Grande Sertão: Veredas

Romance experimental modernista

Bolsas de Estudo

A história em “Grande Sertão: Veredas” gira em torno do jagunço Riobaldo, narrador-protagonista do livro, que conta a história do sertão e narra os acontecimentos da sua vida para um “doutor” recém-chegado na fazenda em que vive, a quem ele também se refere como “Senhor” ou “Moço”.

Na infância, Riobaldo passou por uma grande tristeza, a morte de sua mãe, uma mulher pobre que vivia como agregada em uma grande fazenda no interior de Minas. Então, foi levado para viver com seu padrinho, Selorico Mendes, na fazenda São Gregório.

Meu padrinho Selorico Mendes era muito medroso. Contava que em tempos tinha sido valente, se gabava, goga. Queria que eu aprendesse a atirar bem, e manejar porrete e faca. Me deu logo um punhal, me deu uma garrucha e uma granadeira. Mais tarde, me deu até um facão enterçado, que tinha mandado forjar para próprio, quase do tamanho de espada e em formato de folha de gravata.

Sob a guarda do padrinho, foi enviado a Curralinho para obter a formação básica na escola de Mestre Lucas. Ao voltar para a fazenda, conheceu o bando de jagunços de Joca Ramiro a quem Selorico ofereceu hospedagem.

Livro Grande Sertão Veredas
Livro “Grande Sertão: Veredas” de João Guimarães Rosa (Foto: Site Saraiva)

O tempo que convive com os jagunços “joca-ramiros” tem uma grande importância no decorrer de sua história. Certo dia, Riobaldo desconfia que Selorico Mendes era na verdade seu pai, já que comentavam que ambos tinhas feições parecidas.

Com raiva, Riobaldo foge para o Curralinho. Lá, por intermédio de Mestre Lucas, conhece Zé Bebelo, um fazendeiro da região que desejava pacificar o sertão, acabando com os jagunços, e eleger-se deputado.

Riobaldo passou a lecionar letras e números para o fazendeiro e, em troca, este lhe ensinava sobre os meandros dos sertões. Pouco tempo depois, Riobaldo se junta a Zé Bebelo no intuito de pôr fim a atuação dos jagunços pela região.

Após um período de perseguição, Riobaldo decide desertar do bando de Zé Bebelo. Ao reencontra Reinaldo, que já fazia parte do bando de Joca Ramiro, decide se juntar ao grupo de jagunços.

A amizade entre Riobaldo e Reinaldo se fortalece com o passar do tempo. Reinaldo então confidencia seu segredo para o amigo, seu nome verdadeiro era Diadorim.

Diadorim e eu, nós dois. A gente dava passeios. Com assim, a gente se diferenciava dos outros – porque jagunço não é muito de conversa continuada nem de amizades estreitas: a bem eles se misturam e desmisturam, de acaso, mas cada um é feito um por si. De nós dois juntos, ninguém nada não falava. Tinham a boa prudência. Dissesse um, caçoasse, digo – podia morrer. Se acostumavam de ver a gente parmente. Que nem mais maldavam.

O narrador reconhece que entre eles existe uma relação diferente da que podia haver entre os jagunços. E entre as divagações de Riobaldo no decorrer da história, ele foca no amor impossível por Diadorim.

Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar por longe, e eu só nele pensava.

Depois do recrutamento de Riobaldo pelo esquadrão de “joca-ramiros”, ocorre a primeira guerra jagunça na obra “Grande Sertão: Veredas”. O grupo liderado por Joca Ramiro, Hermógenes e Ricardão é perseguido por Zé Bebelo e seus homens.

Após batalhas, Zé Bebelo é capturado e levado para julgamento pelos líderes dos jagunços. Bebelo é sentenciado a soltura, mas deveria se exilar em Goiás, ficando proibido de retornar ao sertão enquanto Joca Ramiro estivesse vivo.

Posteriormente, os dois amigos se juntam ao bando de Titão Passos, que também lutou ao lado de Hermógenes.

Nesse meio tempo, Riobaldo se envolve com Nhorinhá, uma prostituta, mas se apaixona mesmo por Otacília, a moça mais mansa, branca e delicada. Otacília não gostava de Diadorim, e vice-versa.

Desde esse primeiro dia, Diadorim guardou raiva de Otacília. E mesmo eu podia ver que era açoite de ciúme. (…) Que Diadorim tinha ciúme de mim com qualquer mulher, eu já sabia, fazia tempo, até. Quase desde o princípio. E, naqueles meses todos, a gente vivendo em par a par, por altos e baixos, amarguras e perigos, o roer daquilo ele não conseguia esconder, bem que se esforçava.

Após um período de paz, Gavião-Cujo vai ao encontro do grupo e anuncia que Joca Ramiro foi traído e morto por Hermógenes e Ricardão. Ocorre então a segunda guerra jagunça em busca da vingança pela morte de Joca Ramiro.

No decorrer dos acontecimentos, Diadorim descobre ser filho de Joca Ramiro e jura vingar a morte do pai. Além disso, corre boatos de que Hermógenes havia feito pacto com o Diabo.

Enquanto os dois monstros vivessem, simples Diadorim tanto não vivia. Até que viesse a poder vingar o histórico de seu pai, ele tresvariava.

Inesperadamente, Zé Bebelo, o maior adversário dos jagunços, junta-se ao bando e passa a lidera-lo em busca de vingança pela morte de Ramiro. Mais tarde, entram em confronto com o grupo de Hermógenes.

Após uma trégua de três dias combinada pelos dois grupos, Riobaldo decide que a única forma de vencê-los é fazendo um pacto com o diabo também. Assim, vai a uma encruzilhada, chama o diabo pelo nome, mas não tem resposta.

Após essa noite, o comportamento de Riobaldo muda. Sob o nome Urutu-Branco, ele assume a chefia do bando e segue em caça por Hermógenes, chegando até sua fazenda já em terras baianas.

Antes da viagem Riobaldo pede para que um jagunço entregue a pedra de topázio, que já havia oferecido a Diadorim, à Otacília para firmar o compromisso de casamento entre os dois.

Durante a caça por vingança, o bando de Urutu-Branco encontra o grupo de Ricardão e o mata. Ao encontram o grupo de Hermógenes e ocorre uma sangrenta batalha. Diadorim que tinha como objetivo vingar a morte do pai, mata Hermógenes, mas é ferido mortalmente.

Após o triste fim de Diadorim, Riobaldo desiste da vida de jagunço e adota um comportamento de devoção espiritual, orientado por Quelemém. Casa-se com Otacília e herda as duas maiores fazendas de Selorico Mendes.

Por fim, descobre que Diadorim é na realidade a filha de Joca Ramiro, e se chama Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins que nasceu para o dever de guerrear e nunca ter medo, e mais para muito amar, sem gozo de amor.

Análise de “Grande Sertão: Veredas”

Publicado em 1956 pelo autor brasileiro João Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas” faz parte da terceira geração modernista fundida com elementos do experimentalismo linguístico da primeira fase do modernismo e a temática regionalista da segunda fase do movimento.

Diferente do formato habitual, “Grande Sertão: Veredas” é uma obra extensa, com mais de 600 páginas, e sem divisão por capítulos. Composta de originalidade linguista e oralidade, é um livro composto de neologismos, arcaísmos e brasileirismos.

A obra incorpora aspectos de diferentes culturas, pontos de vista e apresenta, simultaneamente, a representação do masculino e do feminino, do celeste e do demoníaco, da certeza e da dúvida baseada nos sentimentos existentes entre dois personagens.

“Riobaldo, nós somos amigos, de destino fiel, amigos?” – “Reinaldo, pois eu morro e vivo sendo amigo seu!” – eu respondi. Os afetos. Doçura do olhar dele me transformou para os olhos de velhice da minha mãe. Então, eu vi as cores do mundo.

“Grande Sertão: Veredas” é um clássico da literatura brasileira, um romance experimental modernista que o torna uma obra única e inovadora.

Personagens principais

  • Riobaldo: protagonista e narrador da história. Velho fazendeiro e ex-jagunço que questiona a existência ou não do diabo;
  • Diadorim: companheiro de luta e grande amor de Riobaldo. Depois de sua morte, descobre-se que se tratava de uma mulher;
  • O Reinaldo – que era Diadorim: sabendo deste, o senhor sabe minha vida;
  • Joca Ramiro: pai de Diadorim, chefe dos jagunços.
  • Zé Bebelo: fazendeiro com interesse na política, torna-se chefe dos jagunços;
  • Hermógenes: líder do grupo de jagunços inimigo;
  • Nhorinhá: prostituta que se envolve com Riobaldo. Representa o prazer carnal;
  • Otacília: esposa de Riobaldo. Personifica a pureza e o “amor sentimental”.

Curiosidades

  • O Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, realizou uma exposição em 2006 sobre a obra no Salão de Exposições Temporárias com fotos que ilustram o artigo.
  • Em maio de 2002, o Clube do Livro da Noruega, entidade que congrega editores noruegueses, incluiu “Grande Sertão: Veredas” em sua lista dos cem melhores livros de todos os tempos. Guimarães Rosa é o único brasileiro entre 100 escritores de 54 países.

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BRITO, Samara. Grande Sertão: Veredas; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/grande-sertao-veredas >. Acesso em 18 de novembro de 2019 às 16:15.

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