Memórias Póstumas de Brás Cubas

Com uma narrativa fora do comum, a obra mudou o cenário da literatura brasileira

A história das Memórias Póstumas de Brás Cubas se inicia com o fim da vida do personagem principal, Brás Cubas, que decide se tornar o próprio narrador da sua existência a partir das suas memorias de defunto.

Capa do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas
Capa do livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Foto: Amazon)

Pertencente a elite carioca, Brás Cubas nasceu e cresceu rodeado de privilégios e mimos por seus pais. Aos cinco anos foi apelidado de “menino diabo”, título que ele reconhece fazer jus. Tinha o escravo Prudêncio como seu cavalo de estimação, no qual ele montava, dava voltas pela casa e chicoteava com uma varinha.

Enquanto seu pai o admirava diante de suas travessuras, dando mais liberdade que educação, sua mãe, devota a Deus e ao seu marido, o fazia decorar alguns preceitos e orações.

Era parceiro de traquinagem de Quincas Borba na escola, o qual ele descreve como o menino mais gracioso, inventivo e travesso que já conheceu.

Após um salto na história, Brás Cubas se torna um “lindo garção”, ou seja, um adolescente que segundo ele, não se distinguia bem se era uma criança com fisionomia de homem ou um homem com aparência de criança.

Foi nesta época que conheceu seu primeiro amor, a “linda Marcela”, espanhola de boa família, amiga do dinheiro e dos rapazes. Porém esse amor não durou muito.

Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos.

Europa

Seu pai descobre a quantidade de dinheiro gasto com Marcela, prostituta de luxo, e furioso com tal capricho do rapaz, decide enviá-lo para a universidade na Europa. Marcela não aceitou ir e não apareceu para despedir-se. Abatido e mudo, Cubas pensou em se jogar no oceano repetindo o nome Marcela.

Julgando que a graduação iria lhe proporcionar um grande futuro, um cargo de superioridade com uma grande reputação, seguiu para Coimbra.

A Universidade esperava-me com as suas matérias árduas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi o grau de bacharel; deram-mo com a solenidade do estilo, após os anos da lei; uma bela festa que me encheu de orgulho e de saudades, — principalmente de saudades.

Com o diploma em mãos e sem qualquer disposição para o trabalho, Brás Cubas segue viajando pela Europa, assistindo às alvoradas do romantismo e fazendo poesia na Itália.

Dentre suas memórias póstumas deste período, lembra-se que quase pôs fim em sua vida ao montar em um jumento. Salvo por um arrocheiro, resolve recompensá-lo com moedas de ouro que trazia consigo. 

Resolvi dar-lhe três moedas de ouro das cinco que trazia comigo; não porque tal fosse o preço da minha vida, — essa era inestimável; mas porque era uma recompensa digna da dedicação com que ele me salvou.

Contudo, ao analisar as vestes do homem que lhe salvou a vida, cogitou que sua gratificação era alta demais, uma moeda de ouro bastaria para proporcionar a alegria do pobre almocreve. Por fim, não lhe ofereceu qualquer recompensa.

De volta ao Rio

Brás Cubas retorna ao Rio de Janeiro logo após receber uma carta do seu pai que suplicava sua volta devido a séria condição de saúde de sua genitora. Depois da morte de sua mãe, muda-se para a Tijuca e suas atividades de luto se resumiam em caçar, ler, dormir e não fazer nada.

Novamente seu pai intervém no rumo de sua vida e surge com duas propostas: um casamento arranjado e uma carreira política. Dividido entre a razão em ter o respeito por ocupar uma posição política e uma esposa formosa, e a emoção pela fragilidade do afeto e da família, não soube o que escolher.

E com ajuda do seu pai conhece Virgília, a mesma que anos depois assistiria a seus últimos dias de vida, filha do Conselheiro Dutra e seu segundo amor.

Naquele tempo contava apenas uns quinze ou dezesseis anos; era talvez a mais atrevida criatura da nossa raça, e, com certeza, a mais voluntariosa. (…) Não digo que ia lhe coubesse a primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas.

Sendo assim, aceitou a ideia do seu pai, a Câmara dos Deputados e o casamento arranjado como forma de impulsionar sua popularidade. Apesar de ser rico, Brás não possuía ascendência nobre e a política era uma forma de obter um cargo de respeito.

Prestes a iniciar os planos do seu pai, Brás Cubas conhece Eugênia, a quem ele descreve como “minha vênus manca”, uma garota de olhos lúcidos, boca fresca, compostura tão senhoril e coxa*. O romance não dura muitos dias e Brás desce da Tijuca.

*Coxa: naquela época era a expressão usada para definir alguém que mancava em que tinha algum problema em uma das pernas que a fazia mancar.

Casamento

O casamento com Vigília deveria aconteceu o quanto antes, e um mês já estavam íntimos. No entanto surge Lobo Neves e muda todo o futuro de Brás Cubas. Apoiado por grandes influenciadores político, Virgília deseja ter mais status e casa-se com Neves.

Um homem que não era mais esbelto que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais simpático, e todavia foi quem me arrebatou Virgília e a candidatura.

Brás Cubas considera este momento como o início de sua derrota. Seu pai ficou abalado com tal acontecimento e morreu quatro meses depois, triste por não ver um Cubas em um alto posto.

Mais uma vez vivendo seu luto, Brás ficou recluso, saindo apenas de vez em quando. Consumia seu tempo escrevendo alguns artigos, algo que lhe rendeu certa reputação.

Tempos depois, Brás Cubas e Virgília se tornam amantes. Ele considera como o momento oportuno já que tiveram a chance de se casar e desfizeram sem qualquer sem dor ou ressentimento. E se amaram, mesmo que diante de todas as leis sociais isso fosse inaceitável.

Achávamos-nos jungidos um ao outro, como as duas almas que o poeta encontrou no Purgatório.

Virgília engravida de Brás, que fica muito feliz com a novidade. Ela lhe parece triste e zangada, mas Brás acredita que é consequência do medo do parto, pouco tempo depois, ela perde o bebê.

Tempos depois, Quincas Borba reaparece mais uma vez, agora defendendo o humanitismo, que seria o sistema de filosofia destinado a arruinar todos os demais sistemas.

Brás estava novamente próximo ao altar, quando resolveu levar o compromisso a sério, Nhã-loló morreu de febre amarela aos dezenove anos. Despediu-se triste, mas sem lagrimas, concluiu que talvez não a amasse de verdade.

Dois anos depois, Brás Cubas se torna deputado, cargo que não dura muito após seu desastroso discurso. Então resolveu criar um jornal em oposição ao governo, atividade que dura apenas seis meses.

Morte

Pouco antes de sua morte, tem a ideia de criar um medicamento sublime que cessaria todos os problemas da humanidade, mas na verdade só tinha a intenção de ver ter palavras impressas nos jornais, folhetos e caixinhas de remédio: Emplasto Brás Cubas.

Assim, a minha ideia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: — amor da glória.

Brás acreditava que tal medicamento o daria primeiro lugar entre os homens, acima da ciência e da riqueza, pois era uma ideia genuína.

Por fim, reconhece todas as coisas que não alcançou, como a fama pelo emplasto, não ter conhecido o casamento e nem ter sido ministro. Acredita que ao somar tudo, saiu quite com a vida. Porém ao escreves suas memórias póstumas, Brás Cubas encontra um pequeno saldo com a vida, não deixar nenhum herdeiro da sua insignificância.

Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

Análise da obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas”

Escrita em 1881, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” foi a primeira obra de Realismo escrita pelo autor Machado de Assis. O livro expõe a realidade da elite carioca no século 19, na qual poder era sinônimo de status. 

A história começa pelo fim da vida do personagem principal, Brás Cubas, que também dá nome a obra.

Enquanto vivo, Brás Cubas não podia falar o que realmente queria, porém após sua morte narrou sua opinião em todas as situações, escancaradamente. Em suas memórias póstumas, expressa-se sem se preocupar com o julgamento que os vivos podem fazer dele.

Deixa nítido o real cunho da elite brasileira, uma sociedade cheia de privilégios, aproveitadora e cheia de contradições entre seus ideias e atitudes.

Filme

Lançado em 2011, o filme “Memórias Póstumas de Brás Cubas” foi inspirado na obra de Machado de Assis. Com direção de André Klotzel, a comedia dramática foi premiada no Festival de Gramado.

Faça o download do livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.

Faça a referência deste conteúdo seguindo as normas da ABNT:

BRITO, Samara. Memórias Póstumas de Brás Cubas; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/memorias-postumas-de-bras-cubas >. Acesso em 18 de novembro de 2019 às 16:34.

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