Auto da Barca do Inferno

Alegoria dramática que satiriza o julgamento das almas

Capa de Auto da Barca do Inferno
Capa de “Auto da Barca do Inferno” de Gil Vicente (Foto: Site Saraiva)

Na peça “Auto da Barca do Inferno” o autor Gil Vicente coloca alguns personagens, que representam a sociedade de Lisboa no século XVI, diante de um “julgamento” em que será decidido seu futuro.

A peça inicia-se em um porto marítimo imaginário, lá duas barcas estão à espera dos passageiros. A Barca do Inferno, cuja tripulação é o Diabo e o seu Companheiro, e a Barca da Glória, tendo como tripulação um Anjo na proa.

“Auto da Barca do Inferno” é a primeira parte da chamada trilogia das Barcas, seguida de “Auto da Barca do Purgatório” e o “Auto da Barca da Glória”.

Personagens principais

Cada um dos personagens apresentado na obra, trazem consigo elementos simbólicos, que representam os seus pecados durante a vida.

O Anjo e o Diabo, representam o bem e o mal, o céu e o inferno. Eles são os responsáveis por conduzir os julgamentos e as barcas. Os outros são:

  • Brígida Vaz: cafetina que simboliza a degradação moral e a feitiçaria;
  • Corregedor e Procurador: representantes da lei;
  • Frade: representa a igreja e os princípios do catolicismo;
  • Fidalgo: simboliza os nobres de Portugal com a vida regada de luxo;
  • Onzeneiro: caracteriza o homem e seus pecados, através da ganância;
  • Parvo: representa o povo português, ignorante e com pouco civilizado, porém simples e bom de coração;
  • Quatro cavaleiros: cavaleiros de Deus que dedicaram a vida e lutaram para propagar o Cristianismo;
  • Sapateiro: configura um simples trabalhador, que engana e rouba seus clientes.

Enredo

O primeiro a se aproximar das barcas é um Fidalgo, acompanhado por um pajem que carrega sua roupagem exagerada e uma cadeira espaldar para que ele possa descansar, característicos de sua pretensa nobreza.

O Fidalgo dirige-se primeiramente ao batel (barco) infernal, o Diabo então lhe apresenta as vantagens de embarcar para o inferno. Ao ver a barca do Paraíso, deseja viajar nela devido a seu título de nobreza.

O arrais do céu, o Anjo, logo o rejeita. Diz que não é possível transportar a cadeira e sua vestimenta, além disso o acusa de utilizar seu poder sobre os mais desprovidos e desprezá-los por se achar superior.

ANJO Não se embarca tirania
neste batel divinal.

FIDALGO Não sei porque haveis por mal
que entre a minha senhoria…

ANJO Pera vossa fantesia
mui estreita é esta barca.

FIDALGO Pera senhor de tal marca
nom há aqui mais cortesia?
Venha a prancha e atavio!
Levai-me desta ribeira!

ANJO Não vindes vós de maneira
pera entrar neste navio.
Essoutro vai mais vazio:
a cadeira entrará
e o rabo caberá
e todo vosso senhorio.
Ireis lá mais espaçoso,
vós e vossa senhoria,
cuidando na tirania
do pobre povo queixoso.
E porque, de generoso,
desprezastes os pequenos,
achar-vos-eis tanto menos
quanto mais fostes fumoso.

Depois vem o Onzeneiro (agiota), carregando uma bolsa enorme. Assim como todos os personagens que acreditam ter salvação, vai até o Anjo, que o dispensa alegando que a bolsa ocupará todo o navio. Ele então retorna a seu destino, o inferno.

O ciclo (Barca do Inferno, Barca do Céu, Barca do Inferno) se repete com quase todos os personagens. Exceto pelo Parvo, representante dos tolos, que apesar de deleitar-se com suas palavras chulas, não tem malicia e é dotado de simplicidade.

Hiu! Hiu! Barca do cornudo.
Pêro Vinagre, beiçudo, rachador d’Alverca, huhá!
Sapateiro da Candosa!
Antrecosto de carrapato!
Hiu! Hiu! Caga no sapato, filho da grande aleivosa!
Tua mulher é tinhosa e há-de parir um sapo chantado no guardanapo!
Neto de cagarrinhosa!

Posteriormente, chegou a barca dos danados:

O Sapateiro, com seu avental e carregando seu material de trabalho, esperando ser salvo por ter confessado seus pecados antes de morrer, contundo foi condenado por roubar seus clientes logo após a missa. 

Sapateiro — Os que morrem confessados onde têm sua passagem?

Diabo — Nom cures de mais linguagem!
Esta é a tua barca, esta!

Sapateiro — Renegaria eu da festa e da puta da barcagem!
Como poderá isso ser, confessado e comungado?!…

Diabo — Tu morreste excomungado:
Nom o quiseste dizer.
Esperavas de viver, calaste dous mil enganos…
Tu roubaste bem trint’anos o povo com teu mester.
Embarca, era má para ti, que há já muito que t’espero!

Sapateiro — Pois digo-te que nom quero!

Diabo — Que te pês, hás de ir, si, si!

Sapateiro — Quantas missas eu ouvi, nom me hão elas de prestar?

Diabo — Ouvir missa, então roubar, é caminho per’aqui.

Sapateiro — E as ofertas que darão?
E as horas dos finados?

Diabo — E os dinheiros mal levados, que foi da satisfação?

O Frade, carregando armas de combate, trazia consigo uma amante e acreditava que seria perdoado graças a sua condição de sacerdote. Foi ironizado pelo Diabo, e pelo Parvo, assim seguiu para a barca rumo ao porto de Lúcifer.

Brísida Vaz era a dona de um prostíbulo, carregava vários apetrechos e artigos de feitiçaria. Destinada a perdição, tentou a redenção sob o argumento de que salvou mais garotas que a Santa Úrsula.

Anjo:— Eu não sei quem te cá traz…

Brízida —Peço-vo-lo de giolhos!

Cuidais que trago piolhos,
anjo de Deos, minha rosa?
Eu sô aquela preciosa
que dava as moças a molhos,
a que criava as meninas
para os cônegos da Sé…
Passai-me, por vossa fé,
meu amor, minhas boninas,
olho de perninhas finas!
E eu som apostolada,
angelada e martelada,
e fiz cousas mui divinas.

Santa Úrsula nom converteu
tantas cachopas como eu:
todas salvas polo meu
que nenhuma se perdeu.
E prouve Àquele do Céu
que todas acharam dono.
Cuidais que dormia eu sono?
Nem ponto se me perdeu!

O Judeu apareceu acompanhado de um bode, como nunca seguiu a fé cristã, não entendeu o que estava acontecendo. Nem o Anjo, nem o Diabo deseja levado. Por fim, o Diabo aceita carregá-lo a reboque.

Cheios de livros e de processos, chegam também o Corregedor e o Procurador falando uma língua cheia de citações incorretas em latim. Ridicularizados pelo Parvo, são julgador por manipular e utilizar as leis e a justiça para interesses pessoais. Logo, vão direto a barca do inferno.

Enganado por lhe dizerem que iria para o céu se acabasse com a própria vida, o Enforcado também é condenado e ocupa o pouco espaço restante na nau satânica.

Diabo — Entra, entra no batel, que ao Inferno hás de ir!

Enforcado — O Moniz há-de mentir?
Disse-me que com São Miguel
jantaria pão e mel
tanto que fosse enforcado.
Ora, já passei meu fado,
e já feito é o burel.
Agora não sei que é isso:
não me falou em ribeira,
nem barqueiro, nem barqueira,
senão – logo ò Paraíso.
Isto muito em seu siso.
e era santo o meu baraço…
Eu não sei que aqui faço:
que é desta glória improviso?

Diabo — Falou-te no Purgatório?

Enforcado — Disse que era o Limoeiro, e ora por ele o salteiro e o pregão vitatório;
e que era mui notório que àqueles disciplinados eram horas dos finados e missas de
São Gregório.

Por fim, aparecem quatro cavaleiros trazendo uma cruz. Aparentam ter morrido defendendo a fé cristã, o Diabo logo se recusa a leva-los em sua embarcação, encaminhando-os à barca celeste.

Em suma, apenas o Parvo e os quatro cavaleiros embarcam na Barca da Glória. Todos os outros são almas pecadoras.

Análise da obra “Auto da Barca do Inferno”

Escrita em 1517 pelo poeta e dramaturgo português Gil Vicente, “Auto da Barca do Inferno” também é conhecida como “Auto da Moralidade”.

A produção literária que faz parte do período do Humanismo, é uma das peças mais simbólicas do autor e um grande clássico da literatura portuguesa por se tratar de uma espécie de sátira a moralidade social.

O julgamento das almas é feito mediante ao que elas representaram em vida, sem qualquer atribuição de características individuais. Isso porque o autor intenciona usá-los como modelo para representar o comportamento de determinados grupos sociais da época.

Faça o download do PDF do livro “Auto da Barca do Inferno”.

Faça a referência deste conteúdo seguindo as normas da ABNT:

BRITO, Samara. Auto da Barca do Inferno; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/auto-da-barca-do-inferno >. Acesso em 28 de outubro de 2019 às 14:32.

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