Memorial de Aires

Último romance escrito por Machado de Assis

Memorial de Aires é uma obra de Machado de Assis. O autor é considerado o percursor do Realismo no Brasil por conta da publicação da obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, no ano de 1881, romance que é colocado ao lado dos subsequentes: Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e o próprio “Memorial de Aires”.

Preocupado com a crítica social, Machado de Assis desferiu severos julgamentos à burguesia do século XIX do Rio de Janeiro e influenciado pelo niilismo de Schopenhauer (a negação de tudo). Estes fatos criaram personagens machadianos extremamente pessimistas.

No período em que o escritor vivia, seus leitores achavam que suas obras tratavam-se de autobiografias. Com o objetivo de sanar essa dúvida, Machado de Assis, publicou "Memorial de Aires". Essa sim era uma obra autobiográfica e ele a publicou em seu último ano de vida.

Com isso, os personagens Aguiar e D. Carmo seriam Machado e Carolina (sua esposa). O autor escolhe o Conselheiro Aires, que já era figura em suas obras, a exemplo de Esaú e Jacó. Ele ficou como o único personagem consciente e equilibrado de sua densa gama de personagens elogiados.

Memorial de Aires: a obra

"Memorial de Aires" foi o último romance de Machado de Assis. A obra foi publicada no mesmo ano de sua morte, em 1908.

O romance foi disposto de modo que parece um diário, como acontece em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. O enredo não é único e contém vários episódios com nuances que chamam a atenção do leitor.   

Aires figura um conselheiro que sempre esteve ao lado de Machado de Assis em suas histórias, como um conselheiro ou amigo dos personagens de suas obras.

Reportava a figura do próprio Machado. Nesse título, uma mulher é idolatrada, a D. Carmo, que diante das obras do escritor, provavelmente adveio de Carolina Augusta Xavier de Novais. Isso se deve ao fato da coincidência dos nomes Aguiar e Assis, D. Carmo e Carolina e o fato do casal não ter tido herdeiros.

Essa é a obra do autor de máximo caráter autobiográfico.

Imagem de Machado de Assis
Na foto, Machado de Assis aos 57 anos, autor de Memorial de Aires. (Foto: Wikipédia).

Enredo de Memorial de Aires

"Memorial de Aires" teve sua composição como um diário de memórias. Ele é narrado pelo personagem Conselheiro Aires. Nele, fala-se sobre dois anos de sua vida como um diplomata aposentado, com cerca de seis décadas de vida e residente do Rio de Janeiro entre os anos de 1888 e 1889.

Aires tem talento em sua narração e isso, em alguns momentos, confunde e engana os leitores diante de suas observações perspicazes.

Em “Memorial de Aires”, o Conselheiro conta sobre as relações de amizade que fez, das leituras dos livros que requisitava nos seus tempos de diplomata e também cita acontecimentos políticos antigos.

O personagem confessa seus interesse – meio que romântico – pela viúva Fidélia, uma jovem viúva na verdade, protegida por Aguiar e Dona Carmo, um casal de idosos que não tiveram filhos.

Ele também fala da melancolia que os mesmos sentiram ao ver Tristão – um jovem tido por eles como um filho – tomar um rumo para a Europa, a fim de estudar medicina. Após os estudos, o jovem retorna como médico e casa-se com Fidélia a levando para a Europa.

Ao final da obra, Aires discursa com uma certa pena sobre a solidão do casal que terminou seus dias tendo apenas a companhia um do outro e de duas pessoas próximas.

Considerações sobre a obra

“Memorial de Aires” foi o nono e último romance de Machado de Assis, revelado no mesmo ano de sua morte. Nas suas cartas pessoais, Machado era prolixo em ratificar a característica de “ponto final” do Memorial. Ele também deixou registrado nessa carta a sua satisfação e contentamento diante das críticas positivas que a obra recebeu.

Não quisera o declínio.

Como afirma em carta a Mário de Alencar.

O “Memorial de Aires” não foi uma das obras mais “animadas” do escritor, mas ainda assim foi tão interessante e inovadora quanto as obras anteriores. Sob forma de diário, dando destaques ao ano de 1888 e 1889, o romance tinha a presença dos acontecimentos do grupo social do conselheiro José da Costa Marcondes Aires. Esse, era um diplomata viúvo e aposentado que já havia aparecido como personagem em um livro anterior, o Esaú e Jacó (1904).

A interligação de obras – já percebida antes em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881) e “Quincas Borba” (1890) – é, em “Memorial de Aires”, uma aplicação linguística que supera o encontro de personagens com a narração da obra.

As colocações que sugerem um passar de tempo, adicionados aos discursos de acontecimentos mínimos da vida dos personagens, fazem com que a atenção da narrativa se volte para os pequenos acontecimentos.

As relações afetivas estão no centro e acontecimentos de maior vulto, como a Abolição da Escravatura no Brasil, são posicionados como meros figurantes diante dos dramas íntimos do casal Aguiar, de Fidélia e Tristão ou, ainda, os pensamentos reflexivos do Conselheiro Aires de sua própria terceira idade.

O trocadilho anunciado no título de forma natural (em que "aire" pode ter o significado que lhe dá o dicionário: "coisa vã, fútil, sem valor"), adequa-se ao modo de diário.  

Os textos do conselheiro Aires possuem um inevitável tom confessional e, além desse motivo, talvez seja por isso que muitos leitores digam que no Memorial está o testamento existencial de Machado de Assis.

De mesmo modo, os personagens, principalmente o narrador, possuem características nobres como a sinceridade e a boa intenção, ao mesmo tempo eles podem ser considerados sínicos, fingidos e, ainda, ao mesmo tempo pode-se dizer que seja o contrário de tudo isso dito anteriormente.

Um parêntese: a abolição

A narrativa do “Memorial de Aires” abarca o espaço de tempo entre 1888 e 188, como já dito anteriormente. Nesse contexto, Machado de Assis, discretamente abolicionista e mestiço, coloca de forma singela e com palavras suavizadas por Aires, a ocasião na qual deu-se a abolição da escravatura.

No dia 19 de abril de 1888, Aires faz a seguinte anotação em seu diário:

Venha, que é tempo. Ainda me lembra do que lia lá fora, a nosso respeito, por ocasião da famosa proclamação de Lincoln: ‘Eu, Abraão Lincoln, Presidente dos Estados Unidos da América…’ Mais de um jornal fez alusão nominal ao Brasil, dizendo que restava agora que um povo cristão e último imitasse aquele e acabasse também com os seus escravos. Espero que hoje nos louvem. Ainda que tardiamente, é a liberdade, como queriam a sua os conjurados de Tiradentes.

Contestando os que acusam Machado de Assis de não ter dado atenção à questão escravista, as palavras de Aires saem do seu modo anteriormente sempre diplomático.

Com isso, percebe-se o autor na voz ativa do narrador. Utilizando Aires, Machado de Assis deixa para a humanidade seu protesto sobre a escravidão no Brasil. São declarações afirmativas do conselheiro que eliminam todas as dúvidas em relação ao seu pensamento sobre o tema.

Observe a anotação no diário do conselheiro:

Se eles não têm de ir viver na roça, e não precisam do valor da fazenda, melhor é dá-la aos libertos. Poderão estes fazer a obra comum e corresponder à boa vontade da sinhá-moça? É outra questão, mas não se me dá de a ver ou não resolvida; há muita outra cousa neste mundo mais interessante. (1889, 15 de abril).

O narrador evita direto julgamento, contudo as páginas do diário coloca o leitor de frente para o tema.

Em obras românticas como Helena, Machado de Assis já colocava temas de seus romances legitimistas como Memorial de Aires.

 

Faça o download do PDF do livro “Memorial de Aires”.

 

 

Faça a referência deste conteúdo seguindo as normas da ABNT:

Bispo, Manuela. Memorial de Aires; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/memorial-de-aires >. Acesso em 29 de janeiro de 2020 às 18:38.

Copiar referência