Dom Casmurro

Clássico da literatura apresenta a história de amor e possível traição entre Bentinho e Capitu.

A obra começa com o episódio que deu origem a alcunha para o narrador da história, Bento Santiago. Após cochilar enquanto um jovem rapaz tenta recitar para ele alguns de seus versos, Bentinho foi chamado de Dom Casmurro, apelido que pegou entre seus vizinhos e amigos da cidade.

Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando!

Bentinho é um velho que vive apenas com um criado. Assim, cansado da monotonia, decide escrever um livro com o objetivo de narrar suas memórias e atar as duas pontas de sua vida.

Capa do Livro "Dom Casmurro"
Capa de “Dom Casmurro”, escrito por Machado de Assis (Foto: Saraiva)

A história começa no ano de 1857, quando Bentinho esconde-se atrás da porta e descobre a intenção de sua mãe de colocá-lo no seminário, instituição da Igreja Católica dedicada à formação de seus candidatos ao ministério sagrado

Sua mãe, Dona Glória, era uma mulher muito religiosa. Quando seu primeiro filho nasceu morto, prometeu que se o próximo nascesse com saúde e fosse menino, o colocaria na igreja.

Apaixonado por sua vizinha, a jovem Capitu, Bentinho tenta reverter a promessa de sua mãe de as formas, contando com a ajuda de José Dias.

Capitu era uma garota curiosa, aos sete anos aprendeu a ler, a escrever e a contar. Aprendeu também inglês com um amigo do pai, e latim por não ser língua de meninas. Jogava gamão, desenhava, pintava e tocava. 

Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.

Dom Casmurro prometeu rezar mil padre-nossos e mil ave-marias se José Dias conseguisse convencer sua mãe a não mandá-lo para o seminário. Certo dia, tirou dois vinténs do bolso e deu a um mendigo na esperança de que essa ação pudesse satisfazer seu desejo.

Diante de toda a inquietude de se tornar padre, o futuro indefinido com sua amada afeta Bentinho. Após um beijo, ele promete a Capitu que se casaria apenas com ela.

Aos quinze anos, sem vocação nenhuma para ser padre, Bentinho se vê obrigado a partir para o seminário. Prefere estudar direito em São Paulo, porém a mãe precisa cumprir a promessa que fizera.

Meses depois fui para o seminário de São José. Se eu pudesse contar as lágrimas que chorei na véspera e na manhã, somaria mais que todas as vertidas desde Adão e Eva. Há nisto alguma exageração; mas é bom ser enfático, uma ou outra vez, para compensar este escrúpulo de exatidão que me aflige.

Com a ausência de Bentinho, Capitu torna-se cada vez mais próxima de Dona Glória, que começa a ver com bons olhos a relação entre a garota e o seu filho.

No seminário, o protagonista conhece Ezequiel de Souza Escobar, que se torna seu melhor amigo e confidente. Escobar também não planejava se tornar padre, mas sim comerciante. Durante uma visita à família de Bentinho, Escobar conhece Capitu.

Dona Glória, estava arrependida de enviar o filho para o seminário, porém o vínculo moral com a promessa era inalterável. Pondera pedir, então, perdão ao papa, mas Escobar tem um plano ainda melhor. 

— Sua mãe fez promessa a Deus de lhe dar um sacerdote, não é? Pois bem, dê lhe um sacerdote, que não seja você. Ela pode muito bem tomar a si algum mocinho órfão, fazê-lo ordenar à sua custa, está dado um padre ao altar, sem que você…

Sendo assim, aos dezessete anos Bentinho deixa a igreja e vai estudar, aos vinte e dois torna-se bacharel em Direito.

No decorrer desse tempo, tudo estava diferente. Sua mãe envelhecerá, Tio Cosme sofria do coração, prima Justina estava mais idosa, assim como José Dias. A mãe de Capitu falecerá e o pai aposentara-se.

Escobar começava a negociar em café, ganhou a confiança de Capitu e tornou-se o mensageiro na troca de cartas entre ela e Bentinho. Fortaleceu sua relação com pai de Sancha, amiga de infância de Capitu, com quem casou-se.

Em uma tarde chuvosa de março, em 1865, ocorre o tão esperado casamento de Bentinho e Capitu.

A alegria com que pôs o seu chapéu de casada, e o ar de casada com que me deu a mão para entrar e sair do carro, e o braço para andar na rua, tudo me mostrou que a causa da impaciência de Capitu eram os sinais exteriores do novo estado. Não lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas árvores; precisava do resto do mundo também. E quando eu me vi embaixo, pisando as ruas com ela, parando, olhando, falando, senti a mesma coisa. Inventava passeios para que me vissem, me confirmassem e me invejassem.

Aos dois anos casado tudo ia bem, exceto pelo descontentamento do casal de não ter um filho. Capitu pedia em orações, Bento rezava e, diferente de quando era criança, pagava as promessas antecipadamente. Mas não vinha.

Escobar e Sancha continuam amigos do casal. Tinham uma filha, que deram o mesmo nome de Capitu, e mesmo diante das aventuras do marido, viviam felizes.

Tempos depois, finalmente, nasceu um menino a quem chamaram de Ezequiel, primeiro nome de Escobar, retribuindo a homenagem.

Aos cinco e seis anos, Ezequiel não parecia desmentir os meus sonhos da Praia da Glória; ao contrário, adivinhavam-se nele todas as vocações possíveis, desde vadio até apóstolo. Vadio é aqui posto no bom sentido, no sentido de homem que pensa e cala; metia-se às vezes consigo, e nisto fazia lembrar a mãe, desde pequena.

Bentinho começa a observar as semelhanças do filho com o seu melhor amigo, mas como as famílias eram muito próximas, acreditava que o menino imitava o jeito de seu amigo.

Certa noite, em uma das reuniões entre os casais, Bentinho sente certa malícia no olhar de Sancha.Considera-se desleal ao se pegar pensando na figura da mulher do amigo.

Sinceramente, eu achava-me mal entre um amigo e a atração.

Certo dia, Bentinho é chamado às pressas por um escravo da casa de Sancha. No caminho descobre que Escobar foi nadar, como fazia todos os dias, porém morreu afogado.

É durante o enterro de Escobar que Bentinho começa especular a traição da esposa com seu melhor amigo.

A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas…

Logo Bentinho passa a observar as lágrimas de Capitu, que fita o defunto como os olhos da viúva. Como se quisesse absorvê-lo. Tomado pelo ciúme, Bentinho pensa em jogar o caixão do defunto no meio da rua, impulso que não tem coragem de realizar por ser medroso.

Cismado, começa a somar os acontecimentos. Lembra-se do desespero de Sancha e pensa se não seria o mesmo caso de Capitu, além da aparência do seu filho cada vez mais semelhante a do falecido Escobar.

Nem só os olhos, mas as restantes feições, a cara, o corpo, a pessoa inteira, iam se apurando com o tempo.
(…)
Escobar vinha assim surgindo da sepultura, do seminário e do Flamengo para se sentar comigo à mesa, receber-me na escada, beijar-me no gabinete de manhã, ou pedir-me à noite a bênção do costume.

Bentinho pensa em se suicidar bebendo uma xícara de café envenenado quando é surpreendido pela presença de Ezequiel. Então, decide em envenenar o menino oferecendo-lhe o café, porém recua e afirma não ser seu pai.

Capitu ouve a declaração de Bentinho e o questiona. Nega a traição e alega que tal conclusão por parte do marido se deu devido a casualidade da semelhança entre o filho e o falecido. Então, decidem se separar.

Com o intuito de abafar o escândalo, Bentinho arruma uma viagem para a Europa com a família e retorna sozinho ao Brasil. Passa a responder as cartas enviadas por Capitu de forma breve e seca.

Após o falecimento de sua mãe e de José Dias, Bentinho passa, pouco a pouco, a se tornar Dom Casmurro. Capitu morre no exterior e Ezequiel volta ao Brasil na tentativa de refazer os laços com o pai que porta-se como um pai ao mesmo tempo manso e crespo.

Não me mexi; era nem mais nem menos o meu antigo e jovem companheiro do seminário de São José, um pouco mais baixo, menos cheio de corpo e, salvo as cores, que eram vivas, o mesmo rosto do meu amigo.

Meses depois, Ezequiel faz uma viagem científica à Grécia, ao Egito, e à Palestina, mas morre de uma febre tifoide. Por fim, Dom Casmurro fica sozinho. Não consegue superar o amor por Capitu, mas resume a história da sua vida a traição entre sua primeira amiga e seu maior amigo.

Análise da obra “Dom Casmurro”

“Dom Casmurro” é uma obra do escritor brasileiro Machado de Assis, publicado pela primeira vez 1899. Considerado pela crítica como o terceiro romance da trilogia realista do autor ao lado de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881) e “Quincas Borba” (1891).

Trata-se de uma obra do Realismo, caracterizado pela linguagem direta, objetivismo, pelo personagem com mais defeitos que qualidades e a não idealização da mulher. Possui uma temática diferente do Romantismo, como a abordagem do adultério, ambição e vaidade.

Narrado em ordem cronológica, e em primeira pessoa, a obra “Dom Casmurro” funciona como uma espécie de pseudo-biografia de Bentinho, que narra suas memórias da infância até a atualidade de sua vida.

Na narrativa há duas questões que desenvolve uma espécie de mistério. A primeira é: não conhecemos verdadeiramente os personagens, já que toda reputação atribuída a eles se trata de uma narração das memórias de Bento Santiago.

A segunda é que não há comprovação da traição. Por se tratar das situações que Dom Casmurro vivenciou, não há relato de um momento de infidelidade entre Capitu e Escobar, desta forma, a conclusão se houve ou não traição fica a cargo do leitor.

Principais personagens

  • Bento Santiago (Bentinho): protagonista e narrador da história.
  • Capitu: vizinha, amiga de infância e grande amor de Bento.
  • Ezequiel de Souza Escobar: melhor amigo de Bento no seminário.
  • Ezequiel: filho de Bento e Capitu.
  • Dona Glória: mãe de Bento.
  • Sancha: amiga de Capitu e mulher de Escobar.
  • José Dias: médico agregado que vive de favores na casa de Dona Glória.
  • Cosme: tio de Bento, advogado e irmão de Dona Glória.
  • Senhor Pádua e Dona Fortunata: Pais de Capitu.
  • Capituzinha: filha de Escobar e Sancha.
  • Justina: prima de Dona Glória.

Curiosidades

  • Duas adaptações cinematográficas foram feitas baseadas no romance “Dom Casmurro”.  “Capitu” em 1968 dirigido por Paulo Cesar Saraceni e “Dom” em 2003 dirigido por Moacyr Góes.
  • Em comemoração ao centenário da morte de Machado de Assis, a Rede Globo realizou uma minissérie chamada “Capitu” (2008) dirigida por Luiz Fernando Carvalho e escrita por Euclydes Marinho.
  • A história de amor de “Dom Casmurro” também serviu de inspiração para a música. Luiz Tatit compôs “Capitu”, canção que foi interpretada pela cantora Ná Ozzetti. Já o compositor Ronaldo Miranda escreveu uma ópera com libreto de Orlando Cordá que estreou em maio de 1992 no Theatro Municipal de São Paulo.

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BRITO, Samara. Dom Casmurro; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/dom-casmurro >. Acesso em 18 de novembro de 2019 às 17:07.

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