Mário Quintana

Prestigiado poeta, jornalista e tradutor brasileiro

Mário Quintana (1906-1994) foi um poeta, tradutor e jornalista brasileiro. Conhecido como “poeta das singelezas”, é considerado um dos maiores escritores do século XX. Teve seu primeiro livro publicado aos 34 anos, foi agraciado com o “Prêmio Machado de Assis” e o “Prêmio Jabuti”, e deixou um conjunto de obras literárias composto por mais de cinquenta livros.

Quem foi Mário Quintana?

“Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas… Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade.
Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro – o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu… Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à min há altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?
Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Érico Veríssimo – que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras.”

Texto escrito por Mário Quintana para a revista “IstoÉ” em novembro de 1984.

Tido como uma pessoa bem humorado e simples, Mário de Miranda Quintana nasceu no dia 30 de julho de 1906 na cidade de Alegrete, no Rio Grande do Sul. Era filho do farmacêutico Celso de Oliveira Quintana e de Virgínia de Miranda Quintana.

Viveu os primeiros anos de sua vida na cidade natal, onde iniciou seus estudos na Escola Elementar. Por volta de 1919, mudou-se para Porto Alegre, quando ingressou no Colégio Militar, em regime de internato.

Nessa época, Mario Quintana deu início as suas primeiras produções literárias, publicando versos na revista literária dos alunos da instituição. Com o pseudônimo de “JB”, publicou, em 1923, um soneto no jornal de Alegrete.

Poeta Mário Quintana
Poeta Mário Quintana (1906-1994). (Foto: Wikipédia)

Início da carreira

Em 1924, aos 18 anos, deixou o Colégio Militar e começou a trabalhar na livraria Globo. Poucos meses depois retornou para Alegrete, onde passou a trabalhar na farmácia da família.

Entre 1926 e 1927 Mário Quintana ficou órfão de mãe e pai. Nesse mesmo período, foi premiado em um concurso de contos do jornal “Diário de Notícias”, de Porto Alegre, com o conto "A Sétima Passagem".

Jornalista e tradutor

Anos mais tarde Quintana começou a trabalhar na redação do jornal “O Estado do Rio Grande”, atuando como jornalista e tradutor na redação do jornal. Em 1930, a “Revista Globo” e o “Correio do Povo” publicou alguns de seus versos.

Nesse mesmo ano, o jornal foi fechado devido ao advento da Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder. Desempregado, Mário Quintana decidiu partir para o Rio de Janeiro, onde entrou como voluntário para o 7° batalhão de Caçadores de Porto Alegre.

Seis meses depois retornou para Porto Alegre, dando continuidade ao seu trabalho no jornal “O Estado do Rio Grande”. Mário trabalhou como jornalista quase toda a vida, além disso, traduziu mais de cento e trinta obras da literatura universal, entre elas:

  • “Em Busca do Tempo Perdido” de Marcel Proust;
  • “Mrs Dalloway” de Virginia Woolf e;
  • “Palavras e Sangue” de Giovanni Papini.

Em 1936, Mário Quintana transferiu-se para a Livraria do Globo, onde trabalhou com Érico Veríssimo. Nessa época seus textos foram publicados na revista “Ibirapuitan”, onde anos mais tarde, Monteiro Lobato leu 12 dos seus quartetos e escreveu-lhe encomendando um livro.

“A Rua dos Cataventos” e prêmios

Mario Quintana estreou na literatura em 1940 com “A Rua dos Cataventos”, seu primeiro livro de sonetos, iniciando a carreira de poeta e escritor. Os anos seguinte da vida do escritor foram marcados pela produção de diversos outros poemas e obras.

No ano de 1966 ganhou o “Prêmio Fernando Chinaglia” da União Brasileira de Escritores de melhor livro do ano pela obra “Antologia Poética”, uma publicação com sessenta poemas, organizada por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos.

Em 1976, ao completar 70 anos, recebeu a medalha Negrinho do Pastoreio do governo do estado do Rio Grande do Sul. Em 1980, recebeu o “Prêmio Machado de Assis” da Academia Brasileira de Letras (ABL) pelo conjunto da obra. Em 1981, foi agraciado com o “Prêmio Jabuti” como Personalidade Literária do Ano.

Academia Brasileira de Letras

Mário Quintana tentou por três vezes uma vaga de literato na Academia Brasileira de Letras, mas em nenhuma das ocasiões foi eleito. Ao ser convidado a candidatar-se uma quarta vez, e mesmo com a promessa de unanimidade de votos em torno de seu nome, o poeta recusou.

Vida pessoal

Quintana viveu grande parte da vida em hotéis, não casou-se, nem teve filhos. Residiu por mais de uma década no Hotel Majestic, localizado no centro histórico de Porto Alegre, de onde foi despejado em virtude de problemas financeiros causados pelo encerramento temporário das atividade do jornal “Correio do Povo”.

Na ocasião, o comentarista esportivo e ex-jogador da seleção Paulo Roberto Falcão cedeu a ele um dos quartos do Hotel Royal, de sua propriedade. Pouco tempo depois o poeta conseguiu um apartamento no centro da cidade, onde viveu até sua morte.

Mário Quintana faleceu em 5 de maio de 1994, aos 87 anos. O Hotel Majestic foi adquirido pelo governo estadual do Rio Grande do Sul e transformado em centro cultural, batizado como Casa de Cultura Mário Quintana.

As poesias de Quintana

Com um estilo marcado pela ironia, profundidade e perfeição técnica, Mario Quintana é um dos grandes nomes da literatura brasileira. Considerado o “poeta das coisas simples”, seus escritos possuem um linguagem clara e acessível.

Ávido leitor e escritor, Mário escreveu obras poéticas e infanto-juvenis. Apoiado em temas como o amor, o tempo, a natureza, o poeta também trazia suas próprias experiências para as obras.

A Rua dos Cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Algumas obras de Mário Quintana

  • “A Rua dos Cataventos” (1940);
  • “Canções” (1946);
  • “Espelho Mágico” (1951);
  • “Poesias” (1962);
  • “A Vaca e o Hipogrifo” (1977);
  • “Esconderijos do Tempo” (1980);
  • “A Cor do Invisível” (1989);
  • “Eu Passarinho” (2006 – Antologia póstuma).

Citações

Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.

A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas.

A poesia não se entrega a quem a define.

Faça a referência deste conteúdo seguindo as normas da ABNT:

BRITO, Samara. Mário Quintana; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/mario-quintana >. Acesso em 28 de outubro de 2019 às 21:03.

Copiar referência