Espumas Flutuantes

Coletânea de poemas do “poeta dos escravos” Castro Alves

Espumas flutuantes” é uma coletânea de poemas do escritor brasileiro, conhecido como o “poeta dos escravos”, Castro Alves.

Publicado pela primeira vez em 1870, foi o primeiro livro do poeta e o único lançado ainda em vida, um ano antes da sua prematura morte, em 1871.

Configura-se em um conjunto de 54 poemas, consideradas obras essenciais da terceira geração do romantismo brasileiro (poesia condoreira).

Os poemas que constituem “Espumas Flutuantes” condensam todas as características de Castro Alves, que mesmo em sua juventude apresentou-se maduro e consciente da sua capacidade.

Além disso, revela o grande sentimentalismo e iminência de morte presente no poeta. Uma antologia aclamada e bem elogiada pelos críticos, tanto que o consagrou como um dos maiores poetas da literatura brasileira.

Capa do livro “Espumas Flutuantes”
Capa do livro “Espumas Flutuantes”. (Foto: Saraiva)

Poemas de “Espumas Flutuantes”

“Espumas Flutuantes” é composto por 54 poemas líricos-amorosos e de caráter épico social. Veja alguns trechos contido nos poemas: Hebréia, Mocidade e Morte, O Gondoleiro do Amor e O ‘Adeus’ de Teresa.

Hebréia

Pomba d’esp’rança sobre um mar d’escolhos!
Lírio do vale oriental, brilhante!
Estrela vésper do pastor errante!
Ramo de murta a recender cheirosa!. ..
Tu és, ó filha de Israel formosa…
Tu és, ó linda, sedutora Hebréia…
Pálida rosa da infeliz Judéia
Sem ter o orvalho, que do céu deriva!

Por que descoras, quando a tarde esquiva
Mira-se triste sobre o azul das vagas?
Serão saudades das infindas plagas,
Onde a oliveira no Jordão se inclina?

Mocidade e Morte

Oh! Eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh’alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n’amplidão dos mares.
No seio da mulher há tanto aroma…
Nos seus beijos de fogo há tanta vida…
Árabe errante, vou dormir à tarde
A sombra fresca da palmeira erguida.

Mas uma vez responde-me sombria:
Terás o sono sob a lájea fria.
Morrer… quando este mundo é um paraíso,
E a alma um cisne de douradas plumas:
Não! o seio da amante é um lago virgem…
Quero boiar à tona das espumas.
Vem! formosa mulher—camélia pálida,
Que banharam de pranto as alvoradas.
Minh’alma é a borboleta, que espaneja

O pó das asas lúcidas, douradas…

O Gondoleiro do Amor

Teus olhos são negros, negros,
Como as noites sem luar…
São ardentes, são profundos,
Como o negrume do mar;

Sobre o barco dos amores,
Da vida boiando à flor,
Douram teus olhos a fronte
Do Gondoleiro do amor.

Tua voz é cavatina
Dos palácios de Sorrento,
Quando a praia beija a vaga,
Quando a vaga beija o vento.

E como em noites de Itália
Ama um canto o pescador,
Bebe a harmonia em teus cantos
O Gondoleiro do amor.

O ‘Adeus” de Teresa

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus…
E amamos juntos… E depois na sala
“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala…

E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”

Uma noite… entreabriu-se um reposteiro…
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus…
Era eu… Era a pálida Teresa!
“Adeus” lhe disse conservando-a presa…

E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”

As Três Irmãs do Poeta

É Noite! as sombras correm nebulosas.
Vão três pálidas virgens silenciosas
Através da procela irrequieta.
Vão três pálidas virgens… vão sombrias
Rindo colar num beijo as bocas frias…

Na fronte cismadora do—Poeta —

“Saúde, irmão! Eu sou a Indiferença.
Sou eu quem te sepulta a idéia imensa,
Quem no teu nome a escuridão projeta…
Fui eu que te vesti do meu sudário…
Que vais fazer tão triste e solitário?…
” — “Eu lutarei!”—responde-lhe o Poeta.

O Coração

O Coração O Coração é o colibri dourado
Das veigas puras do jardim do céu.
Um—tem o mel da granadilha agreste,
Bebe os perfumes, que a bonina deu.

O outro—voa em mais virentes balças,
Pousa de um riso na rubente flor.
Vive do mel—a que se chama—crenças—,
Vive do aroma—que se diz—amor.—

Monumento de Castro Alves em Salvador
Monumento a Castro Alves, em Salvador-Bahia. (Foto: Commons Wikimedia)

Análise de “Espumas Flutuantes”

Já na “Dedicatória” do livro “Espumas Flutuantes”, o autor deixa transparecer a iminência de morte em relação a sua vida, metaforizando com uma pomba, sendo que ele já sofria de tuberculose.

A “Dedicatória” é uma poesia pessoal, algo característico do espírito subjetivo dos autores da escola literária romancista.

A coletânea traz uma tonalidade do arrebatamento que vinha desde assuntos de caráter político a íntimos e individuais. Seus versos é um difusor de cultura, a exaltando contra qualquer tipo de obscurantismo, como o contexto histórico da Escravidão no Brasil.

Os versos de “Espumas Flutuantes” também trazem um tom exagerado ao que é íntimo, mas ao mesmo tempo erótico, como é o caso do poema “O Gondoleiro do Amor”.

Além disso, também é possível observar arte poética dos poemas, que transparece a crença de Castro Alves na poesia. Na poesia que ultrapassa não somente o dom ou a vocação, mas como algo simples que o indivíduo não poderia resistir.

Aos 19 anos, Castro Alves se apaixonou por uma bela moça que morava em frente à sua casa. Era um amor platônico e após a morte não se sabe se a paixão foi consumada ou não.O poema “hebréia” traz uma ideia da moça e da paixão do poeta.

Já o poema “Mocidade e Morte” representa a aproximação da morte, sendo que o poeta sofria de tuberculose e não tinha tratamento para sua condição.

O poeta já via ao horizonte o final do seu destino. Contudo, o poema não deixa de ser um hino de amor pela vida, uma felicidade aos prazeres de um jovem de 17 anos.

A coletânea de poemas “Espumas Flutuantes” representa completamente o poeta em suas fases da vida, pois são de caráter pessoal.

Contexto de “Espumas Flutuantes”

Castro Alves é um escritor da terceira geração do romantismo brasileiro. Mesmo mantendo as tradições do romantismo, destoa da escola literária ao buscar o amor carnal, real e afetado pelo erotismo.

As obras defendem a liberdade em combate ao romantismo. É possível enxergar isso desde o início da luta pela  abolição da escravatura no Brasil.

Lembrando o período histórico de vida do escritor, marcou os movimentos iniciais da luta abolicionista, com temáticas políticas a favor da defesa da abolição e da República.

Os clássicos poemas com temática abolicionista foram uma das maneiras que encontrou para denunciar o modo degradante aos quais os negros eram submetidos. Por isso, simboliza uma versão lírica do escritor pelo anseio da liberdade e expansão do sentimento.

Obras como “Espumas Flutuantes” e o famoso poema “O Navio Negreiro” apelidaram Castro Alves honrosamente como “poeta dos escravos”.

Sobre o poeta brasileiro

Antônio Frederico de Castro Alves foi poeta brasileiro e baiano, nascido em 14 de março de 1847. Ele faleceu precocemente aos 24 anos, em 6 de julho de 1871.

A Academia Brasileira de Letras nomeou a cadeira número sete como patrono Castro Alves. Além disso, no centenário de morte do poeta, a Academia o homenageou com conferências, construção de monumentos e até exposições biobibliográficas nos salões do Petit Trianon.

Castro Alves ganhou personificação no cinema  com o filme “Vendaval Maravilhoso”, interpretado por Paulo Mauricio, em 1949.

Em 1999, o “poeta dos escravos” foi interpretado novamente pelo ator Bruno Garcia no filme “Castro Alves – Retrato Falado do Poeta”.

A adaptação cinematográfica retrata as lutas do poeta pela abolição e República, além de expor seu lado mulherengo e apaixonado.

Saiba mais sobre a vida de Castro Alves no vídeo abaixo:

Espumas flutuantes está sob domínio público. Faça o download e boa leitura!

Faça a referência deste conteúdo seguindo as normas da ABNT:

Lima, Cleane. Espumas Flutuantes; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/espumas-flutuantes >. Acesso em 28 de outubro de 2019 às 14:38.

Copiar referência