Os Melhores Poemas de João Cabral de Melo Neto

Conjunto de poemas de João Cabral escolhidas por Antônio Carlos Secchin

Os Melhores Poemas de João Cabral de Melo Neto” é uma coletânea de poemas selecionadas por Antônio Carlos Secchin. O livro comporta diversas obras escritas por João Cabral de Melo Neto.

“Os Melhores Poemas de João Cabral de Melo Neto” são constituídos de obras do poeta desde o primeiro livro “A Pedra do Sono”, em 1942 a 1984, com trecho da obra “Auto do Frade”.

“Os Melhores Poemas de João Cabral de Melo Neto” é uma obra pertencente ao movimento literário Modernismo, também chamado de Geração de 45.

Entre os escolhidos por Antônio Carlos Secchin para compor “Os Melhores Poemas de João Cabral de Melo Neto” estão: O Cão Sem Plumas, O fim do mundo, Num Monumento à Aspirina, Uma Faca só Lâmina, Sevilha em Casa, Morte e Vida Severina, Pequena Ode Mineral, Tecendo a Manhã, Difícil ser Funcionário, Fábula de um Arquiteto, Catar feijão e O Relógio.

“Os Melhores Poemas de João Cabral de Melo Neto” é um livro que contempla a produção de todas as fases do poeta, com sua poesia carregada de crítica social.

Capa do livro “Os Melhores Poemas de João Cabral de Melo Neto”
Capa do livro “Os Melhores Poemas de João Cabral de Melo Neto”. (Foto: Site Amazon)

Os Melhores Poemas de João Cabral de Melo Neto: Morte e Vida Severina

“Morte e Vida Severina” é o poema mais famoso da coletânea “Os Melhores Poemas de João Cabral de Melo Neto”.

Publicada em 1955, “Morte e Vida Severina” é um dos poemas que mais representa o contexto histórico brasileiro da segunda metade do século XX.

“Morte e Vida Severina” é um poema dramática que narra a história de um sertanejo nordestino, Severino, que se retira do Nordeste e vai para o litoral.

Trecho do poema

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.

Veja na íntegra o poema “Morte e Vida Severina”. Faça o download e boa leitura!

O poema “Psicologia da Composição”

“Psicologia da Composição” foi publicada em 1947 e faz parte de uma trilogia com “Fábula de Anfion” e “Antiode”.

O poema é uma continuação ao antilirismo presente em outro poema, “O Engenheiro”. O poema discute a criação poética, algo que é constantemente trazido nas obras de João Cabral.

O título “Psicologia da Composição” é uma referência intertextual ao texto “Filosofia da Composição” do poeta Edgar Allan Poe.

Trecho do poema

Saio de meu poema
como quem lava as mãos.
Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.
Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;
talvez, como a camisa
vazia, que despi.

Poema “Tecendo a Manhã”

Lançado em 1966, “Tecendo a Manhã” traz reflexões sobre a lírica e a própria construção do poema, o trabalho poético. Ou seja, é uma metalinguagem ou metapoema, pois é um poema que fala sobre o poema.

A linguagem é voltada para o próprio poema e centraliza no trabalho poético. O trabalho poético e lírico feito no poema transmite um encanto com coisas cotidianas e fortuitas.

Trecho do poema

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

Esses são alguns dos poemas que está no livro “Os Melhores Poemas de João Cabral de Melo Neto”.

Os Melhores Poemas de João Cabral de Melo Neto: a poética do poeta

João Cabral de Melo Neto não tinha uma ideia convencional do fazer poesia, pois segundo ele o trabalho poético não vem de uma “inspiração” ou da criatividade. Para ele, o trabalho poético é feito pelo rigor da construção e da organização do próprio texto.

Além disso, ele tinha um ideal artístico da “simetria”, cujo resultado era conseguido por meio da autocrítica e de um rígido trabalho linguístico.

Por causa disso, o poeta também é chamado de “poeta engenheiro”, “arquiteto das palavras”, ou “poeta da pedra”.

Todos esses nomes provêm exatamente do modo de construção de texto que João Cabral tinha. A poesia deve satisfazer uma composição artística, sem espaços para improvisos ou sentimentalismo.

Os poemas de João Cabral são de caráter extremamente objetivo, com dados da realidade, por isso que eram carregados de críticas sociais.

No seu trabalho poético, João Cabral procurou aniquilar qualquer subjetividade e individualismo típicos dos poemas românticos, como a voz poética. Para ele o poema tinha que comunicar de forma direta e objetiva, sem a presença do “eu íntimo” do poeta.

Fugindo da subjetividade e individualidade dos poemas românticos, João Cabral procurou outra forma de comunicar. E por causa disso, ele se aproximou das cantigas nordestinas, como o cordel e trovas medievais.

Até técnicas de composições na poesia populares do Nordeste foram utilizadas em seus poemas, como a repetição de palavras, característico do cordel nordestino.

De todo modo, o trabalho poético do poeta é bem-apresentado com seu tempo, pois no século XX, o mundo passava por profundas transformações com duas guerras mundiais.

Eram tempos que exigia que a arte fosse objetiva, concisa, rigorosa, mas também engajada. Uma arte que se preocupava em falar do seu lugar no mundo, explicar e mostrar que a literatura é uma arte que é necessário em um momento conturbado.

Sobre João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto foi um poeta e diplomata brasileiro, ocupando os cargos de embaixador e cônsul.

O poeta nasceu em 9 de janeiro de 1920, e falece aos 79 anos em 9 de outubro de 1999, no Rio de Janeiro. Ganhador de diversos prêmios como Prêmio Jabuti (1967 e 1993), Prêmio Camões (1990), Prêmio Literário Internacional Neustadt (1992) e Prêmio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana (1994).

João Cabral foi membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e da Academia Pernambucana de Letras (APL). Na ABL foi empossado em 1969 e ocupou a cadeira 37, antes ocupado pelo jornalista Assis Chateaubriand.

Contudo, na Academia Pernambucana de Letras, ele não compareceu nem a sua posse nem compareceu a nenhuma das reuniões da APL.

Estátua do poeta João Cabral de Melo Neto em Recife.
Estátua do poeta João Cabral de Melo Neto em Recife, Pernambuco. (Foto: Frickr)

Trajetória de João Cabral

A carreira poética é presente na família de João Cabral desde cedo, sendo que ele era primo do poeta Manuel Bandeira pelo lado do pai.

Então, ainda jovem, aos 18 anos já frequentava rodas literárias, e chegou a conhecer os escritores Murilo Mendes e Carlos Drummond de Andrade em uma viagem com a família para o Rio de Janeiro, em 1940.

Em 1942, publicou seu primeiro livro “Pedra do sono”, e no mesmo ano se mudou para o Rio de Janeiro e trabalhou como funcionário público. Três anos depois, publicou “O Engenho” e prestou concurso para carreira diplomática, iniciando a carreira no ano seguinte, 1946.

Em 1946 se casou com Stella Maria Barbosa de Oliveira, e o ano seguinte se mudou para a Espanha para trabalhar como vice-cônsul, e anos depois se mudou para Londres.

Ainda fora do Brasil, em 1950 publicou “O cão sem plumas”. Em 1952 regressou ao território para responder a um inquérito por subversão.

Durante os dois anos que passou pelo processo ficou sem rendimentos, e só foi reintegrado a carreia diplomática em 1954. No ano seguinte, recebeu da ABL o prêmio Olavo Bilac. Em 1956 publicou diversas obras, inclusive o poema “Morte e Vida Severina”.

Em 1958 voltou para a Espanha, e depois foi trabalhar em Madri e Brasília, posteriormente. Em 1964 trabalhou como conselheiro da Delegação do Brasil

Em 1968 foi eleito para a Academia Brasileira de Letra. Ainda com sua carreira diplomática, chegou a trabalhar no Paraguai, Honduras, Senegal e Portugal.

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Lima, Cleane. Os Melhores Poemas de João Cabral de Melo Neto; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/os-melhores-poemas-de-joao-cabral-de-melo-neto >. Acesso em 21 de setembro de 2019 às 01:35.

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