Felicidade Clandestina

Conjunto de crônicas com reflexões a respeito da existência

Os contos de “Felicidade Clandestina” tem como referência acontecimentos normais do cotidiano, que em dado momento, os personagens entram em um meio de reflexão a respeito de sua própria existência.

A publicação poderia ser classificada como um livro de crônicas, porém Clarice Lispector não se limitava a escrever dentro de um gênero específico. Dessa forma, o conjunto de histórias reunidas em “Felicidade Clandestina” incluem contos, crônicas e, até mesmo, ensaios.

Estrutura da obra

A obra “Felicidade Clandestina” é composta por vinte e cinco textos escritos em diversas fases da vida de Clarice Lispector.

Algumas narrações que compõem a obra foram inicialmente desenvolvidas como crônica para publicação no “Jornal do Brasil”, no qual, a autora escrevia semanalmente entre os anos de 1967 a 1972.

Pertencem a esse livro os seguintes contos:

“Felicidade Clandestina”

O conto que dá nome a obra é uma narração em primeira pessoa de menina que é a própria Clarice Lispector.

A história da garota se passa através do enorme desejo de ler um livro que pertencia a sua colega, a qual descreve como gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados.

Contudo, a ruiva tinha o que todas as crianças “devoradoras de histórias” queriam ter: um pai dono de livraria. Ela não lia os livros que tinha, mas prometia emprestar a colega “As reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

E diariamente a garota ia até a casa da ruiva com o desejo de ter o livro para si por um curto tempo. Essas visitas duraram muito tempo, sem faltar um dia sequer.

A ruiva sempre inventava uma desculpa quanto ao destino do livro e dizia para voltar no dia seguinte.

Até que um dia, enquanto a jovem ouvia mais uma recusa, a mãe da menina ruiva apareceu a porta e pediu explicações sobre o que estava acontecendo.

A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife.

Diante desse fato, a mãe obrigou a ruiva emprestar o livro a colega, afirmando que ela poderia ficar com ele pelo tempo que desejasse.

A garota carregou o livro até sua casa com peito aquecido, sentia-se como uma rainha delicada, cheia de orgulho e prazer por desfrutar daquele objeto tão desejado.

Sua felicidade clandestina era fingir que não o tinha, criando falsas dificuldades, só para em seguida ter a satisfação de tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

“Uma Amizade Sincera”

Conta a história de dois amigos de infância que possuíam uma forte ligação e com o decorrer da vida adulta foram perdendo os assunto em comum.

Quando um deles se muda para São Paulo, convida o outro parar se juntar a casa de sua família. Tentaram de tudo para se reaproximarem, mas nada adiantou.

Queríamos tanto salvar o outro. Amizade é matéria de salvação.

Por fim, sob um pretexto de férias ambos se separaram. Sabiam que não se veriam mais, a não ser pelo acaso. Mas, mesmo sem dizer uma palavra, sabiam que eram amigos. Amigos sinceros.

“Miopia Progressiva”

Se era inteligente, não sabia. Ser ou não inteligente dependia da instabilidade dos outros.

Este conto apresenta um menino considerado inteligente. Sua família o olhava com satisfação, mas o mimavam por isso.

Ao passar um dia com uma prima que não tinha filhos, experimentou um amor diferente dos outros adultos. O amor de uma mulher, o amor que pedia a gravidez quase um amor impossível.

Ela queria do menino míope o amor como o de um filho. E foi ai que ele enxergou o profundo, como se tivesse visto o mundo claramente.

Foi apenas como se ele tivesse tirado os óculos, e a miopia mesmo é que o fizesse enxergar. Talvez tenha sido a partir de então que pegou um hábito para o resto da vida: cada vez que a confusão aumentava e ele enxergava pouco, tirava os óculos sob o pretexto de limpá-los e, sem óculos, fitava o interlocutor com uma fixidez reverberada de cego.

“O Ovo e a Galinha”

A partir da imagem de um ovo sobre a mesa da cozinha, é criado uma série de pensamentos sobre diversas coisas, físicas e abstratas, de modo aleatório. Assim, ocorre uma desconstrução do objeto, transformando o ovo em algo cheio de questionamentos e significados que pode se tratar do próprio objeto como do próprio narrador.

E eis que não entendo o ovo. Só entendo ovo quebrado: quebro-o na frigideira. É deste modo indireto que me ofereço à existência do ovo: meu sacrifício é reduzir-me à minha vida pessoal. Fiz do meu prazer e da minha dor o meu destino disfarçado. E ter apenas a própria vida é, para quem já viu o ovo, um sacrifício. Como aqueles que, no convento, varrem o chão e lavam a roupa, servindo sem a glória de função maior, meu trabalho é o de viver os meus prazeres e as minhas dores. É necessário que eu tenha a modéstia de viver.

Outros contos que fazem parte da obra:

  • Restos do Carnaval
  • O Grande Passeio
  • Come, meu Filho
  • Perdoando Deus
  • Tentação
  • Cem Anos de Perdão
  • A Legião Estrangeira
  • Os Obedientes
  • A Repartição dos Pães
  • Uma Esperança
  • Macacos
  • Os Desastres de Sofia
  • A Criada
  • A Mensagem
  • Menino a Bico de Pena
  • Uma História de Tanto Amor
  • As Águas do Mundo
  • A Quinta História
  • Encarnação Involuntária
  • Duas Histórias a meu Modo
  • O Primeiro Beijo

Análise da obra “Felicidade Clandestina”

Livro Felicidade Clandestina
Livro Felicidade Clandestina de Clarice Lispector (Foto: Amazon)

Publicada pela primeira vez em 1971, “Felicidade Clandestina” não se diferencia dos modelos de obras ficcionais de Clarice Lispector.

Abordando temáticas como a infância, a adolescência, a família e o amor, Clarice foca no desenvolvimento sentimental de seus personagens, rompendo os limites de espaço e de tempo, aproximando-se das angustias e abstrações.

Além disso, desperta o questionamento sobre quem é e qual o sentido da própria vida. Cheio de metáfora, pensamentos soltos e com interpretações múltiplas, “Felicidade Clandestina” poderia ser considerado um dos livros de cunho mais autobiográfico.

O ponto central desse título é o questionamento ou análise sobre o conceito de felicidade. Através dos contos é possível concluir que, para Clarice, a felicidade é momentânea, devendo ser descoberta a todos os momentos e nas coisas mais simples.

Clarice Lispector resgata em suas narrativas um pouco sobre a própria vida, sua história pessoais e perspectivas dentro dos meio sociais que pertence, algo que se tornou uma marca do seu estilo literário.

Curiosidade

  • Em 1998, foi realizado um curta metragem chamado “Clandestina Felicidade” baseado no conto “Felicidade Clandestina” que faz parte do livro de mesmo nome.

Faça a referência deste conteúdo seguindo as normas da ABNT:

BRITO, Samara. Felicidade Clandestina; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/felicidade-clandestina >. Acesso em 28 de outubro de 2019 às 14:25.

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