Memórias de um Sargento de Milícias

Obra de Manuel Antônio de Almeida foge dos padrões do romantismo

capa do livro Memórias de um Sargento de Milícias
Livro “Memórias de um Sargento de Milícias” (Foto: Saraiva)

A obra “Memórias de um Sargento de Milícias” tem início com o romance entre Leonardo Pataca e Maria das Hortaliças. Eles se conhecem em um navio saindo de Portugal em direção ao Rio de Janeiro.

Como forma de paquera, Pataca e Maria trocam “pisadelas” e beliscões”, no dia seguinte os dois já estavam de namoro que parecia de muito tempo.

Ao desembarcarem, Maria das Hortaliças começa a sentir enjoos, “efeito das pisadelas e dos beliscões”. 

Sete meses depois teve a Maria um filho, formidável menino de quase três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão; o qual, logo depois que nasceu, mamou duas horas seguidas sem largar o peito.

Então nasce o herói da história, o menino Leonardo. Batizado pela parteira e pelo barbeiro de defronte.

Desde que nasceu, Leonardo era um menino travesso. Quando bebê, chorava tão alto que atormentava os vizinhos, ao começar andar e falar quebrava e rasgava tudo que pegava.

Era, além de traquinas, guloso; quando não traquinava, comia.

Quando Leonardo completou 7 anos, seu pai começou a desconfiar da esposa. Há alguns meses tinha notado certa curiosidade de um sargento que passava muitas vezes por sua porta, olhando curiosamente para dentro.

Depois, começou a estranhar que um certo colega seu passou a lhe procurar para falar de trabalho em horários alternados.

Seguinte a isso, começou a encontrar, por diversas vezes perto de sua casa, o capitão de um navio que tinha vindo de Lisboa.

Certo dia, Pataca chegou em casa sem ser esperado, viu alguém saltar pela janela e desaparecer na rua. Então não lhe restou dúvidas, estava sendo traído. Perdeu as estribeiras e ficou cego de ciúmes.

Isto exasperou o Leonardo; a lembrança do amor aumentou-lhe a dor da traição, e o ciúme e a raiva de que se achava possuído transbordaram em socos sobre a Maria, que depois de uma tentativa inútil de resistência desatou a correr, a chorar e a gritar.

O compadre estava com cliente, não pôde ajudar. Já o menino assistia a briga dos pais na maior tranquilidade, ocupando-se de rasgar as folhas que seu pai trouxera do trabalho.

Enfurecido pelo ciúme e pela petulância do menino, Leonardo Pataca o suspendeu pelas orelhas, lhe deu um pé na bunda e jogou o menino longe.

Ao outro dia sabia-se por toda a vizinhança que a moça do Leonardo tinha fugido para Portugal com o capitão de um navio que partira na véspera de noite.

Após tamanha infelicidade, Leonardo abandona sua casa e seu filho. O padrinho, como havia prometido no dia anterior a Maria, ficou responsável por cuidar do menino que não deixara de aprontar.

O padrinho porém não se dava disto, e continuava a querer-lhe sempre muito bem. Gastava às vezes as noites em fazer castelos no ar a seu respeito; sonhava-lhe uma grande fortuna e uma elevada posição, e tratava de estudar os meios que o levassem a esse fim.

O padrinho, depois de muito pensar, decide que o menino deveria ir para Coimbra estudar. Certo dia, após ser comunicado que iria começar a frequentar a escola, o pequeno travesso segue a via-sacra da Igreja do Bom Jesus.

O compadre passa a procurar o menino desaparecido, refaz todo o caminho da procissão, mas não o encontra. No fim das contas, o menino passou a noite em uma festa de ciganos.

Na época, os ciganos eram considerados pragas, gente ociosa e de poucos escrúpulos que traziam maus hábitos, esperteza e velhacaria.

Enquanto seu filho está sob os cuidados do padrinho, Leonardo apaixona-se por uma cigana que assim como Maria, envolvia-se com os oficiais que circulavam pela região e, por fim, também fugiu de casa.

Desta vez, Leonardo decidiu que não perderia sua amada e usaria qualquer meio para tê-la novamente. Assim sendo, recorreu à feitiçaria, prática proibida naquela época.

Ainda não havia polícia na cidade, mas um certo soldado mantinha as ordens na localidade e Leonardo foi preso, sendo solto logo em seguida.

O major Vidigal era o rei absoluto, o árbitro supremo de tudo que dizia respeito a esse ramo de administração; era o juiz que julgava e distribuía a pena, e ao mesmo tempo o guarda que dava caça aos criminosos; nas causas da sua imensa alçada não havia testemunhas, nem provas, nem razões, nem processo; ele resumia tudo em si; a sua justiça era infalível; não havia apelação das sentenças que dava, fazia o que queria, e ninguém lhe tomava contas.

Após ouvir uma fofoca acerca da família de Leonardo Pataca, a comadre vai em busca de notícias do afilhado. O compadre falou das qualidade do menino, que só ele via, e contou suas intenções a respeito do futuro do pequeno.

A comadre não concordou, não acreditava que o menino tinha vocação para padre, achava melhor que ele aprendesse uma profissão. Leonardo filho entra para a escola, porém continua endiabrado, leva palmatória da professora todos os dias.

O padrinho faz muito esforço para que o menino continue frequentando a escola, porém ele frequentemente foge. Começa uma amizade com um coroinha da igreja e pede ao padrinho para seguir a mesma atividade.

O barbeiro acredita então que o futuro do afilhado está encaminhado. Entretanto, após mais uma vingança, desta vez contra o padre e mestre de cerimônias da paróquia, é expulso da igreja.

Com o passar do tempo, o menino foi sossegando, até que chegou a idade dos amores. Leonardo se apaixona por Luizinha, sobrinha de D. Maria e rica herdeira que desperta o interesse de José Manuel.

Leonardo estremeceu por dentro, e pediu ao céu que a lua fosse eterna; virando o rosto, viu sobre seus ombros aquela cabeça de menina iluminada pelo clarão pálido do misto que ardia, e ficou também por sua vez extasiado; pareceu-lhe então o rosto mais lindo que jamais vira, e admirou-se profundamente de que tivesse podido alguma vez rir-se dela e achá-la feia.

Apesar das tentativas da comadre de desqualificar o concorrente do afilhado, Manuel desmascara a madrinha, reverte a situação e se casa com a moça.

Posteriormente, o barbeiro falece e deixa sua herança para o afilhado. Leonardo volta a morar com o pai, que estava interessado na herança, porém após muitos desentendimentos com a madrasta, foge de casa.

Leonardo passa a morar na Rua da Vala, junto a um amigo de infância e mais um grupo de pessoas. Lá conhece Vidinha, com quem passa a se envolver e desperta ciúmes em outros rapazes do grupo.

Vidigal passa a perseguir Leonardo devido uma denúncia feita pelos rapazes. Leonardo consegue fugir após ser capturado por Vidigal, que jura vingar-se.

Com o intuito que o afilhado abandonasse a vadiagem, a madrinha lhe consegue um emprego na Ucharia Real, porém Leonardo envolve-se com a mulher do patrão e é despedido.

Vidigal aproveita a brecha e o prende. Obrigado pela polícia, Leonardo passa a servir ao exército. E, ao contrário do que pensava o soldado, Leonardo continua aprontando dentro do batalhão.

Após revelar um plano de prisão arquitetado por Vidigal, Leonardo é preso e condenado a levar chibatadas. A comadre fica desesperada e pede ajuda a D. Maria que recorre a Maria Regalada.

A Maria-Regalada tinha por muito tempo resistido aos desejos ardentes que nutria o major de que ela viesse definitivamente morar em sua companhia.

As três vão até delegacia, choram e imploram a liberdade de Leonardo. Por fim, após Maria Regalada promete satisfazer a vontade de Major Vidigal, ele promete soltar Leonardo.

Major Vidigal não só o liberta como o promove a sargento.

Após a morte de José Manuel, que sofre um ataque ao descobrir a ação movida por D. Maria referente a herança da sobrinha, Luizinha e Leonardo retomam o namoro.

Os dois desejam se casar, contudo há uma dificuldade, sargento de linha não podia casar.

Só essa dificuldade demorava os dois. Entretanto o Leonardo achou um dia o salvatério, e veio comunicar a Luizinha o meio que tudo remediava: podia ficar ele sendo soldado e casar, dando baixa na tropa de linha, e passando-se no mesmo posto para as Milícias.

Major Vidigal foi o responsável pela baixa. Em uma semana nomeou Leonardo a Sargento de Milícias. Finalmente Leonardo e Luizinha se casam, em uma cerimônia assistida por toda família.

Análise da obra “Memórias de um Sargento de Milícias”

A obra “Memórias de um Sargento de Milícias” foi inicialmente publicada em folhetins do “Correio Mercantil do Rio de Janeiro”, entre os anos de 1852 e 1853. É a única obra literária de Manuel Antônio de Almeida e distancia-se do Romantismo.

Apesar de se tratar de um romance, “Memórias de um Sargento de Milícias” não é marcado pelas características das obras deste gênero, que preservava a moral e os costume. Não apresenta, por exemplo, traços idealizados e sentimentalistas.

“Memórias de um Sargento de Milícias” é uma produção que foge dos padrões da época. Além de trazer o protagonista como uma espécie de anti-herói, um malandro carioca, incorpora a linguagem da classe popular.

O livro foi publicado em 1854 e apresenta um retrato do Brasil na época de Dom João VI, a influência do catolicismo e a oposição aos costumes da elite.

Personagens principais

  • Leonardo: protagonista da narrativa. Menino endiabrado durante a infância que se torna Sargento da Milícia.  
  • Leonardo Pataca: pai de Leonardo, um meirinho (oficial de Justiça), envolve-se com diversas mulheres após ser abandonado por Maria das Hortaliças.
  • Maria das Hortaliças: mãe de Leonardo, uma saloia (camponesa), namoradeira que abandona a família e foge com outro homem.
  • O compadre: o padrinho de Leonardo. Improvisou-se de médico a bordo de um navio cuidando de um capitão moribundo, que entregou-lhe todas as economias para que as levasse à sua filha. Quando chegou a terra, ficou com tudo, abriu a barbearia e nunca procurou a herdeira.
  • A comadre: madrinha de Leonardo, era uma mulher baixa, excessivamente gorda, bonachona e ingênua, trabalhava como parteira e era extremamente religiosa.
  • Maria Regalada: amante do major Vidigal. Era chamada assim por ser muito alegre, ria de tudo.
  • Luizinha: única herdeira de D. Maria. Primeiro amor de Leonardo.

Curiosidade

  • Na obra, no lugar do nome do autor Manuel Antônio de Almeida constava apenas "um brasileiro“. O pseudônimo permitia manter o anonimato do autor e também esclarecer que não se tratava de texto escrito por um estrangeiro.

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BRITO, Samara. Memórias de um Sargento de Milícias; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/memorias-de-um-sargento-de-milicias >. Acesso em 28 de outubro de 2019 às 14:53.

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