O Guarani

A história do índio Peri, herói dos homens brancos

A narração de “O Guarani” começa por volta de 1604 descrevendo uma enorme casa nos padrões dos castelos medievais europeus, construída em uma inabitada cidade localizada na Serra dos Órgãos, às margens do Rio Paquequer.

A residência pertencia a D. Antônio de Mariz, fidalgo português e um dos fundadores do Rio de Janeiro. Junto com ele vivia sua mulher, D. Lauriana, uma paulistana um pouco egoísta, mas que tinha um bom coração.

Juntos tiveram dois filhos, D. Diogo de Mariz e D. Cecília. Na residência também morava D. Isabel, apresentada como sobrinha de D. Antônio, mas na verdade era sua filha bastarda, fruto do envolvimento com uma índia em uma de suas expedições.

Na habitação pairava um ar patriótico e leal à Portugal. Além da família e dos criados, cavaleiros, aventureiros e fidalgos se hospedavam na propriedade quando estavam em meio a expedições.

Certo dia, durante uma caçada em uma de suas expedições, D. Diego matou por acidente uma índia da tribo Aimoré. Tal acontecimento gerou revolta na tribo que prometeu vingança a família Mariz.

Dois índios Aimorés passaram a vigiar Cecília enquanto ela se banhava com a prima no rio, entretanto Peri estava sempre atento aos movimentos ao redor das moças.

Viu então sentados entre as guaximas dois selvagens, mal cobertos por uma tanga de penas amarelas, que com o arco esticado e a flecha a partir, esperavam que Cecília passasse diante da fresta que formavam as pedras para despedirem o tiro.

Ao percebem que os inimigos se preparavam para atacar Cecília, os matou com uma pistola que havia ganhado de D. Antônio. Uma índia Aimoré que estava na mata consegue fugir e conta o ocorrido a tribo, desencadeando uma guerra.

Peri era um índio goitacá, considerado por D. Lauriana um selvagem de pele escura. Passou a fazer parte da família Mariz ao salvar Cecília de ser atingida por uma pedra que rolava colina abaixo.

Após esse acontecimento, D. Antônio ofereceu-lhe sua amizade mesmo sendo o branco inimigo, conquistador das terras pertencente a raça indígena.

“Guerreiro branco, Peri, primeiro de sua tribo, filho de Ararê, da nação Goitacá, forte na guerra, te oferece o seu arco; tu és amigo.”

O índio terminou aqui a sua narração.

Enquanto falava, um assomo de orgulho selvagem da força e da coragem lhe brilhava nos olhos negros, e dava certa nobreza ao seu gesto. Embora ignorante, filho das florestas, era um rei; tinha a realeza da força.

Desde então, Peri se tornou o fiel protetor de Cecília, a quem chamava de Ceci. Era alegre, tímido e submisso a todas as vontades de sua amada.

D. Antônio contava com a ajuda de dois funcionário na residência, Álvaro de Sá e Sr. Loredano. Álvaro era um jovem nobre, amigo da família e responsável pelos negócios. Nutria uma paixão não correspondida por Cecília e despertava o amor de Isabel.

Loredano era um criado, considerado fiel pela família. Planejava roubar uma mina de prata que fica abaixo da casa, sequestrar Ceci e incendiar a casa, entretanto seu plano foi descoberto por Peri.

D. Lauriana não escondia seu desafeto pelo índio Peri, considerava sua presença uma ameaça. Depois de muito insistir, conseguiu convencer o marido a expulsá-lo. É nesse momento que Peri revela o plano de Loredano contra a família.

Surpresa com a devoção do goitacá, a matriarca permite que ele permaneça morando com a família. Posteriormente, Loredano planejou a morte de D. Antônio, mas foi preso e condenado a morte na fogueira por traição.

Nesse meio tempo, os conflitos com os Aimoré ficaram cada vez mais intensos. Peri então tem um plano para pôr fim na tribo e salvar a família de D. Antônio de Mariz dos ataques.

Como sabia que os inimigos eram canibais, Peri se entregou em um ato heroico de sacrifício. Tomou veneno para ir até a aldeia Aimoré, morreria em combate para que os índios comessem sua carne, assim morreriam envenenados.

O que porém dava a esse plano um cunho de grandeza e de admiração, não era somente o heroísmo do sacrifício; era a beleza horrível da concepção, era o pensamento superior que ligara tantos acontecimentos, que os submetera à sua vontade, fazendo-os suceder-se naturalmente e caminhar para um desfecho necessário e infalível.

Após o desespero de Ceci diante da decisão do índio, Peri a prometeu encontrar um antídoto que apenas velhos pajés conheciam. Durante essa jornada, Álvaro e nove companheiros foram cercados por mais de cem Aimorés e acaba morrendo em combate.

Desolada com a morte de Álvaro, Isabel se suicida, abraçada ao amado, para acompanhar o amado na próxima vida.

Como tentativa de salvar a filha, D. Antônio batizou Peri, convertendo-o ao cristianismo, entorpeceu Ceci com vinho e ordenou que os dois fugissem. Assim, Peri e sua amada Ceci vão embora em uma canoa pelo Rio Paquequer.

Ao despertar, Ceci vê, com certa distância, o castelo pegando fogo. Seu pai explodiu a residência com barris de pólvora matando todos, inclusive os inimigos Aimorés. Dali por diante, restava apenas ela e seu fiel índio.

Cecília o ouvia sorrindo, e bebia uma a uma as suas palavras, como se fossem as partículas do ar que respirava; parecia-lhe que a alma de seu amigo, essa alma nobre e bela, se desprendia do seu corpo em cada uma das frases solenes, e vinha embeber-se no seu coração, que se abria para recebê-la.

Por fim, uma forte tempestade eleva a água do rio. Peri cata uma palmeira no meio mata, improvisa uma canoa e os dois somem no horizonte.

Análise da obra “O Guarani”

Escrito por José de Alencar inicialmente em folhetim, “O Guarani” teve seu capítulo inicial reproduzido em 1º de janeiro de 1857 no jornal “Diário do Rio de Janeiro”. No fim do mesmo ano foi publicado como livro, sofrendo poucas alterações.

Primeira capa de O Guarani
Capa da primeira edição de “O Guarani” (Foto: Wikipédia)

“O Guarani” foi a primeira obra dos romances indianistas do autor e tornou-se um clássico da literata brasileira. Também é considerado umas das primeiras obras da primeira fase do Modernismo no Brasil.

A obra segue a base tradicional do Romantismo, conduz uma história de amor que passa por complicações, mas termina com um final feliz. Possui um típico vilão, malicioso, que objetiva alcançar seu desejo através da trapaça.

Em “O Guarani”, Alencar faz uma idealização da figura indígena e sua relação com o homem branco, colonizado e colonizador, transformando o índio em um característico herói.

O autor também enaltece a originalidade nacional através da descrição e valorização das terras braseiras que servem de cenário para a narrativa.

A vegetação nessas paragens ostentava outrora todo o seu luxo e vigor; florestas virgens se estendiam ao longo das margens do rio, que corria no meio das arcarias de verdura e dos capitéis formados pelos leques das palmeiras.

Por fim, assim como na obra “Macunaíma“, José de Alencar articula sobre a formação miscigenados do povo brasileira que se deu através da união das raças branca e indígena.

Principais personagens

  • Peri: índio corajoso e valente, herói dos brancos.
  • Cecília (Ceci): filha de D. Antônio, jovem cobiçada, de longos cabelos loiros, olhos azuis, os lábios vermelhos, delicada e inocente.
  • D. Antônio de Mariz: nobre português explorador e um dos fundadores do Rio de Janeiro. 
  • Isabel: filha bastarda de D. Antônio, era a “típica brasileira”. Formosa, cheia de vigor e malícia. Tinha olhos grandes e negros, cabelos pretos, lábios desdenhosos e sorriso provocador.
  • D. Lauriana: esposa de D. Antônio, uma senhora paulistana de cinquenta e cinco anos egoísta e orgulhosa.
  • D. Diogo Mariz: filho de D. Antônio que seguia os caminhos do pai.

Curiosidades

  • A obra “O Guarani” foi adaptava pela primeira vem para o cinema em 1912, em um filme mudo. Foi novamente adaptado em 1972 pelo cineasta Fauzi Mansur, e passou por uma nova adaptação em 1996.
  • Em 1991 foi adaptado em uma minissérie na extinta TV Manchete.
  • A história de Alencar também foi adaptada para história em quadrinhos e literatura de cordel, ficando em terceiro lugar no Prêmio Jabuti.

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BRITO, Samara. O Guarani; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/o-guarani >. Acesso em 28 de outubro de 2019 às 14:46.

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