Iracema

Romance indianista que expõe um cenário fictício da cultura indígena e da colonização do Ceará

A história da obra “Iracema” tem início durante uma caçada do personagem Martim. Ele se perde dos companheiros pitiguaras e caminha sem rumo durante três dias até chegar ao campo dos tabajaras.

Neste momento se depara com Iracema, que assustada e amedrontada com a presença de um homem branco em suas terras, o acerta com uma flechada certeira. Imediatamente arrependida da sua atitude, a jovem índia lhe presta socorro e oferece hospitalidade em sua tribo, a Tabajara.

Bem recebido na cabana de Araquém, pai de Iracema e chefe espiritual da tribo, Martim recebe proteção e diversas índias para servi-lo. Entretanto, o guerreiro branco era cristão e dispensou todo e qualquer prazer oferecido a mando do pagé.

Naquela noite, a tribo recebia Irapuã, o chefe guerreiro da tribo tabajaras, chegado para comandar as lutas contra a tribo inimiga. Aproveitando o isolamento, Martim decide ir embora na tentativa de reencontrar seus amigos.

Ao adentrar a mata, o guerreiro branco depara-se com Iracema que o questiona se lhe fizera algum mal para estar indo embora escondido. Desconcertado pela sua falta de educação, Martim pede desculpas e retorna a cabana.

Martim segue vivendo na tribo ao mesmo tempo em que cresce seu interesse pela virgem índia tabajara. Porém tal atitude não agrada a um dos guerreiros. Ele poderia ter se apaixonado por qualquer índia da tribo, porém sua escolhida foi Iracema, o que gera ciúmes em Irapuã.

O coração aqui no peito de Irapuã ficou tigre. Pulou de raiva. Veio farejando a presa. O estrangeiro está no bosque, e Iracema o acompanhava. Quero beber-lhe o sangue todo: quando o sangue do guerreiro branco correr nas veias do chefe tabajara, talvez o ame a filha de Araquém.

Pintura Inspirada em Iracema
Pintura inspirada em Iracema do artista José Maria de Medeiros (Foto: Wikipédia)

Este é o início da história de um amor proibido entre a índia e o guerreiro branco. Iracema não pode ser mulher de Martim pois deve permanecer virgem para ser a guardiã do segredo da Jurema e o mistério do sonho, um ritual muito sagrado da sua tribo.

Entretanto, também apaixonada por Martim, Iracema lhe oferece uma bebida alucinógena e rende-se a sua paixão, traindo o compromisso da virgindade. Após a consumação do ato, Martim quer ir embora ciente que corre risco de vida por desvirtuar a índia guardiã.

Quando veio a manhã, ainda achou Iracema ali debruçada, como uma “borboleta que dormiu no seio do formoso cacto”. Em seu lindo semblante acendia o pejo vivos rubores; e como entre os arrebóis da manhã cintila o primeiro raio do Sol, em suas faces incendidas rutilava o primeiro sorriso da esposa, aurora de fruído amor. Martim vendo a virgem unida ao seu coração, cuidou que o sonho continuava; cerrou os olhos para torná-los a abrir.

No entanto Iracema não podia mais voltar a cabana de seu pai, então declara: “Tua escrava te acompanhará, guerreiro branco; porque teu sangue dorme em seu seio”. Sendo assim, o casal foge da aldeia rumo ao litoral acompanhados de Poti, amigo de Martim e guerreiro pitiguaras, tribo inimiga dos tabajaras.

Ao se darem conta do ocorrido, Irapuã e Caubi perseguem o casal, declarando guerra a tribo inimiga. No caminho, os guerreiros tabajaras encontram os pitiguaras e travam uma sangrenta batalha.

Os olhos de Iracema, estendidos pela floresta, viram o chão juncado de cadáveres de seus irmãos; e longe o bando dos guerreiros tabajaras que fugia em nuvem negra de pó. Aquele sangue que enrubescia a terra era o mesmo sangue brioso que lhe ardia nas faces de vergonha.

A fuga termina em uma praia deserta, local onde o casal constrói uma cabana para permanecerem juntos. Após um tempo, os franceses aliam-se aos tabajaras e decidem realizar outra batalha com a tribo inimiga.

Desta forma, Martim e Poti vão guerrear e Iracema fica sozinha na cabana, grávida. Triste, a índia prevê sua morta após o parto. Iracema dá a luz a um menino a quem chama de Moacir.

Iracema curte dor, como nunca sentiu; parece que lhe exaurem a vida, mas os seios vão-se intumescendo; apojaram afinal, e o leite, ainda rubro do sangue, de que se formou, esguicha. A feliz mãe arroja de si os cachorrinhos, e cheia de júbilo mata a fome ao filho. Ele é agora duas vezes filho de sua dor, nascido dela e também nutrido.

Moacir é considerado filho da dor e do sofrimento por ser fruto de uma relação que causou guerra entre as tribos e provocou inúmeras mortes dos “irmãos” tabajaras de Iracema. É o primeiro fruto da miscigenação do português e da índia

Martim já havia pressentido a tristeza da esposa. E como previu, Iracema morre nos braços do amado assim que ele retorna da guerra. É enterrada as margens de um rio que recebe o nome de Ceará, assim como toda terra a seu redor.

Era sempre com emoção que o esposo de Iracema revia as plagas onde fora tão feliz, e as verdes folhas a cuja sombra dormia a formosa tabajara.

Martim vai a Europa e durante a viagem o vento sopra o nome Iracema em seus ouvidos. Volta trazendo padres e guerreiros e implanta a fé cristã nas terras brasileira. Este é o começo da colonização portuguesa.

Afinal volta Martim de novo às terras, que foram de sua felicidade, e são agora de amarga saudade. Quando seu pé sentiu o calor das brancas areias, derramou-se por todo seu ser um fogo ardente, que lhe requeimou o coração: era o fogo das recordações acesas. (…) Muitos guerreiros de sua raça acompanharam o chefe branco, para fundar com ele a mairi dos cristãos. Veio também um sacerdote de sua religião, de negras vestes, para plantar a cruz na terra selvagem.

Análise da obra “Iracema”

Publicada em 1865, a obra de estilo romance Indianista tem sua narrativa construída em cima da história de Iracema e Martim. A obra de José de Alencar é a manifestação da cultura indígena brasileira e a romanização do processo de colonização do Ceará que se deu em 1606.

A relação entre os personagens principais representa a união entre o branco colonizador e o índio. Retrata a cultura europeia, civilizada, e os indígenas, com a valorização do exótico como nossa fauna e flora.

A índia Iracema simboliza a figura local, definida por seu traços físicos comparados aos elementos da natureza.

O título Iracema é um jogo de letras com a palavra América, logo a personagem principal representa o nosso continente. Já Martim tem o nome que remete a marte, o Deus da guerra, e representa a Europa. Sendo assim, podemos dizer que Martim veio trazer a guerra para Iracema, ou para a América.

A obra o modelo do romantismo, em que um casal apaixonado vive um amor proibido e um antagonista tenta separá-los. Apesar da obra ter sido escrita para idealizar o índio brasileiro, Martin, o europeu, só se envolve de verdade com Iracema após tomar o vinho de Tupã, pois em suas condições naturais não se envolveria com ela por se achar de caráter superior correspondente a sua origem.

Principais personagens:

  • Iracema: a vigem dos lábios de mel.
  • Martim: O jovem guerreiro branco.
  • Araquém: Pai de Iracema e pagé da tribo tabajara.
  • Poti: Guerreiro pitiguaras, amigo de Martim.
  • Irapuã: Chefe dos tabajaras.
  • Caubi: destemido guerreiro, irmão de Iracema.
  • Moacir: Filho de Iracema e Martim, primeiro cearense.

Curiosidades

  • Martim Soares Moreno foi realmente o “fundador” do Ceará.
  • Antônio Felipe Camarão, o Poti, também existiu e lutou na guerra contra a Holanda assim como Martin.

Filme

A obra cinematográfica “Iracema, a virgem dos lábios de mel”, foi lançada em 1979. Com direção de Carlos Coimbra, foi baseado na história de amor entre o soldado português Martin e a índia Iracema.

Faça o download do PDF do livro “Iracema”.

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BRITO, Samara. Iracema; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/iracema >. Acesso em 28 de outubro de 2019 às 14:45.

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