Caramuru

Europeu que deu início ao processo de colonização da Bahia

O apelido de Caramurú dado a Diogo Álvares Correia foi atribuído pelos tupinambás. Caramurú viveu no Brasil, na Baía de Todos os Santos, quando chegou a região pela expedição de Martim Afonso de Souza, em 1531. Estima-se que ele viveu um período de 22 anos entre os índios, após naufragar em costas brasileiras.

Sua sobrevivência no Brasil é muito curiosa. Quando houve o náufrago, oito companheiros que estavam com Caramurú foram devorados pelos índios brasileiros. Não se sabe ao certo como ele conseguiu sobreviver entre o povo indígena.

Algumas versões afirmam que Caramurú tinha uma arma de fogo e disparou na frente de alguns índios, que não conheciam a pólvora, o que gerou medo e respeito.

Outras histórias contam que por ser muito magro, não teria criado interesse nos índios.

Caramuru facilitou e promoveu relações entre os índios e os portugueses. Ele tinha facilidade em dialogar com as tribos, tanto que conseguiu ganhar a confiança da principal tribo e se casou com a índia Paraguaçu, com quem teve quatro filhas.

As filhas do casal contribuíram para a miscigenação do Brasil. Casaram-se com portugueses e integraram às mais tradicionais famílias baianas, como os Moniz, os da Torre e os Garcia d’Ávila.

O náufrago

Caramurú foi vítima de náufrago de uma suposta embarcação francesa. Esse acidente aconteceu na costa do Arraial do Rio Vermelho, em Salvador, na Baía de Todos os Santos, quando seguia para São Vicente.

O apelido Caramuru, que remete a peixe, foi dado justamente por causa dessa situação. Ele teria sido encontrado pelos índios nas águas, entre as pedras.

O modo como Diogo Álvares Correia conquistou a confiança dos índios foi muito discutido ao longo da história do Brasil. O episódio com a arma de fogo sugere que os índios passaram a ter uma relação de respeito e medo com o português.

Caramuru conseguiu “amaciar” o chefe dessa tribo, conhecido por ser um homem duro, Taparica, pai de Paraguaçu.

 O náufrago abriu as portas para os portugueses dialogarem com os índios, o que permitiu esses homens levarem matéria prima do Brasil para o continente europeu.

Entre muitos trânsitos nesse sentido, o produto mais levado de um país para o outro foi o pau-brasil. Essas exportações duraram cerca de quatro décadas, e Caramurú intermediava a chegada e a saída dos navios.

Vida amorosa de Caramuru

São muitos os mitos escritos retratando a vida de Caramuru. Isso inclui a vida amorosa. Algumas dessas histórias afirmam que a facilidade que o português tinha de lidar com os indígenas teria sido originada de seu romance com Paraguaçu.

Esses contos chegam a afirmar que Caramuru não foi devorado pelos índios por causa de sua futura esposa.

Apaixonados, Paraguaçu deixou a tribo que vivia e viajou para a França para conhecer mais da cultura europeia. Chegando no continente, a índia foi batizada na igreja de Saint-Malo, com o nome de Catarina do Brasil, em homenagem a sua madrinha Catherine des Granges.

Quando retornaram ao Brasil, Caramuru que tinha aliança com o rei de Portugal, combinou um plano para colonizar a Bahia. Essa expedição foi liderada por Tomé de Souza, que chegou ao país tropical em 1549.

Caramuru e Paraguaçu formaram a primeira família do Brasil. Estima-se que sua descendência ultrapasse 50 milhões de brasileiros. Caramuru teve mais 16 filhos fora do casamento com outras indígenas.

Escultura de Caramuru e Paraguaçu
Escultura de Caramuru e Paraguaçu, Viana do Castelo – Portugal (Foto: Wikipédia)

Colonização da Bahia

Caramuru teve ligação direta no processo de colonização da Bahia no Brasil. Ele e João Ramalho, outro europeu que também colaborou diretamente para que esse fato acontecesse, tinham muitas coisas em comum.

Ambos tinham muitos filhos, poder e respeito entre os indígenas. Ambos cooperaram diretamente para a colonização da Bahia, protegendo os europeus que chegavam ao Brasil em busca de ouro, madeira e outras riquezas naturais.

O processo de colonização foi ganhando espaço aos poucos. Caramuru e Ramalho socorriam homens que naufragavam, lhes protegiam e abrigavam, em troca recebiam armamentos, moedas de ouro e outras recompensas.

Com o domínio que ambos tinham sobre os índios, o processo de colonização tornou-se mais ágil e amplo.

A coroa portuguesa reconhecendo o papel importante que esses homens realizaram, atribuiu títulos oficiais às duas personalidades.

João Ramalho em 1553, foi nomeado capitão da vila de Santo André por Tomé de Sousa, sendo assim o primeiro governador geral do Brasil.

Veja parte da carta de Dom João III (linguagem atual), enviada a Caramuru através de Gramatão Telles, solicitando ajuda para a fundação de Salvador e o estabelecimento do Governo Geral. Caramuru deu todo apoio a Thomé de Sousa.

Trecho:

Foi este Diogo Álvares Correa, natural de Vianna, pessoa nobre, e de linhagem conhecida da Província de Entre Douro, e Minho. Era moço, e o desejo, que levava a outros muitos sujeitos da sua qualidade naqueles tempos a sair de suas pátrias, e buscar nas novas conquistas do Reino alguma aventura, o arrastava agora para a da Índia* em companhia de um tio seu, que em certa nau fazia para lá a sua derrota. […] a sua nau se veio meter na grande boca da Enseada da Bahia, agitada de ventos contrários, onde sobrevindo-lhe outra tempestade, deu com ela, quebrados os mastros, e perdido o rumo, nos baixios, que ficam a leste da sua barra, a que o gentio chamava Mairagúiquiing**; em fronte donde se mete no mar o Rio Vermelho, uma légua distante da ponta, que dizem do Padrão (atual Farol da Barra). Aqui tiveram todos, com a perda da nau, lastimoso naufrágio, do qual os que livraram com vida, não escaparam de serem presas do bárbaro gentio tupinambá, que habitava aquela costa, e ali acudiu, fazendo pilhagem, não só no que a despedaçada nau lançava às praias, muito melhor dos miseráveis naufragados, que recolhidos às suas estacadas, lhes foram servindo de gostoso manjar para repetidos dias. Menos Diogo Álvares Correa, que ou a sua sorte, ou a sua viveza, ou tudo junto com superior destino, lhe administrou para isso meios oportunos.

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Luna, Fernanda. Caramuru; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/caramuru >. Acesso em 28 de outubro de 2019 às 20:26.

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