Antologia Poética

Coletânea de poemas selecionados pelo poeta Carlos Drummond de Andrade

Antologia Poética é uma obra da década de 1960 que corresponde a vários mundos temáticos escolhidos pelo próprio autor Carlos Drummond de Andrade. O livro é uma visão da criação dele desde o início da década e um reflexo do seu trabalho que atesta a crença apaixonada “na beleza da palavra e no texto elaborado com arte”.

Antologia Poética
Carlos Drummond foi o percursor da antologia poética. (Foto: Site Saraiva)

Antologia Poética e seus poemas

Publicada em 1962, Antologia Poética é dividido em nove partes que apresentam os universos temáticos, que segundo o próprio poeta seriam “certas características, preocupações ou tendências que condicionam ou definem em conjunto”.

As partes são:

  1. Um eu todo retorcido: 19 poemas;
  2. Uma província: 8 poemas;
  3. A família que me dei: 10 poemas;
  4. Cantar de amigos: 7 poemas;
  5. Na praça de convites: 14 poemas;
  6. Amar-amaro: 23 poemas;
  7. Poesia contemplada: 6 poemas;
  8. Uma, duas argolinhas: 5 poemas;
  9. Tentativa de exploração e de interpretação do estar-no-mundo: 28 poemas.

1 – Um eu todo retorcido

Na primeira parte, os poemas tratam da questão do indivíduo, um ser deslocado no mundo. O poema a seguir reflete a imagem tradicional na França do poeta inadaptado.

Poema de sete faces (Fragmento)

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

2 – Uma província

Em volta de uma atmosfera de nostalgia, este bloco de Antologia Poética fala da terra natal do autor, Itabira-MG. Não apenas na parte material da cidade, mas também questiona o espaço como uma criação subjetiva.

Confidência do itabirano (Fragmento)
(Sentimento do mundo)

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Pó isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

3 – A família que me dei

Os poemas expressam uma reflexão relacionada à memória. Memória que articula fragmento com o passado, para dar espaço a saudade e a nostalgia.

Infância / (Fragmento)
[Alguma Poesia]

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé
Comprida história que não acabava mais.

No meio dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longe da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

4 – Cantar de amigos

Essa parte de Antologia Poética trata da amizade, mas de uma amizade criada no plano poético, amigos que são ligados ao eu-lírico.

Cinquentenário do Poeta Brasileiro / (fragmento)

Debruço-me em teus poemas
e neles percebo as ilhas
em que nem tu nem nós habitamos
(ou jamais habitaremos)
e nessas ilhas me banho
num sol que não é dos trópicos,
numa água que não é das fontes
mas que ambos refletem a imagem
de um mundo amoroso e patético.

5 – Na praça de convites

Poemas que se aproximam do recreativo. Busca-se um caminho de linguagem, um significado para o exercício poético no mundo contemporâneo.

Áporo / (Fragmento)

Um inseto cava
Cava sem alarme
Perfurando a terra
Sem achar escape
Que fazer, exausto,
Em país bloqueado,
Enlace de noite Raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.

6 – Amar-amaro

Aqui aparece a inquietação entre o mundo exterior e o ser Drummond. Momento de medo e angústia.

Sentimento do Mundo / (Fragmento)

Tenho apenas duas mãos
E o sentimento do mundo,
Mas estou cheio de escravos,
Minhas lembranças escorrem
E o corpo transige
Na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
Estará morto e saqueado,
Eu mesmo estarei morto,
Morto meu desejo, morto
O pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
Anterior a fronteiras,
Humildemente vos peço
Que me perdoeis.

7 – Poesia contemplada

É a parte da Antologia Poética de cunho metalinguístico, ou seja, Drummond tem uma reflexão sobre o próprio fazer poético. São poesias para falar da própria poesia.

Canção amiga / (Fragmento)
[Novos poemas]

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que falem como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
E saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

8 – Uma, duas argolinhas

Parte da Antologia Poética que fala sobre o conhecimento amoroso. O amor é mais uma criação subjetiva do que um dado natural, um fenômeno externo.

Quadrilha / (Fragmento)
[Alguma Poesia]

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para a tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

9 – Tentativa de exploração e de interpretação do estar-no-mundo

Parte que irá falar do “estar no mundo”. O fazer poético tropeça nas dificuldades do mundo, em que o mundo aparece como uma “máquina” sem sentido. A busca pelo eu além das coisas.

No meio do caminho / (Fragmento)
[Alguma poesia]

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minha retina tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

As composições de Carlos Drummond de Andrade seguem a seguinte estrutura formal:

  • Versilibrismo;
  • Prosaísmo;
  • Linguagem dinâmica e irônica;
  • Cenas do cotidiano;
  • Recriação metonímica da realidade sentida.

Sobre o autor

Carlos Drummond de Andrade é o percursor popular da Antologia Poética. Nasceu em 31 de outubro de 1902, em Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais. Formado em farmácia na cidade de Ouro Preto em 1925, por insistência dos familiares. Grande escritor modernista, fundou a “A Revista” junto com outros escritores.

A partir do anos 1950, dedicou-se cada vez mais à produção literária. Drummond publicou contos, crônicas, literatura infantil e traduções. Suas obras problematizam questões sociais, existencialistas, amorosas e da própria poesia.

Em Antologia Poética, o autor teve o cuidado de selecionar cada poema. A seleção demonstra um elevado grau de entendimento próprio, que envolve tanto no ser Carlos Drummond de Andrade quanto em suas obras. O poeta já escreveu obras como Alguma Poesia, A Rosa do Povo, Sentimentos do Mundo.

Drummond e o Modernismo brasileiro

Carlos Drummond de Andrade segue a linha do verso livre, da liberdade linguística, o metro livre, as temáticas cotidianas. Se for dividir o modernismo no Brasil em correntes, sendo a primeira mais lírica e objetiva e a segunda mais objetiva e concreta, o poeta se encaixaria na segunda corrente.

Antologia Poética está sob domínio público. Faça o download e boa leitura.

Faça a referência deste conteúdo seguindo as normas da ABNT:

Lima, Cleane. Antologia Poética; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/antologia-poetica >. Acesso em 18 de novembro de 2019 às 17:17.

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