Estrela da Vida Inteira

Obra que inovou a poesia brasileira através do cultivo poético cotidiano

A obra “Estrela da Vida Inteira” é um conjunto das poesias do autor Manoel Bandeira. Composto da coleção dos livros escritos pelo poeta recifense durante sua vida, o exemplar destaca-se por firmar a poesia com influências do Modernismo.

O estilo modernista tem o intuito de aproximar a poesia da linguagem espontânea, a fim de valorizar a arte como identidade cultural em um momento de exaltação as críticas sociais.

Com poesias extraídas a partir de temas simples cotidianos, até considerados banais, a coleção de “Estrela da Vida Inteira” resulta em uma obra composta de linguagem coloquial, irreverente, com liberdade criadora e versos livres.

A crítica ao português culto e aos temas mais comuns do romantismo foram tratados em tons críticos, de formas simples e ao mesmo tempo bem humorados. Apesar da linguagem fora dos padrões tradicionais, “Estrela da Vida Inteira” possui poesias ricas em construção e significado e permanece atual.

Temáticas

Os poemas que compõem “Estrela da Vida Inteira” exploram algumas temáticas já utilizadas por outros por escritores de diversas estéticas, porém nessa obra assumem uma nova dimensão.

Constituídos a partir da perspectiva de experiência e sentido da vida, é possível encontrar humor, solidão, tristeza, ironia, indignação, idealização e descrença nos poemas de Bandeira.

O folclore, a cultura popular, a saudade e a infância também se fazem presentes. Diante da realidade, poemas simbolizam o contraste entre o paraíso sonhado, a Pasárgada, e o paraíso perdido, a infância.

Em “Vou-me embora pra Pasárgada” sustenta-se o paraíso pessoal. Um lugar sonhado, com felicidade simples, onde é possível viver bem e ter tudo que desejar. E mesmo quando se sentir triste, haverá algo que agradará.

Vou-me Embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Livros da obra “Estrela da Vida Inteira”

Cinza das Horas (1917): primeiro livro de poesia do autor, segue a tradição simbolista e parnasiana, mas caminha para o rompimento dessa tradição.

Carnaval (1919): muito bem aceito pela crítica, o livro traz uma série de mensagens que mudaram os rumos da poesia brasileira. A obra articula lirismo, ironia e picardia. Gerou polêmica, especialmente pelo poema “Os sapos”, uma sátira ao parnasianismo, que impulsionou as lutas modernistas do século XX. Foi lido durante a Semana da Arte Moderna em 1922 e se tornou uma espécie de hino dos modernistas. Em “Carnaval” também marca o início da libertação das formas fixas e a opção pela liberdade formal.

O Ritmo Dissoluto (1924): já integrado ao Modernismo, neste volume Bandeira fixa-se o cotidiano como conteúdo poético e o prosaísmo.

Libertinagem (1930): primeiro livro absolutamente modernista, marca o amadurecimento do autor em relação a liberdade estética. Renova a linguagem fugindo do tradicional e explorando o coloquial e popular do dia-a-dia brasileiro.

Estrela da Manhã (1936): publicado pelo próprio Manuel Bandeira quando tinha 50 anos. “Estrela da Manhã” é o título de um poema representativo que dá nome ao livro que traz em si um tom melancólico, sendo expressivamente lírico-amoroso.

A Estrela da Manhã
Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã
Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda a parte
Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa? Eu quero a estrela da manhã
Três dias e três noites
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário
Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos
Pecai com os malandros
Pecai com os sargentos
Pecai com os fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras
Com os gregos e com os troianos
Com o padre e com o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto
Depois comigo
Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
Comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás
Procurem por toda parte
Pura ou degradada até a última baixeza
Eu quero a estrela da manhã

Lira dos Cinqüent’Anos (1940): escrito sob encomenda e com urgência, Bandeira dispôs neste livro sonetos e canções metrificadas e diversos poemas modernista.

Belo Belo (1948): título tirado de um poema da Lira dos Cinqüent’Anos.

Mafuá do Malungo (1948): malungo significa companheiro, na gíria falada pelos negros brasileiros durante a escravidão. Foi um livro escrito para os mais queridos de Bandeira. Voltado ao cotidiano insignificante, reafirmando que a poesia está em tudo.

Opus 10 (1952-1955): intitulado a partir do universo da música, Bandeira destaca a importância da música e da musicalidade em suas obras.

Estrela da Tarde (1960): é a maturidade do autor, já com 74 anos, que começa a refletir a difícil missão de viver e os mistérios da passagem para o outro lado da vida.

Manuel Bandeira

Bandeira autor de Estrela da Vida Inteira
Manoel Bandeira autor de Estrela da Vida Inteira (Foto: Flickr)

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho nasceu no dia 19 de abril de 1886, em Recife. Em 1917, publicou seu primeiro livro de poesias titulado “A cinza das horas”. Na época, sua poesia ainda era influenciada pelas escolas Simbolista e Parnasiana.

Ao publicar “Carnaval”, em 1919, torna-se um dos maiores representantes da primeira fase do Modernismo no Brasil. Desde então, implementou seu estilo nas obras seguintes e passou a ser um dos maiores e mais importantes poetas do Brasil. Morreu no Rio de Janeiro, em 13 de outubro de 1968, aos 82 anos.

Faça a referência deste conteúdo seguindo as normas da ABNT:

BRITO, Samara. Estrela da Vida Inteira; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/estrela-da-vida-inteira >. Acesso em 28 de outubro de 2019 às 15:00.

Copiar referência