Marília de Dirceu

As liras de uma paixão que atravessa o tempo

 “Marília de Dirceu” é a mais emblemática obra do poeta português Tomás Antônio Gonzaga. O extenso poema, considerado autobiográfico, traz o relato de amor de Dirceu por Marília. Integrante do Arcadismo, a produção já apresenta características do Romantismo.

Resumo

O longo poema narrativo tem como enredo o profundo amor do pastor Dirceu, responsável por declarar todo o seu sentimento pela jovem Marília, também pastora de ovelhas em uma região não específica.

No decorrer da obra, Dirceu preocupa-se integralmente em enaltecer a beleza da amada e tenta colocar-se a sua altura através de uma posição social, presente nas primeiras liras do poema.

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d’ expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!

Além disso, Dirceu expressa suas expectativas em relação ao futuro com Marília. Planeja uma vida simples, com filhos, em um ambiente campestre rodeado pela natureza.

Contudo, o homem envolve-se no movimento da Inconfidência Mineira, em Minas Gerais, e acaba na prisão. Lá, o eu lírico passa a elaborar os poemas em tom de solidão, melancolia e pessimismo.

Com retorcidas unhas agarrado
Às tépidas entranhas não me come
Um abutre esfaimado;
Mas sinto de outro monstro a crueldade:
Devora o coração, que mal palpita,
O abutre da saudade.

Todos os planos que havia idealizado com a jovem Marília tornaram-se distantes. Exilado na África, segue redigindo sua tristeza e saudade pela bela amada, totalmente sem otimismo.

Depois de passado tempo,
A mim se chega, e me abala;
Desperto de tanto assombro;
Ele bate no meu ombro,
E assim afável me fala:
Sim, caro Dirceu, é esta
A divina formosura,
Que te destina Cupido;
Aqui tens o laço urdido
Da tua imortal ventura.

Estrutura do poema

  • Primeira parte: é composta por 33 liras e promove a pastora Marília como musa, reunindo textos escritos antes da prisão de Dirceu.
  • Segunda parte: é composta por 38 liras e continua apreciando o encanto da pastora Marília. A partir deste momento os poemas são escritos durante o período em que Dirceu permaneceu preso.
  • Terceira parte: é formada por 9 liras e 13 sonetos com poemas que predominam o tom solitário e pessimista do narrador.

História real

A história escrita por Tomás Antônio Gonzaga não se trata de um romance poético fictício. Marília não foi só uma personagem de um clássico da literatura, ela existiu e se chamava Maria Doroteia Joaquina de Seixas Brandão.

Livro Marília de Dirceu
Livro “Marília de Dirceu” de Tomás Antônio Gonzaga. (Foto: Livraria Saraiva)

A obra, considerada autobiográfica, conta a história do próprio autor. Tomás conheceu Maria Doroteia em Ouro Preto, quando ela tinha 16 anos e ele 40. O romance entre eles permaneceu em segredo, pois a família da moça não aceitavam o rapaz por ser mais velho.

Quando Maria completou 18 anos, ficaria noiva de Tomás, no entanto, no dia marcado ele foi preso por ser um dos membros do movimento da Inconfidência Mineira. Foi levado para o Rio de Janeiro e passou a se corresponder com a jovem através de cartas sob o pseudônimo dos personagens da obra “Marília de Dirceu”.

Posteriormente, Tomás foi sentenciado a viver exilado em Moçambique, na África.  Lá se casou com a filha de um negociador de escravos. Já Maria (ou Marília) o esperou até o fim da vida.

Tomás morreu aos aos 65 anos de idade e Maria aos 85 anos, sem saber o paradeiro do amado. Anos depois, durante o governo Getúlio Vargas, os restos mortais de Tomás foram trazidos de volta ao Brasil.

Desenterraram também os restos mortais de Maria Doroteia e os dois foram enterrados juntos na Casa dos Contos, um museu em estilo barroco, e podem ser visitados pelos turistas.

Análise do livro “Marília de Dirceu”

A obra “Marília de Dirceu” pertence ao poeta luso-brasileiro Tomás Antônio Gonzaga e é considerada uma das mais importantes criações do movimento árcade no Brasil. A produção é dividida em três partes, que se constroem de acordo aos momentos vividos pelo próprio autor.

A primeira parte foi publicada em 1792, no qual fica evidente as características do Arcadismo através da exaltação da natureza, o bucolismo, o objetivismo e a esperança do casamento. Nesse momento, o autor começava a praticar a escrita do movimento.

Já na segunda, publicada em 1799, e na terceira, publicada em 1812, vinte anos após o início da história, Gonzaga reuniu seus lamentos, tristezas e lembranças do passado, já apresentando elementos da escola futura, o romantismo, tais como a idealização do objeto amado.

Apesar da primeira parte do livro ter sido publicada em Lisboa, “Marília de Dirceu” é um dos principais representantes do movimento arcadista no Brasil e está entre os clássicos da literatura nacional.

Personagens da obra

  • Marília: uma jovem camponesa que se tornou a amada do eu lírico do poema. A personagem foi inspirada em um amor real do autor.
  • Dirceu: o eu lírico apaixonado é um pastor de ovelhas, com respaldo por seus iguais no ambiente campestre em que circula.

Sobre o autor

Tomás António Gonzaga, também conhecido pelo nome arcádico de Dirceu, foi um jurista, poeta e ativista político nascido em Portugal. Filho de brasileiro, foi levado para o estado de Pernambuco ainda criança.

Em 1782, foi nomeado Ouvidor dos Defuntos e Ausentes da comarca de Vila Rica (atual cidade de Ouro Preto), onde conheceu Maria Doroteia, a pastora Marília de sua mais famosa obra.

Foi durante a permanência em Minas Gerais que também escreveu “Cartas Chilenas”, um poema satírico em forma de epístolas, explanando duras críticas ao governo colonial.

Gonzaga participou ativamente da Inconfidência Mineira, movimento pela independência de Minas Gerais, que resultou em sua prisão, sendo sentenciado a viver em segredo na África.

Morreu em 11 de agosto de 1744, aos 66 anos, em Moçambique. O autor é considerado o mais proeminente dos poetas árcades.

Arcadismo

É um movimento literário que surgiu na Europa do século XVIII (entre 1756 e 1825) e tem características reformistas, pois seu intuito era renovar às artes, o ensino, os hábitos e as atitudes da época.

Um dos principais elementos presentes no arcadismo é a exaltação da natureza e de tudo o que lhe diz respeito, além de expressar a crítica a burguesia e aos abusos da nobreza e do clero.

Principais características do Arcadismo

  • Bucolismo: valorização da vida no campo;
  • Pastoralismo: poetas simples e humildes;
  • Uso de pseudônimos com frequência;
  • Linguagem simples;
  • Tom confessional;
  • Nativismo: referências à terra e ao mundo natural;
  • Objetividade;
  • Espontaneidade dos sentimentos;
  • Exaltação da pureza, da ingenuidade e da beleza;
  • Tensão entre o burguês culto, da cidade, contra a aristocracia.

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BRITO, Samara. Marília de Dirceu; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/marilia-de-dirceu >. Acesso em 28 de outubro de 2019 às 14:36.

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