Dora, Doralina

Romance que narra a história de Dôra, uma mulher submissa a sua mãe

Dora, Doralina” é um romance da escritora cearense, Rachel de Queiroz, publicado pela primeira vez em 1975.

Na época, Rachel de Queiroz já era famosa pelo clássico da literatura brasileira, “O Quinze”.

Quando “Dora, Doralina” foi publicado, a obra também teve muita visibilidade a ponto de ser adaptada para o cinema brasileiro em 1982, com direção de Perry Salles.

“Dora, Doralina” é dividida em três partes: Livro de Senhora, Livro de Companhia e Livro do Comandante. Os três livros narra a história de Maria das Dores, ou Dôra, como ela preferia ser chamada.

Dôra é uma jovem simples que vive na fazenda Soledade, no agreste nordestino no interior do Ceará, sob o domínio de sua mãe. Tratada como Senhora, a mãe de Dôra era uma mulher que dominava tudo e todos.

As três partes de “Dora, Doralina” traz a trajetória de Maria das Dores que se muda da fazenda para Fortaleza, depois para o Rio de Janeiro e por fim, seu retorno a fazenda.

Capa do romance “Dora, Doralina”
Capa do romance “Dora, Doralina”. (Foto: Site Amazon)

Principais personagens de “Dora, Doralina”

  • Maria das Dores: protagonista da história. É uma jovem que prefere ser chamada de “Dôra”. Ela vive submissa ao domínio da mãe, Senhora, até que decide partir para Fortaleza buscar liberdade.
  • Senhora: mãe de Maria das Dores. É uma mulher que domina tudo e todos da fazenda Soledade.
  • Laurindo: agrimensor que se casa com Maria das Dores, mas em um casamento de convenção familiar e não de amor.
  • Cadente Lucas: comandante de um navio por quem Dôra se apaixona perdidamente. Contudo, é um homem machista, com tendências a bebedeira e a violência.
  • Brandini: dono da Companhia de Teatro, onde Maria das Dores passa a integrar e viajar pelo país.
  • Belmiro: um fugitivo suspeito de ter matado Laurindo para livrar Dôra do infeliz casamento.

“Dora, Doralina”: Livro de Senhora

A primeira parte de “Dora, Doralina” se dedica a vida de Dôra ainda morando na fazenda da Soledade.

Dôra perdeu o pai logo cedo e é criada pela mãe, Senhora, uma mulher dominadora que ao invés de dar amor a filha, dar indiferença.

Mesmo a obra não deixando claro quais os motivos, Senhora e Dôra não se dão muito bem. Elas não se amam como mãe e filha, mas se suportam.

Segundo Senhora, o nome Maria das Dores foi dado a Dôra como uma promessa as dificuldades que teve no parto. Contudo, Dôra acha o nome horrível e acredita que a mãe lhe deu esse nome como castigo.

Além disso, Dôra gostaria de conversar sobre o pai, já que o perdeu quando ainda era criança. Contudo, é um dos assuntos que Senhora não conversa de forma alguma.

A narrativa do livro deixa bem claro o quão dominadora é Senhora, não somente com a filha, mas com todos que vivem na fazenda.

Um dia, para resolver uma questão acerca de terras, Senhora e um vizinho chamam Laurindo, um agrimensor para solucionar a questão. Nesse contato, ele conhece Dôra.

Dôra e Laurindo se casam, não em um casamento de amor, mas um casamento meramente social. Eles se casam mais por uma questão de convenção familiar.

Contudo, mesmo depois do casamento Dôra continua morando com a mãe. Ou seja, ela ainda tem que aguentar o domínio de Senhora.

Até que seu marido, Laurindo, é morto e ninguém sabe por quem. Mesmo sendo um caso que não é desvendado durante a narrativa, o livro deixa suspeitas de que o crime pode ter sido cometido por Belmiro.

Belmiro era um fugitivo que recebeu os cuidados por Dôra quando apareceu ferido em Soledade. Belmiro adora Doralina, e a acha uma santa.

Após o crime, Dôra finalmente resolve se livrar do domínio da mãe e procura liberdade em Fortaleza.

Livro de Companhia

A segunda parte de “Dora, Doralina” se inicia quando Dôra vai embora da fazenda Soledade e se muda para Fortaleza. Lá, ela vai morar na pensão de D. Loura e trabalha administrando a pensão.

Rachel de Queiroz, autora de “ Dora, Doralina”. (Foto: Wikipédia)

Dôra conhece senhor Brandini, dono da Cia de Comédias e Burletas Brandici Junior, e então passa a fazer parte da Companhia de Teatro como atriz e viaja por todos os lugares.

Dôra, não é mais a mesma Dôra da fazenda, agora ela se abre para novas experiências. Assume o nome de palco “Nely Sorel” e faz diversas apresentações pelo país com a Companhia de Teatro.

Ela se torna uma mulher mais madura e convicta dos seus princípios e valores. Sabe lidar com o jeito malandro do senhor Brandini e com as investidas dos homens em geral.

A fase na Companhia de Teatro se trata da aprendizagem e da liberdade que ela tanto lutou e que não tinha quando morava com Senhora. É uma jornada de autoconhecido de Dôra.

Com a Companhia de Teatro, Dôra viaja por todo país, em uma dessas viagens ela conhece Cadete Lucas, um comandante de navio por quem se apaixona perdidamente.

Livro do Comandante

A terceira parte se trata da história do Cadete Lucas com Dôra. Ao conhecer o comandante, ela larga a Companhia de Teatro para viver somente em volta dele.

Finalmente Dôra encontra o amor verdadeiro e se casa. Um casamento por amor e não por interesse e convenção familiar.

Mesmo baseado no amor, o romance de Lucas e Dôra não é totalmente felicidades. A saída dela da Companhia de Teatro se deu por imposição dele que não aceita que sua mulher viva em palcos rebolando para outros.

Era um relacionamento totalmente submisso e abusivo, pois Dôra se submete a tudo que o Comandante quer. Contudo, assim como ele, Dôra é machista, passiva, submissa e aceita a situação em que vive.

Mesmo com todas as situações, o Comandante dá amor que ela nunca tinha recebido de ninguém e juntos passam por muitas situações. Até que o comandante adoece e morre.

Então, Dôra decide voltar a fazenda. Ela volta uma nova mulher e recomeça a vida com mais força, se impondo a Senhora e ajudando os outros empregados a viverem sem o domínio da mãe.

Por fim, Dora, Doralina toma posse da fazenda e passa a assumir a posição de sua mãe. E mesmo sem um motivo de alegria, ela é obrigada a viver a sua vida.

Análise de “Dora Doralina”

A história é narrada pela própria protagonista, Maria das Dores, em um discurso memorialista dela.

Ela narra os fatos tecendo o passado com o presente, com evidências e personagens que passaram por sua vida. Quando necessário retornando ao passado, como um flashback.

Ao longo da narrativa traços da personalidade de Dôra vão sendo expostos por atitudes e reações que ela mesma expõe.

Maria das Dores é uma personagem predestinada a dor, que vai desde o seu nome aos acontecimentos na sua vida.

Ela já sente a dor quando perde o pai ainda criança, e cresce sem o amor materno. Até quando ela encontra o amor no comandante, ela sofre por sua morte.

Contudo, a narrativa de “Dora, Doralina” mostra a evolução de Dôra, que mesmo voltando ao ponto de partida quando ela retorna a fazenda, ela retorna como uma nova mulher.

Durante as suas viagens, ela aprendeu a ter independência e liberdade. Dôra é uma mulher forte e lutadora.

Trechos de “Dora, Doralina”

Bem, nisso tudo o que eu quero dizer é que antes de eu entrar na Companhia, tinha o meu corpo como se fosse uma coisa alheia que eu guardasse depositada, e só podia dar ao legítimo dono, e depois de dar a esse dono era só dele, não adiantava eu querer ou não, porque o meu corpo eu não tinha o direito de governar, eu vivia dentro dele mas o corpo não era meu.

Já agora o corpo era meu, pra guardar ou pra dar, se eu quisesse ia, se não quisesse não ia, acabou-se. Era uma grande diferença, para mim enorme. (p. 161)

Procurava a todo instante me lembrar de como Senhora fazia; e tudo se repetia agora como no tempo dela, porque mesmo que eu quisesse não sabia fazer nada diferente, e então era a lei dela que continuava nos governando. […]E aos poucos eu também ia endurecendo, na couraça do meu vestido preto… (p. 239)

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Lima, Cleane. Dora, Doralina; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/dora-doralina >. Acesso em 20 de setembro de 2019 às 18:41.

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