Gilberto Freyre

Sociólogo e escritor que defendia a miscigenação de povos

Gilberto Freyre foi um sociólogo, escritor e professor brasileiro que se envolveu intensamente nos estudos da formação da sociedade brasileira. A partir de tais conhecimentos, lançou o livro "Casa Grande e Senzala", uma de suas obras mais conhecidas.

Biografia de Gilberto Freyre

Gilberto de Mello Freyre nasceu em 15 de março de 1900 em Recife, Pernambuco. Foi fruto da relação entre Alfredo Freyre e de Francisca de Mello Freyre, uma família de classe média pernambucana da época.

Seu pai era juiz e professor da Faculdade de Direito de Recife e com ele aprendeu latim e português. Apesar do esforço do pai, ainda pequeno, Gilberto tardava o aprendizado da escrita, vendo no rabisco sua melhor forma de expressão.

Dessa forma, iniciou aulas de pintura com o desenhista e pintor brasileiro Jerônimo José Telles Júnior e aulas de inglês com o Mr. Williams. Logo, ingressou no Colégio Americano Batista de Recife e mais tarde se formou em Letras.

Dentro dessa instituição de ensino, Gilberto Freyre participou dinamicamente da comunidade literária, atuando, inclusive, no jornal da escola “O Lábaro”, como redator-chefe.

Gilberto Freyre, Carlos Lemos e Ulysses Freyre em passeio de bicicleta no Recife, década de 1920.
Gilberto Freyre (à direita), Carlos Lemos (no centro) e Ulysses Freyre (à esquerda). (Foto: Wikipédia)

Aos 17 anos, Gilberto Freyre embarcou para os Estados Unidos para estudar Artes Liberais e, posteriormente, uma especialização em Ciências Políticas e Sociais pela Universidade de Baylor no Texas. Mais tarde, realizou mestrado e doutorado em Ciências Políticas, Jurídicas e Sociais em Nova Iorque, na Universidade de Colúmbia, a qual lhe forneceu o título de Mestre em Artes.

A partir desses estudos, Gilberto Freyre dissertou sobre a “Vida social no Brasil em meados do século XIX”, tese que teve orientação do antropólogo Franz Boas. Completou sua formação acadêmica fazendo diversas viagens pelos países da Europa.

Vida profissional e realizações

Em 1924, Freyre voltou para a terra natal iniciando sua carreira profissional em jornais, nos quais escrevia artigos voltados para a construção social do Brasil. Coordenou a direção dos jornais A Província e o Diário de Pernambuco, além de se tornar colaborador da revista O Cruzeiro, localizada no Rio de Janeiro.

Gilberto Freyre idealizou o I Congresso Brasileiro de Regionalismo, projeto em contradição à Semana de Arte Moderna de 1922, no qual o professor criticava a sociedade brasileira pela intensa valorização da cultura europeia ao invés de reconhecer e considerar o regionalismo nordestino.

Em 1926, foi chamado para ser secretário particular do então governador de Pernambuco, Estácio Coimbra, e professor de Sociologia em escolas.

Com a eclosão da Revolução de 30 e tomada de poder de Getúlio Vargas, Gilberto Freyre acabou partindo para a Europa novamente, dessa vez seguindo o governador exilado. Saindo do continente europeu, mudou seu rumo para os Estados Unidos, onde ministrou aulas na Universidade de Stanford como professor visitante.

Voltando ao Brasil, Freyre foi convidado pelo baiano Anísio Teixeira a integrar o corpo docente da Universidade do Distrito Federal. Anísio também era um educador muito influente e reitor da universidade.

Em 1933, lançou o livro “Casa Grande e Senzala”, causando estranhamento à sociedade da década que não estava acostumada com a linguagem e o tema tratado na obra.

Casa Grande e Senzala

"Casa Grande e Senzala" fala da formação do povo brasileiro, salientando o modo como a sociedade era moldada pelo patriarcado. Além disso, destaca as particularidades, defeitos e qualidades do povo que vivia em um cotidiano colonial.

Gilberto Freyre discorre a importância da miscigenação de raças e culturas, mas sem idealizar a figura do colonizador português. Ele ainda realiza uma investigação sobre o modo como é atribuída aos escravos e indígenas uma acentuada sexualidade, o que, de certa forma, faz com que o povo tenha fama de promiscuidade.

Na obra, o autor deixa claro que a originalidade da sociedade brasileira é resultado da miscigenação ocorrida entre brancos, negros e índios, apesar da evidente violência do período Brasil colonia, a qual ele enfatiza.

O livro envolve os conhecimentos de sociologia e antropologia através da descrição dos hábitos dos povos coloniais. A obra revolucionou o meio intelectual da historiografia e até hoje é considerada obra de referência da Sociologia, sendo traduzida para diversas línguas.

Desde a sua primeira publicação até 1937, Gilberto Freyre publicou mais dois livros de grande importância: “Sobrados e Mocambos” (1936) e “Nordeste: Aspectos da Influência da Cana Sobre a Vida e a Paisagem” (1937).

Ainda na literatura brasileira, o escritor se destacou com o poema chamado “Bahia de todos os santos e de quase todos os pecados”, inspirado em uma viagem feita à Bahia.

Entre outras obras do autor estão:

  • “Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife” (1934)
  • “Assucar” (1939)
  • “Olinda” (1939)
  • “O mundo que o português criou” (1940)
  • “A história de um engenheiro francês no Brasil” (1941)
  • “Problemas brasileiros de antropologia” (1943)
  • “Sociologia” (1943)
  • “Interpretação do Brasil” (1947)
  • “Ingleses no Brasil” (1948)
  • “Ordem e Progresso” (1957)
  • “O Recife sim, Recife não” (1960)
  • “Os escravos nos anúncios de jornais brasileiros do século XIX” (1963)
  • “Vida social no Brasil nos meados do século XIX” (1964)
  • “Brasis, Brasil e Brasília” (1968)
  • “O brasileiro entre os outros hispanos” (1975)
  • “Homens, engenharias e rumos sociais” (1987)

Vivência política de Gilberto Freyre

Por demonstrar em suas publicações forte oposição ao governo Vargas, o sociólogo chegou a ser preso e espancado na década de 1940. Em 1946, tomou posse do cargo de deputado federal da Assembleia Constituinte pela União Democrática Social (UDN).

Esse período foi marcado pela fundação do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, conhecido mais tarde como Fundação Joaquim Nabuco. Esse órgão se dedicava à pesquisas e estudos pertinentes à vida do trabalhador rural nordestino e suas condições de sobrevivência.

Gilberto Freyre já na velhice e Rachel de Queiroz.
Gilberto Freyre e Rachel de Queiroz. (Foto: Wikipédia)

O seu trabalho na Assembleia era voltado para o combate ao racismo e os traços do nazismo no país. Em 1964, apoiou a destituição do presidente João Goulart e no mesmo ano recebeu o convite do presidente Emílio Médici para incorporar o Conselho Federal de Cultura. Além disso, viajava pelo mundo realizando conferências em universidade europeias e americanas.

A escola de samba Mangueira construiu um enredo baseado no livro “Casa Grande e Senzala” em 1962, para homenagear Gilberto Freyre em apresentação no Carnaval. Freyre ainda recebeu o título de Sir (Cavaleiro do Império Britânico), em 1971, pela rainha Elizabeth.

Gilberto Freyre faleceu em 18 de julho de 1986, aos 86, em consequência de vários problemas de saúde.

Citações

A culinária é uma das maiores expressões do comportamento humano, do saber humano, da criatividade humana, muito do saber humano está naquilo que você come.

Nessa instituição social – a escravidão – é que encontramos na verdade o grande excitamento de sensualidade entre os portugueses, como mais tarde entre os brasileiros.

A virtude da senhora branca apoia-se em grande parte na prostituição da escrava negra;

O saber deve ser como um rio, cujas águas doces, grossas, copiosas, transbordem do indivíduo, e se espraiem, estancando a sede dos outros.

Sem um fim social, o saber será a maior das futilidades.

Todo brasileiro traz no corpo a sombra do indígena ou do negro.

Faça a referência deste conteúdo seguindo as normas da ABNT:

Oliveira, Darcicleia. Gilberto Freyre; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/gilberto-freyre >. Acesso em 28 de outubro de 2019 às 14:54.

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