O Tempo e o Vento

Misturando ficção com realidade, a obra destaca-se pela referência histórica na formação do Sul do Brasil

A trilogia “O Tempo e o Vento” é uma série literária composta por três partes – “O Continente”, “O Retrato” e “O Arquipélago” – que apresentam a saga da família Terra-Cambará. O romance conta parte da história do Brasil no processo de formação do estado do Rio Grande do Sul.

“O Continente”

“O continente” é a primeiro parte de “O tempo e o Vento”. Dividido em dois volumes, a história parte do nascimento de Pedro Missioneiro, um menino mestiço de índio e branco que desaparece em um cavalo quando as forças portuguesas estão prestes à invadir Sete Povos das Missões e só reaparece já adulto.

Posteriormente, aventureiros sorocabanos vão ao sul da região, o qual chamam de continente, em busca de terras férteis. Entre os emigrantes está a família Terra, que torna-se o centro da história na formação do estado.

Ana Terra, filha dos paulistas de Sorocaba, Henriqueta e Maneco Terra, se apaixona e engravida do índio Pedro Missioneiro. No momento em que seu pai descobre a gravidez, ordena que os irmãos de Ana matem Pedro.

Quando os espanhóis invadem a fazenda da família Terra e matam seu pai e um de seus irmãos, Ana muda-se para Santa Fé, local onde sucederá todo o resto da história.

Ali deitada no chão a olhar para as estrelas, ela se sentia agora tomada por uma resignação que chegava quase a ser indiferença. Tinha dentro de si uma espécie de vazio: sabia que nunca mais teria vontade de rir nem de chorar. Queria viver, isso queria, e em grande parte por causa de Pedrinho, que afinal de contas não tinha pedido a ninguém para vir ao mundo. Mas queria viver também de raiva, de birra. A sorte andava sempre virada contra ela. Pois Ana estava agora decidida a contrariar o destino. Ficara louca de pesar no dia em que deixara Sorocaba para vir morar no Continente. Vezes sem conta tinha chorado de tristeza e de saudade naqueles cafundós. Vivia com o medo no coração, sem nenhuma esperança de dias melhores, sem a menor alegria, trabalhando como uma negra, e passando frio e desconforto… Tudo isso por quê? Porque era a sua sina. Mas uma pessoa pode lutar contra a sorte que tem. Pode e deve.

É em Santa Fé que Pedro Terra, filho do casal Ana Terra e Pedro Missioneiro, cresce e constrói sua família, torna-se pai de Juvenal Terra e Bibiana Terra.

Neste volume, o capítulo “Um Certo Capitão Rodrigo” é um dos principais destaques. A chegada repentina de Rodrigo Cambará a Santa Fé é marcada pelas características do rapaz, que representa a imagem do homem gaúcho forte, aventureiro, bravo e destemido.

Toda a gente tinha achado estranha a maneira como o capitão Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas. Devia andar lá pelo meio da casa dos trinta, montava um alazão, trazia bombachas claras, botas com chilenas de prata e o busto musculoso apertado num dólmã militar azul, com gola vermelha e botões de metal. Tinha um violão a tiracolo; sua espada, apresilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira. Apeou na frente da venda do Nicolau, amarrou o alazão no tronco dum cinamomo, entrou arrastando as esporas, batendo na coxa direita com o rebenque, e foi logo gritando, assim com ar de velho conhecido: – Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!

Causando antipatia em todo povoado, Rodrigo Cambará é convidado a abandonar a cidade, porém não obedece as ordens e permanece ali.  Certo dia, ao ver Bibiana Terra, o capitão Cambará se apaixona.

Bibiana herdara da avó, Ana Terra, uma desconfiança de todos homens. Estava sendo cortejada por Bento Amaral, filho do coronel Ricardo Amaral, com quem capitão Rodrigo Cambará trava um duelo de arma branca pela mão da moça.

Esse duelo resulta em Bento deferindo um tiro de revólver, que levará escondido, deixando Rodrigo entre a vida e a morte. Após descobrir o feito covarde do filho, col. Amaral promete deixar o capitão Rodrigo Cambará viver tranquilo no povoado.

Impressionada com a coragem de Rodrigo, Bibiana aceita casar-se com ele. O pai não gosta do sujeito, mas dá seu consentimento com tristeza.

Apesar de casado, capitão Rodrigo Cambará não se acostuma com a vida pacata do vilarejo, entrega-se a bebida e passa a ter casos com outras mulheres. Bibiana suporta as dificuldades, é uma mulher forte que nunca se queixa de nada nem de ninguém.

Após voltar da Guerra da Farroupilha, é assassinado durante uma invasão ao casarão do cel. Amaral, deixando Bibiana viúva e Bolívar órfão.

Por fim, dentre outros acontecimentos que fazem parte da história do país, Bolívar tem um filho chamado Licurgo Cambará que casa-se com sua prima Alice Terra. São pais de Toríbio Cambará e Rodrigo Cambará que dão continuidade aos próximos volumes do livro “O Tempo e o Vento”.

“O Retrato”

Em “O retrato” continua a história da família Terra-Cambará em mais dois volumes. Agora com um novo Rodrigo Cambará, bisneto do capitão e ainda seguindo o modelo do homem gaúcho com gosto para as aventuras e pelas mulheres.

Rodrigo formou-se em medicina em Porto Alegre e decide voltar a sua terra natal, Santa Fé, que aos poucos deixa de ser um povoado e vai se modernizando.

Com a cabeça para fora do vagão e achando um sabor ríspido e quase heroico em receber na cara o bafo do forno da soalheira e a poeira da estrada, Rodrigo ficou a pensar nas grandes coisas que pretendia fazer. Não se conformaria com ser um simples médico da roça, desses que enriquecem na clínica e acabam criando uma barriguinha imbecil. Não.

Acostumado com a vida na cidade, todo tempo compara a cidadezinha com Paris e outras grandes cidades, representando o homem da virada do século que deixa a realidade rústica e anseia a urbanização.

Diferente de seu irmão Toríbio, que se interessa mais pelo campo, Dr. Rodrigo Cambará idealiza projetos de vida grandiosos baseados em sua vivencia na “civilização”. Lança um jornal na cidade que começa a ter influência na política.

Nesse volume, que passa entre a virada do século XIX para o século XX, o plano de fundo da história são os avanços tecnológicos, os progressos da civilização e as mudanças em relação ao poder.

O horror moderno era o pavor da Vida e do Conhecido, o horror social causado pela violência e crueldade do homem contra o homem. Depois da Primeira Guerra Mundial o medo da fome, do desemprego, da miséria e o medo do próprio medo haviam preparado o caminho para o Estado Totalitário. Este por sua vez industrializara e racionalizara o medo a fim de fortalecer-se, sobreviver e ampliar suas conquistas geográficas e psicológicas.

Rodrigo Cambará torna-se um participante ativo das questões políticas e todo restante da narrativa ocorre em cima dos acontecimentos da época.

“O Arquipélago”

A terceira e última parte do livro é dividida em três volumes. Nesse ponto, ocorre a desintegração de todos os costumes e valores tradicionais da família Terra-Cambará.

Devido a atuação ativa de Dr. Rodrigo Cambará na política, parte da ação se passa no Rio de Janeiro, a capital do país na época, no qual ele é eleito deputado federal.

Personagens reais, como Getúlio Vargas, Osvaldo Aranha, Luís Carlos Prestes, participam da trajetória de Rodrigo Cambará mesclando ficção com realidade. Novamente, Dr. Rodrigo Cambará retorno a Santa Fé, ampliando o poder da família Cambará a âmbito nacional.

Neste volume, o capítulo “Diário de Sílvia” tem a primeira narração feminina apresentando os personagens de “O Tempo e o Vento” sob um ângulo diferente.

Relatado em primeira pessoa por Silvia, noiva de Jango e apaixonada pelo cunhado Floriano, a personagem relembra sua trajetória desde a infância até o amor fracassado por Floriano.

Por fim, Floriano Cambará decide escrever a história da família e inicia o conto com as primeiras palavras de “O continente”.

Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado.

Família Terra-Cambará de O Tempo e o Vento
Árvore Genealógica da Família Terra-Cambará. (Foto: Guia Estudo)

Análise da obra “O Tempo e o Vento”

“O Tempo e o Vento” é uma trilogia que abrange 200 anos do processo de formação do estado rio-grandense. Publicado pela primeira vez em 1949, a obra consagrou o escritor gaúcho Érico Veríssimo como um dos escritores brasileiros mais populares do século XX.

Dividido em partes, “O Tempo e o Vento” levou mais de uma década para ser escrito. A última parte da trilogia não era mais esperada devido à frágil saúde do autor que sofreu um ataque cardíaco. Porém, “O arquipélago” foi publicado onze anos após “O retrato”.

Os títulos empregados para compor a obra remetem ao significado de cada uma das fases da história. “O continente” refere-se a família e aos valores sólidos.

Já “O retrato” faz referência a uma pintura que Rodrigo Cambará pede para fazer de si mesmo e pendura na sala do sobrado da família. Retrata a personalidade dele mais individualista, narcisista.

“O arquipélago” é a dissolução do continente. Agora os integrantes da família Terra Cambará são como ilhas, um distante do outro, isolados, não existe mais entendimento.

“O Tempo e o Vento” é considerado a obra definitiva da Região Sul e uma das obras mais importantes do Brasil. Foi adaptada para a TV e para o cinema.

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BRITO, Samara. O Tempo e o Vento; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/o-tempo-e-o-vento >. Acesso em 28 de outubro de 2019 às 18:10.

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