Morte e Vida Severina

Trajetória do retirante nordestino, guiado pelo rio Capibaribe, em busca de uma vida prospera

Morte e Vida Severina” é um poema regionalista que narra a trajetória e o sofrimento de Severino, um retirante em busca de melhores condições de vida. Publicado em 1955, pelo escritor João Cabral de Melo Neto, a obra faz parte da terceira fase do Modernismo.

A história de Severino durante seu processo de migração está dividida em 18 partes, que apresentam dois momentos da trajetória do personagem, antes de chegar em Recife e depois.

Resumo

Severino busca se diferenciar através das referências pessoais, parentescos e geografia. Contudo, confirma ser inútil tantas descrições pois há tantos outros Severinos que vivem na mesma situação que a sua, filho de Maria, vivendo na mesma região, com a mesma cabeça grande.

— O meu nome é Severino, como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.

A semelhança entre os aqueles Severinos não estavam só em vida, mas também na morte Severina, causada pela falta de recursos que matava de velhice antes do trinta anos, e pela fome que matava um pouco a cada dia.

Por fim, para se distinguir dos tantos outros, declara:

Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

Ao iniciar sua caminhada a partir da Serra da Costela rumo a Recife, guiado pelo Rio Capibaribe, Severino se depara com a morte e vida Severina, mediante as situações de morte, desespero, miséria e fome, causadas principalmente pela seca.

— Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva;
só a morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,
e o pouco que não foi morte
foi de vida severina
(aquela vida que é menos
vivida que defendida, e
é ainda mais Severina
para o homem que retira).

Durante sua dura trajetória, Severino encontra os “irmãos de alma” carregando o corpo de Severino Lavrador, que já não lavra mais, vítima de uma emboscada ao lentar expandir sua lavoura.

Em dado momento, Severino pensa em parar sua viagem e buscar um emprego na região em que se encontra. Lavrador por toda vida, também sabia cuidar de gados, entretanto o maior e único empregador do local era a morte.

— E se pela última vez
me permite perguntar:
não existe outro trabalho
para mim nesse lugar?
— Como aqui a morte é tanta,
só é possível trabalhar
nessas profissões que fazem
da morte ofício ou bazar.

Severino então decide “apressar os passos” para chegar logo em Recife, pois a persistência na vida é a única forma de dominar a morte. Enfim no seu destino e cansado da viagem, Severino ouve a conversa entre dois coveiros, que dizem:

— E esse povo de lá de riba
de Pernambuco, da Paraíba
que vem buscar no Recife
poder morrer de velhice,
encontra só, aqui chegando,
cemitério esperando.
— Não é viagem o que fazem
vindo por essas caatingas, vargens;
aí está o seu erro:
vêm é seguindo seu próprio enterro.

Despedaçando as esperanças do migrante que só desejava ter um trabalho, comida e dinheiro para pagar o aluguel, Severino anula seus sonhos ao saber que viera seguindo o próprio enterro e que sua vida estava por um fio.

E chegando, aprendo que,
nessa viagem que eu fazia,
sem saber desde o Sertão,
meu próprio enterro eu seguia.
Só que devo ter chegado
adiantado de uns dias;
o enterro espera na porta:
o morto ainda está com vida.

Por fim, Severino chega à conclusão que a realidade as margens do rio não é muito melhor que a do sertão, a morte está em todo lugar e por não encontrar o benefício da vida, pensa em suicídio jogando-se no Rio Capibaribe.

Mas ao anunciarem o nascimento do filho do carpinteiro José, mais um Severino, ocorre uma renovação das esperanças do sertanejo, a renovação da vida. O nascimento desse Severino em meio a pobreza representa, metaforicamente, o nascimento de Jesus, que justifica o subtítulo da obra "Auto de Natal pernambucano".

— Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, Severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida Severina.

Análise do livro “Morte e Vida Severina”

Livro Morte e Vida Severina
Livro “Morte e Vida Severina” de João Cabral de Melo Neto (Foto: Site Saraiva)

Publicado em 1955, “Morte e Vida Severina” é um poema narrativo e modernista do escritor João Cabral de Melo Neto. Parte das obras da literatura regionalista brasileira é um auto de natal do folclore pernambucano e, também, da tradição ibérica.

Inspirado e influenciado pelo realismo espanhol, o livro é considerado uma reconstrução dos autos medievais, porém retratando a vida no sertão. O autor traz a realidade e o sofrimento vivido pelos nordestinos em meio a seca.

Vítimas do descaso e da fome, João Cabral utiliza uma linguagem poética para contar a história dos milhares de retirantes nordestinos, ou Severinos, que abandonam seu lar em busca de uma vida mais generosa, assim como em Vidas Secas.  

Mais focado no cenário visual, do que nos sentimentos de pessimismo e miséria desse povo, o poema dramático “Morte e Vida Severina” fez de João Cabral de Melo Neto um dos poetas mais prestigiados da Literatura Brasileira.

Vejo que o Capibaribe,
como os rios lá de cima,
é tão pobre que nem sempre
pode cumprir sua sina
e no verão também corta,
com pernas que não caminham.

Personagens

  • Severino: narrados e personagem principal, um migrante sertanejo em busca de uma vida melhor na capital pernambucana.
  • José: mestre carpina, salva a vida de Severino que pretendia se suicidar no rio.
  • Mulher na janela: moradora da região atingida pela seca, explica a Severino que não há trabalho para lavrador, apenas ofícios ligados a morte.

Filme em animação

Como todo clássico da literatura, “Morte e Vida Severina” já foi adaptado para o teatro, cinema e TV. Uma das últimas criações embasada na obra se trata de um desenho animado em 3D.

Adaptada para os quadrinhos pelo cartunista Miguel Falcão, a produção em preto e branco preserva o texto original ao narra a dura caminhada de Severino. Confira a animação completa:

Sobre o autor

João Cabral de Melo Neto (1920-1999) foi um poeta e diplomata brasileiro que iniciou uma nova forma de fazer poesia no Brasil com poemas marcados pelo uso de rimas toantes que vão desde a tendência surrealista até a poesia popular.

João Cabral recebeu diversos prêmios literários, entre eles o “Prêmio Neustadt”, considerado como o “Nobel Americano”, sendo o único brasileiro agraciado com tal prêmio.

Faça a referência deste conteúdo seguindo as normas da ABNT:

BRITO, Samara. Morte e Vida Severina; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/morte-e-vida-severina >. Acesso em 28 de outubro de 2019 às 14:32.

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