Alphonsus de Guimaraens

Poeta brasileiro que marcou o Simbolismo

Alphonsus de Guimaraens foi um poeta e escritor brasileiro que escrevia de forma sensível e intensa sobre amor impossível, religiosidade católica e Deus, solidão, sentido da morte e impertinência ao mundo. Dotado de simbolismos e características neo românticas, os poemas de Alphonsus de Guimaraens retratavam as reações de resignação frente à morte da mulher amada e à inadaptação e desconhecimento do lugar humano no mundo.

Natureza e arte também estavam presentes na poesia de Alphonsus de Guimaraens, mas eram temas que se relacionavam diretamente com a morte. Isso se devia ao fato de uma perda forte ter acontecido na vida do escritor, a de sua prima e noiva, chamada Constança Guimarães, quando ele tinha apenas 19 anos de idade.

Biografia

Filho de pai português, mãe brasileira e sobrinho-neto do escritor Bernardo Guimarães (autor de A Escrava Isaura), Afonso Henrique da Costa Guimarães, verdadeiro nome de Alphonsus de Guimaraens, nasceu em Ouro Preto no ano de 1870.  

Alphonsus de Guimaraens foi um poeta brasileiro.
Alphonsus de Guimaraens foi um poeta brasileiro de escrita sensível e intensa. (Foto: Wikipedia)

Ingressou na faculdade de engenharia em 1887, mas logo abandonou o curso e começou uma vida boêmia assim que perdeu sua prima e noiva Constança Guimarães (filha de Bernardo Guimarães) para a tuberculose de forma prematura em 1889. Em São Paulo, no ano de 1895, Alphonsus de Guimaraens se formou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco e começou a colaborar com a imprensa.

Na capital paulista, Alphonsus de Guimaraens se reunia com jovens artistas e escritores que faziam parte do movimento simbolista. O Simbolismo foi uma era desenvolvida a partir do teatro, literatura e artes plásticas que teve origem na França no século XIX e atuou como opositora ao Realismo e Naturalismo.

O escritor chegou a trabalhar como promotor e juiz substituto, mas se encontrou com as palavras e poemas em 1899, quando fez sua estreia como poeta. Lançou Dona Mística e Setenário das dores de Nossa Senhora, obras inspiradas nas raízes simbolistas.

Exerceu o jornalismo em 1900 no jornal A Gazeta, em São Paulo, e dois anos depois, sob o pseudônimo de Alphonsus de Guimaraens, lançou Kyriale, projeto que o impulsionou e concedeu reconhecimento no universo literário brasileiro da época. Algum tempo depois, perdeu o cargo de juiz substituto e entrou em uma crise financeira. Anos se passaram e conseguiu um emprego de diretor no jornal político Conceição do Serro e depois como juiz municipal em Mariana, interior de Minas Gerais. Dividia seu tempo profissional entre os afazeres jurídicos e a construção de sua carreira literária.

Teve uma vida pacata, marcada de momentos tranquilos, exceto pelo trauma emocional que sofreu com a morte precoce de sua noiva. Fato este que o consolidou como poeta, pois deu o tom melancólico e amargurado que reflete na maioria de suas obras. 

Casou com sua esposa Zenaide de Oliveira, jovem de 17 anos, com quem teve 14 filhos. Dois deles, inclusive, entraram para o mundo da literatura. Morreu em 15 de julho de 1921 aos 50 anos e ficou conhecido como o “Solitário de Mariana”.

Estilo literário de Alphonsus de Guimaraens

No Rio de Janeiro, Alphonsus de Guimaraens conheceu Cruz e Sousa, principal nome do Simbolismo. Juntou-se também a Augusto dos Anjos e se tornou um dos principais representantes do Simbolismo no Brasil. As características simbolistas que mais estavam presentes em suas poesias e textos eram:

Estética musical nos poemas;

Foco em misticismo, fantasia, imaginação e subjetividade;

Arte baseada na intuição e experiências próprias;

Aliteração (ação de repetir fonemas consonantais);

Assonância (ação de repetir fonemas vocálicos).

O estilo de Alphonsus de Guimaraens era lírico, profundo e suave. Ele fazia bom uso do soneto e tinha influência forte da época medieval. Estruturalmente, utiliza verbos decassílabos e alexandrinos, também faz uso de outras métricas como a redondilha maior. A musicalidade e a semelhança com a canção popular também estavam presentes em suas poesias.

Dotado de sentimentalismos em suas obras, Alphonsus de Guimaraens dirige suas habilidades na comunicação do amor e da morte. A maior parte de seus poemas fala sobre o amor que é impossível de acontecer devido a morte da mulher que amava. Trata a mulher como uma divindade, algo alcançável só após a morte. Ele também costumava falar sobre a meditação cristã e a entrega pelo sentimento religioso,  comportamento explicado pela história católica de sua família.

Principais obras de Alphonsus de Guimaraens

  • Mendigos, prosa, 1920
  • Pauvre Lyre, poesia, 1921
  • Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte, poesia, 1923
  • Nova Primavera, poesia, 1938
  • Setenário das Dores de Nossa Senhora, poesia 1899
  • Dona Mística, poesia, 1899
  • Câmara Ardente, poesia, 1899
  • Kiriale, poesia, 1902

Obras póstumas

  • Jesus
  • Alphonsos
  • Salmos
  • Poesias
  • Pulvis
  • Escada de Jacó
  • Pastoral aos crentes do amor e da morte.

Trechos dos poemas mais conhecidos

Dona Mística

Piedosa: o olhar nunca baixou à terra
Fitava o céu, porque era pura e santa …
Tinha o orgulho fidalgo de uma Infanta
Que entre escudeiros e lacaios erra.

Deusa nenhuma, por mais alta, encerra
Em si, talvez, misericórdia tanta:
Ainda hoje na minha alma se alevanta
Como uma cruz no cimo de uma serra.

Foi-lhe a vida um eterno mês-de-maio.
Cheio de rezas brancas a Maria,
Que ela vivera como num desmaio.

Tão branca assim! Fizera-se de cera …
Sorriu-lhe Deus e ela que lhe sorria,
Virgem voltou como do céu descera.

Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo perdeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…

Setenário das dores de Nossa Senhora

Foi por aquelas ruas circulares
Que o perdeste, Senhora, e que O não viste,
Sorrindo sob a luz dos seus olhares,
Ele, o Cordeiro amargurado e triste …

Quem pudera chorar os teus pesares,
Quem, na angústia a que o peito não resiste,
Te guiara em via-sacra, pelos lares,
Sentindo toda a mágoa que sentiste!

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Magalhães, Alissa. Alphonsus de Guimaraens; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/alphonsus-de-guimaraens >. Acesso em 18 de novembro de 2019 às 20:05.

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