Cartas Chilenas

Conjunto de poemas satíricos que criticam o governo mineiro

Cartas Chilenas” é um conjunto de poemas satíricos que circularam anonimamente em Vila Rica (atual Ouro Preto), entre 1787 e 1788, criticando e denunciando, de maneira indireta, a administração e o governador mineiro da época.

Resumo

Livro Cartas Chilenas
Livro “Cartas Chilenas” (1845) de Tomás António Gonzaga. (Foto: Livraria Cultura)

A história da obra se trata do envio de cartas, que na verdade são poemas escritos em versos decassílabos brancos, escritas por Critilo com destino a seu amigo Doroteu.

Critilo mora na cidade de Santiago, no Chile, e através de treze “Cartas Chilenas” enviadas a Doroteu, residente na Espanha, narra os casos de abuso cometidos pelo então governador chileno Fanfarrão Minésio.

Todo o conteúdo das cartas abordam à tirania e o abuso de poder do governador, poetizando o nepotismo, a violência, o ato de corrupção, o abuso do poder, a falta de conhecimento dos cidadãos e diversos erros administrativos, jurídicos e morais do governador.

Para Critilo, o governo autocrático constituía um atentado ao equilíbrio natural da sociedade. Contudo, as mensagens sarcásticas não apresenta nenhuma revolta em relação ao sistema colonial ou ao colonizador.

Mas, na realidade, toda a história e acontecimentos revelados nas cartas anônimas se referem a conduta de Luís da Cunha Meneses, governador de Minas Gerais no período em que os manuscritos circulavam pelas ruas.

Através das circunstâncias relatadas, percebe-se também que o país retratado não é o Chile, mas sim Minas Gerais. A cidade não é Santiago, mas Vila Rica, e que Doroteu é um pseudônimo para Cláudio Manuel da Costa, um poeta português.

Análise do livro “Cartas Chilenas”

“Cartas Chilenas” é uma obra composta por poemas satíricos, em versos decassílabos brancos (sem rimas), que criticam as irregularidades do governo mineiro.

As treze cartas escritas no período arcádico no Brasil, entre 1783-1788 (final do século XVIII), que circularam anonimamente por Vila Rica pouco antes da Inconfidência Mineira, em 1789, levantou discussões e estudos a respeito da autoria.

Após estudos de Afonso Arinos e Rodrigues Lapa sobre os possíveis autores, concluiu-se que o verdadeiro autor dos poemas era Tomás Antônio Gonzaga e que seus manuscritos tinham sido influenciados pela obra “Cartas Persas” (1721) de Montesquieu.

O discurso enfático e irônico de Gonzaga apresenta linguagem direta e total aproximação do leitor, propondo quase uma conversa entre autor e receptor. Além de abordar o cenário social, histórico e político brasileiro da época.

Sete, das treze cartas, foram impressas pela primeira vez em 1845. Posteriormente, a totalidade das cartas chilenas encontradas até o momento teve publicação em 1863.

Conteúdo das cartas

Carta: Em que se descreve a entrada que fez Fanfarrão em Chile.

Ah! pobre Chile, que desgraça esperas!
Quanto melhor te fora se sentisses
As pragas, que no Egito se choraram,
Do que veres que sobe ao teu governo
Carrancudo casquilho, a quem rodeiam
Os néscios, os marotos e os peraltas!

2ª Carta: Em que se mostra a piedade que Fanfarrão fingiu no princípio do seu governo para chamar a si todos os negócios.

As rédeas manejou, do seu governo,
Fingir-nos intentou que tinha uma alma
Amante da virtude. Assim foi Nero.
Governou aos romanos pelas regras
Da formosa justiça, porém logo
Trocou o cetro de ouro em mão de ferro.

3ª e 4ª Cartas: Em que se contam as injustiças e violências que Fanfarrão executou por causa de uma cadeia, a que deu princípio.

Por uma civil morte se reputa.
Que peito, Doroteu, que duro peito
Não que deve ter um chefe, que atormenta
A tantos inocentes por capricho?
Que se arrisque o vassalo na campanha,
É uma digna ação que a pátria exige,
Nem este grande risco nos estraga
O pundonor, que vale mais que a vida;

5ª Carta: Em que se contam as desordens feitas nas festas que se celebraram nos desposórios do nosso sereníssimo infante, com a sereníssima infanta de Portugal.

Os grandes desconcertos, que executam
Os homens que governam, só motivam,
Na pessoa composta, horror e tédio.
Quem pode, Doroteu, zombar, contente,
Do César dos romanos, que gastava
As horas, em caçar imundas moscas?
Apenas isto lemos, o discurso
Se aflige, na certeza de que um César,
De espíritos tão baixos, não podia
Obrar um fato bom, no seu governo.

6ª Carta: Em que se conta o resto dos festejos.

Meu esperto boizinho, em paz te fica,
Que o nosso chefe ordena te recolham
Sem fazeres mais sorte, e te reserva
Para ao curro saíres, quando forem
Do Senhor do Bonfim as grandes festas.
Agora sai um touro, que é prudente.
Se o capinha o procura, logo foge.

7ª Carta: Sobre as decisões arbitrárias de Fanfarrão.

Enquanto ao conhecer destes despejos,
Pespega à lei a boa inteligência,
Que extensiva se chama. Sim, entende
Que aonde o rei ordena que só haja
Recurso a ele mesmo, nos faculta
Recurso aos generais, pois que estes fazem,
Em tudo, e mais que em tudo, as suas vezes.
Ah! dize, meu amigo, se podia
Dar-lhe outra inteligência o mesmo Acúrsio.

8ª Carta: Em que se trata da venda dos despachos e contratos.

Cada triênio, pois, os nossos chefes
Levantam duas quintas ou beldades,
E, quando o lavrador da terra inculta
Despende o seu dinheiro, no princípio,
Fazendo levantar, de paus robustos,
As casas de vivenda e, junto delas,
Em volta de um terreiro, as vis senzalas,
Os nossos generais, pelo contrário,
Quando estas quintas fazem, logo embolsam
Uma grande porção de louras barras.

9ª Carta: Em que se contam as desordens que Fanfarrão obrou no governo das tropas.

Os corpos que governam, em sossego,
Consiste em repartirem com mão reta
Os prêmios e os castigos, pois que poucos
Os delitos evitam, porque prezam
A cândida virtude. Os mais dos homens
Aos vícios fogem, porque as penas temem.
Ora ouve, Doroteu, o como o chefe
Os castigos reparte aos seus guerreiros.
Não há, não há distúrbio nesta terra,
De que mão militar não seja autora.

10ª Carta: Em que se contam as desordens maiores que Fanfarrão fez no seu governo.

Eis aqui, Doroteu, o que nos nega
Uma heróica virtude. Um louco chefe
O poder exercita do monarca
E os súditos não devem nem fugir-lhe
Nem tirar-lhe da mão a injusta espada.
Mas, caro Doroteu, um chefe destes
Só vem para castigo de pecados.
Os deuses não carecem de mandarem
Flagelos esquisitos; quasi sempre
Nos punem com as coisas ordinárias.
O mundo inda não viu senão um corpo
Em branco sal mudado, e só no Egito
Fez novas penas de Moisés a vara.

11ª Carta: Em que se contam as brejeirices de Fanfarrão.

Uma mui grande parte destes chefes
Assenta em procurar seu interesse
Por todos os caminhos, e acredita
Que o brio e pundonor, que nós prezamos,
São umas vãs fantasmas, que só devem
Honrar de simples voz aqueles homens,
Que vêm de uma distinta e velha raca.
Para estes a nobreza está nos termos
Do sórdido monturo em que se deita
Quanta imundície têm as velhas casas.

12ª Carta: Imoralidade e atos prepotentes de Fanfarrão em prol de seus protegidos.

Não penses, Doroteu, que o nosso chefe
Comeu este dinheiro. Longe, longe
De nós este tão baixo pensamento.
Indo já no caminho, o seu Matúsio
Passou, sobre Marquésio, certa letra.
Para que se pagasse ao Santo Cristo.
Agora considera se este fato
Não mostra que ele zela a consciência

13ª Carta: Existe apenas um curto fragmento.

A nação, ignorante, se convence
De que este seu profeta conhecia
Os segredos do céu, por este meio.
Não há, meu Doroteu, não há um chefe,
Bem que perverso seja, que não finja,
Pela religião, um justo zelo,
E, quando não o faça por virtude,
Sempre, ao menos, o mostra por sistema.

Personagens da obra

  • Critilo: narrador da história e emissor das cartas;
  • Doroteu: receptor das cartas;
  • Fanfarrão Minésio: governador do Chile e protagonista dos acontecimentos narrados.

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BRITO, Samara. Cartas Chilenas; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/cartas-chilenas >. Acesso em 28 de outubro de 2019 às 14:26.

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