O Ateneu

As experiências de Sérgio dentro de um colégio interno

O Ateneu” é um romance do escritor Raul Pompeia. Publicado pela primeira vez em 1888, a obra faz parte do realismo brasileiro e apresenta a história de Sérgio, um garoto que passou a conhecer e experimentar as relações sociais e afetivas durante o tempo em que viveu em um colégio interno.

Resumo

A história de “O Ateneu” ocorre durante dois anos específicos da vida de Sérgio, narrador e personagem principal da obra. Já adulto, ele narra o tempo e as experiências vividas no colégio interno que tornou-se um marco em sua existência, determinando o fim da infância e o início da maturidade.

O primeiro contato de Sérgio com o colégio, denominado Ateneu, foi durante uma visita, antes mesmo de ser matriculado. Junto a seu pai, conheceu as instalações em um dia de festa.  A pompa e a beleza do lugar logo o conquistam.

Até então, o menino de 11 anos havia tido algumas aulas em um externato familiar e com um preceptor. Assim, ingressar no Ateneu significava sua passagem para a maturidade, de forma que se afastaria do carinho e da proteção dos pais.

“Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam.

O Ateneu era uma instituição destinada a famílias com muito dinheiro, ainda que admitisse alguns alunos como uma espécie de bolsistas. A instituição era dirigida pelo pedagogo Sr. Aristarco e objetivava construir uma educação moral mediante uma rígida disciplina.

No primeiro momento, Sérgio sentiu-se deslocado. Logo foi recomendado por um professor para juntar-se com Rabelo, um dos melhores alunos da turma. Este, por sua vez, lhe deu todas as informações sobre o que acontecia dentro da instituição.

Desde os grupos problemáticos até a deturpação de gênero que ocorria através da “proteção” pessoal pelos mais fortes em troca de favores sexuais.

“Isto é uma multidão; é preciso força de cotovelos para romper. Não sou criança, nem idiota; vivo só e vejo de longe; mas vejo. Não pode imaginar. Os gênios fazem aqui dois sexos, como se fosse uma escola mista. Os rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos para o sexo da fraqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao desamparo. Quando, em segredo dos pais, pensam que o colégio é a melhor das vidas, com o acolhimento dos mais velhos, entre brejeiro e afetuoso, estão perdidos… Faça-se homem, meu amigo! Comece por não admitir protetores.”

Ao se apresentar para a turma, Sérgio tem um desmaio. Após esse mal súbito, o garoto passa a ser perseguido e assediado, ali ele narra sua primeira observação sobre os alunos e começa a perceber que os ideais que criou seriam difíceis de perseguir.

Com o decorrer do tempo vai conhecendo melhor o local e alterando sua visão em relação aos colegas, dando início a alguns ciclos de amizades, que foram marcados por acontecimentos significativos.

Livro O Ateneu
Capa do livro “O Ateneu” (1888) de Raul Pompéia. (Foto: Saraiva)

Primeiro, fez amizade com o bom aluno chamado Sanches, que o salvou de um afogamento durante uma aula de natação. Os dois se tornaram próximos e passaram a estudar juntos, no entanto, ao perceber uma aproximação íntima por parte do colega, Sérgio o repreende e os dois acabam brigando.

Sanches não fica satisfeito ao ser desprezado pelo colega, assim, se aproveita de sua posição de prestígio para prejudicá-lo. A partir daí, Sérgio se torna um mau aluno, passando a ser citado no “livro de notas” de Aristarco, um caderno no qual os professores anotavam as indisciplinas que depois eram expostas para todo o colégio durante o café da manhã.

No decorrer do tempo, o garoto inicia uma amizade com Franco, um aluno problemático, esquecido por seus pais dentro do internato e desprezado pelo diretor. Franco convida Sérgio a se vingar dos outros colegas.

Certa noite, Franco enche a piscina de banho com cacos de vidros, enquanto o protagonista observa tudo sem ação. Ao voltar para o dormitório, Sérgio sente remorso ao pensar nas crianças que ficarão feridas no banho de manhã.

Culpado, vai até a capela rezar e acaba adormecendo. Na amanhã seguinte, o banho na piscina não acontece, ninguém se machuca, mas os dois amigos vão parar na diretoria. Sérgio inventa uma mentira para não denunciar Franco e acaba no castigo.

Mais tarde, aproxima-se de Barreto, um aluno muito religioso que conversa sobre Deus e os castigos do inferno guardados para os pecadores. Influenciado pelo jovem beato, Sérgio reza, faz jejum, mas permanece tirando notas baixas.

Revoltado, abandona sua religiosidade e a amizade com Barreto. Afastado de todos, decide seguir sozinho e buscar independência dentro do internato. Quando começa a frequentar a biblioteca, trava uma amizade com Bento Alves.

Bento era gaúcho, mais velho que Sérgio, e trabalhava como bibliotecário. A amizade dos dois tornou-se bastante íntima e próxima, baseada na compreensão mútua, o que gerou muitos comentários no Ateneu.

Paralelamente, ocorre um crime passional dentro do colégio. Um jardineiro mata, a facadas, outro funcionário da escola por amor a Ângela, uma espanhola que trabalhava na casa de Aristarco e D. Ema, esposa do diretor por quem Sérgio nutria um amor platônico.

Perante a outros acontecimentos dentro do Ateneu, como passeios a pontos turísticos do Rio de Janeiro, uma nova amizade entre Sérgio e Egbert, e a morte de Franco ocasionada por maus tratos no colégio, o narrador descreve o fatídico dia que põe fim a história.

Em uma manhã qualquer, todos gritavam pôr fogo, devido a um incêndio provocado supostamente pelo novo aluno, Américo. Junto ao Ateneu, que foi destruído em chamas, ocorre o desaparecimento misteriosamente de D. Emma. Assim, Sérgio encerra as memórias sobre uma vida de aprendizagem na escola.

Falavam do incendiário. Imóvel! Contavam que não se achava a senhora. Imóvel! A própria senhora com quem ele contava para o jardim de crianças! Dor veneranda! Indiferença suprema dos sofrimentos excepcionais! Majestade inerte do cedro fulminado! Ele pertencia ao monopólio da mágoa. O Ateneu devastado! O seu trabalho perdido, a conquista inapreciável dos seus esforços!… Em paz!… Não era um homem aquilo; era um de profundis.

Análise do livro “O Ateneu”

“O Ateneu” é uma obra do escritor brasileiro Raul Pompéia. Publicado pela primeira vez em 1888, o livro faz parte  do Realismo no Brasil, sendo considerado uma das obras mais importantes desse movimento.

A narrativa de Pompéia destaca-se por sua linguagem objetiva e descrições minuciosas através de um narrador-personagem que possui emoções guardadas e as expressam por uma descrição memorialista.

Além de apresentar diversas figuras de linguagem ao longo da história, o Ateneu é uma ambientação no qual Raul Pompeia aproveita para realizar um experimento social. Ou seja,tece críticas ao sistema educacional brasileiro e a sociedade carioca do final do século 19.

O autor  foi aluno de colégio interno, então considera-se que a obra possui traços de pessoalidade e identificação. Naquela época, havia uma falsa estruturação na educação, principalmente nos colégios internos frequentados pelos filhos da elite, onde a educação era imposta de forma severa e autoritária.

Além das críticas, a produção traz temáticas como a amizade, a vivência de novas experiências e a homossexualidade. Apesar de enquadrar-se no realismo, “O Ateneu” também é marcado por aspectos do naturalismo, atrelado a traços do expressionismo, impressionismo e simbolismo.

Principais personagens

  • Sérgio: narrador e protagonista da história. Entra no internato aos 11 anos e narra suas experiências ao longo do período em que lá viveu;
  • Aristarco: diretor do colégio e pedagogo reconhecido por suas obras;
  • D. Ema: esposa de Aristarco  e amor platônico de Sérgio;
  • Rebelo: ótimo aluno do colégio Ateneu e primeiro amigo de Sérgio;
  • Sanches: colega de Sérgio e estudante do colégio;
  • Franco: colega indisciplinado de Sérgio e estudante do colégio;
  • Barreto: colega beato de Sérgio e estudante do colégio;
  • Egbert: considerado o único amigo verdadeiro por Sérgio;
  • Bento Alves: bibliotecário do colégio, com quem Sérgio teve uma íntima amizade;
  • Américo: novo aluno do colégio e possível responsável pelo incêndio.

Faça o download do PDF do livro “O Ateneu”.

Faça a referência deste conteúdo seguindo as normas da ABNT:

BRITO, Samara. O Ateneu; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/o-ateneu >. Acesso em 28 de outubro de 2019 às 16:10.

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