramentos dos indivíduos em ordem social respeitável, como a família, o casamento e o trabalho.

Esse universo mata Quincas Berro D’água duas vezes: uma quando Vanda inventa uma história para explicar o afastamento do pai e a outra quando tentam restaurar o respeito na solenidade do seu velório, ao vesti-lo de forma elegante, uma  tentativa de matar a vida boêmia para impor a sociedade da ordem social. Contudo, é a desordem que faz Quincas levantar até do túmulo.

Do outro lado, a realidade da desordem, da vida boêmia. Momento em que Quincas rejeita a lógica do casamento, família e do trabalho que deveriam ser seguidos, mesmo que conduzissem a infelicidade.

Quincas recusa o universo da ordem até o último momento, que vai do fim até além do fim. O sorriso que exibia no rosto é uma crítica as normas sociais, mostrando que elas estão tão caquéticas quanto ele.

A narrativa de “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água” é caracterizada pela conexão entre duas dimensões: dos vivos e dos mortos, sendo assim possível ser classificado como uma sátira menipéia.

Toda a narrativa é envolta da duplicidade, começando por seu nome: Joaquim Soares da Cunha, um indivíduo pertencente e obediente a ordem social estabelecida e Quincas Berro D’água, um cachaceiro que se rendeu a vida boêmia.

“A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água” está incluído no volume “Os Velhos Marinheiros”. Bem apropriado, pois era o que Quincas desejava ser. Mesmo não conseguindo na sua primeira morte, conseguiu após a sua segunda, navegando livre pelo mar.

Jorge Amado é o representante baiano do neorrealismo nordestino, uma tendência que dominou a literatura nos anos 1930. Os escritores dessa geração esforçavam-se parra retratar a realidade de forma crítica, estringindo a criatividade em relação a fantasia e imaginação.

Além disso, alinha-se ao realismo socialista que tinha uma perspectiva ideológica com o marxismo. Assim como um aspecto do que é ultrapassado, aspecto do movimento modernismo ao qual Jorge Amado é encaixado.

Trechos da obra “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água”

Dez anos levara Joaquim essa vida absurda. “Rei dos vagabundos da Bahia”, escreviam sobre ele nas colunas policiais das gazetas, tipo de rua citado em crônicas de literatos ávidos de fácil pitoresco, dez anos envergonhando a família, salpicando-a com a lama daquela inconfessável celebridade. O “cachaceiro-mor de Salvador”, o “filósofo esfarrapado da Rampa do Mercado”, o “senador das gafieiras”, Quincas Berro D’água, o “vagabundo por excelência” eis como o tratavam nos jornais, onde por vezes sua sórdida fotografia era estampada. Meu Deus!, quanto pode uma filha sofrer no mundo quando o destino lhe reserva a cruz de um pai sem consciência de seus deveres.

Segundo eles, Quincas Berro D’água, ao morrer, voltara a ser aquele antigo e respeitável Joaquim Soares da Cunha, de boa família, exemplar funcionário da mesa de rendas estadual, de passo medido, barba escanhoada, paletó negro de alpaca, pasta sob o braço, ouvido com respeito pelos vizinhos…

No meio do ruído, do mar em fúria, do saveiro em perigo, à luz dos raios, viram Quincas atirar-se e ouviram sua frase derradeira. Penetrava o saveiro nas águas calmas do quebra-mar, mas Quincas ficara na tempestade, envolto num lençol de ondas e espuma, por sua própria vontade.

O Quincas baiano, por sua vez, naufraga naquele saveiro numa noite de tempestade. Mas como ninguém achou seu corpo, fica o mistério em torno de sua morte, transformando-o em mito, pois um bom personagem mítico morre, mas não deixa vestígios do corpo.

Sobre o autor

Jorge Leal Amado de Faria foi escritor, jornalista e político nascido em 10 de agosto de 1912, na cidade de Itabuna-Bahia. Faleceu aos 88 anos em 6 de agosto de 2001.

Caricatura de Jorge Amado
Caricatura do escritor Jorge Amado. (Foto: Wikipédia)

Suas obras são demarcadas pelo movimento literário modernismo ou geração 30, tendo como gêneros literários o romance, a crônica, fábula e conto.

Jorge Amado foi membro da Academia Brasileira de Letras em 1961, ocupando a cadeira 23, tendo como seu patrono José de Alencar.

É um dos autores com maior número de vendas, sendo superado apenas por Paulo Coelho. A sua obra literária, 49 livros, já foi reconhecida como o Prêmio Camões.

É o escritor de famosas obras que foram adaptadas para a TV e cinema, a exemplo de Dona Flor e Seus Dois Maridos, Capitães da Areia, Tenda dos Milagres, Tieta do Agreste, Gabriela, Cravo e Canela, Tereza Batista Cansada de Guerra e, claro, A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água.

A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água está disponível online e para download. Boa Leitura!

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Lima, Cleane. A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/a-morte-e-a-morte-de-quincas-berro-dagua >. Acesso em 28 de outubro de 2019 às 18:59.

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