Anjo Negro

A história do negro que cometeu diversos delitos por não aceitar a própria cor

Anjo Negro” é uma peça teatral escrita por Nelson Rodrigues. Publicada em 1946, apresenta características diferentes do teatro brasileiro da época. Abordando o preconceito racial na sociedade, o espetáculo enfrentou forte censura.

Resumo

A peça “Anjo Negro” é dividida em três atos, sendo o primeiro e o terceiro divididos em dois quadros. A narrativa da  gira em torno do conturbado relacionamento amoroso de Ismael e Virgínia.

Primeiro ato

A história de “Anjo Negro” começa com o velório do terceiro filho do casal. Quando Elias chega na casa,  Ismael o impede de entrar para “ver” o sobrinho.

Elias, um homem branco, bonito e cego, era irmão de criação de Ismael. Ele então informa que foi até lá enviado pela sua mãe para trazer um recado, dizendo-lhe que o irmão havia sido amaldiçoado por ser um filho ruim.

Mesmo após a recusa, Elias pede para ficar na casa de Ismael, pois não tem outro lugar para ir. Este o humilha, mas decide aceitá-lo em sua residência.

ISMAEL – Preferes que eu te expulse daqui. Que te leve de rastos? Ou já perdeste o medo?
ELIAS – Tive medo quando era menino. Naquele tempo, você me batia porque eu não era filho de sua mãe, porque era filho de uma mulher branca com homem branco. Mas hoje, não. Talvez amanhã o medo volte… Eu fico aí em qualquer canto, como um bicho, quieto, não incomodo ninguém juro!
Ismael continua mudo. Elias fala para si mesmo, com certa tristeza e doçura.
ELIAS – Eu não preciso conversar com ninguém, não preciso ver ninguém. Falo, rio, acho graça comigo mesmo é tão bom quando não tem nenhuma pessoa perto!

Após esse episódio, o casal discute no quarto. Ismael tranca a mulher no cômodo e Virgínia se nega a ter outro filho com o marido, pois já não suporta mais a morte.

Livro Anjo Negro
Livro “Anjo Negro” (1946) de Nelson rodrigues. (Foto: Site Saraiva)

Virgínia chora no quarto ao ouvir algumas senhoras, que estavam na sala de sua casa, comentando que ela não foi se despedir do filho morto. Ismael então segue com quatro negros para levar o caixão.

Quando o corpo é levado, uma empregada vai até o quarto de Virgínia, que a chantageia para que a deixe sair. Durante a conversa, a criada informa que Elias encontra-se na casa.

Ao oferecer dinheiro, a empregada destranca Virgínia. Elias e a cunhada se encontram e conversam por um longo período, revelando o passado dos personagens principais.

Elias conta que Ismael nunca se conformou com o fato de ser negro, por isso odeia sua mãe, pois ela também é negra. Além disso, não aceita o fato de ter um irmão branco.

Ainda criança, Elias relata que pediu  ajuda do irmão para resolver um problema na vista. Por conta do seu ódio e inveja, Ismael se aproveitou da oportunidade e o cegou propositadamente.

Virgínia então confessa como acabou se casando com Ismael. Por ter ficado órfã, morava com uma tia, apaixonou-se pelo noivo da prima, que ao flagrá-la aos beijos com o homem, se enforcou no banheiro.  

A tia então tramou uma vingança contra Virgínia quando ela ainda tinha 15 anos. Convidou Ismael, que era amigo da família, para ir até sua casa, ordenou que fosse até o quarto da sobrinha durante a madrugada e a violentasse.

Após isso, Ismael comprou a casa em que Virgínia morava com a tia e passou a mantê-la presa.

VIRGÍNIA – (com rancor) – Foi ela, minha tia, quem chamou Ismael, apontou a escada e disse: “Deixa que ela grite, deixa ela gritar”…Ismael comprou a casa e no dia seguinte ela e as quatro virgens partiram. Voltaram trinta dias depois para o casamento. E agora quando um filho meu nasce e morre a mãe e as filhas vêm assistir ao parto e ao enterro, querem ver se o filho que nasce e morre é preto…

Segundo ato

Após a revelação do passado, Virgínia e Elias se sentem atraídos um pelo outro. Eles mantém relações sexuais e  planejam fugir. Ao chegar do enterro, a tia vê Elias descendo as escadas que dão para o quarto de Virgínia e vai até o cômodo.

Ao encontrar a sobrinha arrumando a cama, começa a atormentá-la por ter uma amante. A tia consegue descobrir a traição e ameaça Virgínia.

Ismael chega em casa e vai direto ao quarto. Durante a discussão, Ismael acusa Virgínia de ter matado seus filhos por eles serem negros. Ela então confessa que matou os filhos por serem negros, este último afogado e os outros dois por envenenamento.

Ismael então afirma que terão outro filho, preto como os outros, e que este ela não matará. Com atitudes amorosas, Virgínia diz ser uma nova mulher e que o próximo viverá e terá seu amor.

Ismael pergunta porque ela deseja o próximo filho, já que nunca o amou. Virgínia diz que o ama e então lhe pede para não falar com a tia e expulsá-la de casa.

No entanto, a tia logo entra na discussão e revela a traição de Virgínia, afirmando que o filho que moça espera não é dele e sim do seu irmão branco. 

Ismael ameaça matar o filho branco de Virgínia e Elias, assim com ela fez com seus filhos negros. Então, para salvar o filho, ela corre para buscar Elias que está em outro quarto esperando-a, mas Ismael o mata com um tiro. Na sala, a tia e suas filhas comemoram ao cogitar que Virgínia está morta.

Terceiro ato

Dezesseis anos se passaram e agora o casal Virgínia e Ismael têm uma filha branca chamada Ana Maria. Ismael cegou a menina quando ainda era um bebê para que ela não soubesse da sua cor.

Ismael fez Ana Maria acreditar que  o pai era o único branco do mundo. Virgínia exige conversar a sós com a menina, algo que Ismael nunca permitiu, e diz que contará toda a verdade a filha.

Ele permite que Ana Maria saiba toda a verdade, inclusive que é negro, mas Virgínia teria que sair de casa, pois ele não a quer mais.

No entanto, a jovem não acredita em nada que a mãe conta. Virgínia diz que a ama e tenta convencê-la a fugir para viver em um lugar onde existem muitos homens brancos que a amarão.

Ana Maria então revela que possui uma relação de homem e mulher com Ismael e que o ama. Virgínia então confessa que a odeia, pois queria ter um filho homem para quando ele crescesse pudesse o amar. 

VIRGÍNIA – (para si mesma) – Oh, quando ele me disse que era uma menina e não menino! Eu vi que nuca teria nesta casa o amor de dois homens! Há quinze anos que não faço outra coisa senão ter ódio de ti.

Ana Maria diz que o tempo de conversa acabou e expulsa a mãe do quarto. Virgínia conversa com Ismael,  que pede para a mulher ir embora, pois viveria o resto da vida com sua filha. 

Virgínia diz a Ismael que se a menina pudesse vê-lo, jamais o amaria, já que ela era apaixonada pelo homem branco que só existia nas histórias que contava. Com raiva, Ismael decide matá-la.

A história termina com Ana Maria presa em um mausoléu de vidro, para que morra aos poucos, e o casal indo para o quarto consumar seu amor.

Análise da obra

Escrita em 1946, a peça “Anjo Negro” de Nelson Rodrigues é baseada nas questões raciais e sexuais, problemas presentes na sociedade, mas pouco abordados naquela época.

A obra foi produzida a partir da percepção do autor referente ao forte preconceito racial existente não apenas nos brancos, mas também do próprio negro.

Rodrigues traz como personagem principal um homem negro fora dos padrões, pois este era médico, pertencia à elite, mas ainda assim sofria com a questão racial.

Na peça, a violência está presente das mais diversas formas. Seja com a não aceitação da própria identidade, violência psicológica e sexual contra a mulher, que dá origem a outros delitos.

“Anjo Negro” chegou a ser censurado, sendo liberado e encenado em 1948, dois anos depois de escrita.

Personagens

  • Ismael: homem negro que não aceita sua etnia, cega o irmão e a filha de propósito por inveja e vergonha de sua cor;
  • Virgínia: mulher branca, vítima sexual e esposa de Ismael. Matou os filhos negros e perdeu a filha branca em um mausoléu;
  • Ana Maria: filha branca de Virgínia com Elias. Fica cega e é abusada sexualmente por Ismael. Termina presa em um mausoléu;
  • Elias: homem branco, irmão de criação de Ismael. Ficou cego e foi assassinado por culpa de seu irmão que tinha inveja de sua cor;
  • Tia: mulher vingativa, fofoqueira e que protetora de suas filhas virgens. Acaba sozinha após a morte de todas as filhas;
  • Primas: filhas da tia que, com exceção de apenas uma, morrem virgem.

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BRITO, Samara. Anjo Negro; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/anjo-negro >. Acesso em 28 de outubro de 2019 às 15:36.

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