Os Sertões

Retrato da Guerra de Canudos, conflito nordestino que dizimou uma população inteira

Os Sertões” se divide em três partes: “A terra”, “O homem” e “A luta”. Escrito através do estilo jornalístico de Euclides da Cunha, o livro faz um retrato dos elementos que compõem a Guerra de Canudos (1896-1897), no interior da Bahia.

Guerra de Canudos retratada em Os sertões
“Os Sertões” trata sobre a Guerra de Canudos que resultou na dizimação completa da população (Foto: Wikipédia)

“A terra”

A primeira parte do livro traz o cenário onde se passa a narrativa. Por meio de estudos do relevo, do solo, da fauna, da flora e do clima da Região Nordeste, Euclides revela que nada supera a principal calamidade do sertão: a seca. Para o autor, a exploração do homem é o responsável pela destruição geológica.

“O homem”

Através do determinismo, Euclides analisa o sertanejo e seus costumes, focando em sua relação com o meio, sua gênese etnológica, seu comportamento, crença e costume.

Aqui ele também explora a vida e personalidade do líder de Canudos, Antônio Conselheiro, através da genealogia, das suas pregações, caráter, passado e relatos de como era a vida e os costumes em Canudos. Tudo relatado por visitantes e habitantes capturados.

“A luta”

A terceira parte trata-se da descrição feita pelo jornalista sobre a batalha. Explica com riqueza de detalhes os fatos das quatro expedições a Canudos, criando o retrato real de testemunho da fome, peste, miséria, violência e insanidade da guerra que dizimou a população do arraial nordestino.

Guerra de Canudos

O processo de modernização no final do século XX teve muito impacto em várias regiões do Brasil. A decadência nordestina se acentuou com a grave crise econômica e social em que a região se encontrava na época.

A situação piorou pela ocorrência de um grande período de seca e desemprego permanente. Até então os pequenos lavradores, trabalhadores livres e vaqueiros, encontravam trabalho com os grandes latifundiários, porém a crise os deixou sem moradia e trabalho.

A população acreditava em uma salvação milagrosa que protegeria os sertanejos vítimas das adversidades do tempo e da exclusão econômica e social.

Antônio Vicente Mendes Maciel, apelidado de Antônio Conselheiro, chegou no interior da Bahia em um arraial chamado Canudos em 1893. Tornou-se líder do arraial e atrai milhares de pessoas.

Após a chegada do líder religioso, Canudos passou a ter uma constante migração de pessoas, chagando a uma média de 25 mil habitantes. Tal fato não agradou a imprensa, o clero e os latifundiários da região.

Conselheiro foi considerado um monarquista perigoso a serviço de potências estrangeiras. Essa reputação manipulada ganhou o apoio da opinião pública para justificar a guerra movida contra os habitantes do arraial de Canudos.

Primeira expedição

O estopim para o conflito se deu em outubro de 1896 após Antônio Conselheiro ter encomendado uma remessa de madeira, vinda de Juazeiro, que seria usada para a construção da nova igreja. A madeira foi paga, mas não foi entregue.

Os conselheiristas, como eram chamados os seguidores de Antônio Conselheiro, receberem a tiros as tropas policiais que foram de Juazeiro até Canudos, deixando dezenas de mortos e feridos.

Segunda expedição

Em janeiro de 1897 uma segunda expedição militar contra Canudos foi enviada. Certo da vitória, voltaram derrotados e com uma baixa de mais de cem soldados.

Os seguidores de Conselheiro estavam armados com equipamentos modernos abandonados ou tomados das tropas, além de possuir coragem e habilidade militar.

Insatisfeito, o então presidente Prudente de Moraes convocou o coronel Moreira César para o comando de uma nova expedição a Canudos.

Terceira expedição

A notícia da chegada de tropas militares à região atraiu um grande número de pessoas de várias áreas do Nordeste que iam em defesa do “Homem Santo”. Em março de 1897, a força armada atacou o arraial.

Moreira César foi morto em combate. O comando foi passado para o coronel Pedro Nunes Batista Ferreira Tamarindo que morreu no mesmo dia. Desta forma, a expedição foi obrigada a retroceder.

Quarta expedição

Entre abril e outubro de 1897, duas tropas foram enviadas para combate, ambas com mais de quatro mil soldados equipados com as mais modernas armas da época. Não obtiveram bons resultados nos primeiros meses pois o exército não tinha a infraestrutura necessária para alimentar suas tropas.

Depois de várias batalhas, a tropa conseguiu fechar o cerco sobre o arraial. Antônio Conselheiro morreu em 22 de setembro, supostamente vítima de uma disenteria.

Parte da população que se rendeu após a promessa de perdão garantida pela república foi posteriormente degolada. Tal execução ficou conhecida como “gravata vermelha”.

Após um ano de resistência, Canudos foi totalmente destruída. A Guerra durou de 1892 a 1896. O arraial foi incendiado e a população dizimada, culminando a destruição total da povoação.

Análise da obra “Os Sertões”

A obra “Os Sertões” foi escrita após o autor e jornalista Euclides da Cunha ser enviado como correspondente pelo jornal “O Estado de São Paulo” para fazer a cobertura da Guerra de Canudos.

Primeira capa de os sertões
Primeira capa do livro “Os Sertões” de Euclides da Cunha (Foto: Wikipédia)

Publicado em 1902, é considerado o primeiro livro-reportagem brasileiro e faz parte do dá início ao período que se chama de Pré-Modernismo.

Retratando um acontecimento que faz parte da História do Brasil, que foi a Guerra de Canudos, e a figura fanática de Antônio Conselheiro, “Os sertões” revela um estilo conflituoso, angustiante e cruel.

Utilizando o esquema do determinismo de Taine, que acreditavam que os acontecimentos ocorrem de uma maneira já fixada, de acordo leis da Natureza, Euclides desenvolveu a narrativa de acordo ao meio, a raça e o momento histórico.

O determinismo considerava o mestiço brasileiro uma raça inferior e Euclides da Cunha representava o pensamento do século XIX, conservando o preconceito racial a um povo visto como sub-raça.

Como a maioria dos de sua época, acreditava na existência de uma “raça superior”, e em sua íntima relação com os de pele clara.

Intentamos esboçar, palidamente embora, ante o olhar de futuros historiadores, os traços atuais mais expressivos das sub-raças sertanejas do Brasil. E fazêmo-lo porque a sua instabilidade de complexos de fatores múltiplos e diversamente combinados, aliada às vicissitudes históricas e deplorável situação mental em que jazem, as tornam talvez efêmeras, destinadas a próximo desaparecimento ante as exigências crescentes da civilização e a concorrência material intensiva das correntes migratórias que começam a invadir profundamente a nossa terra.

Corroborava com o embranquecimento dos brasileiros, evitando a miscigenação com "raças inferiores", para que se pudesse manter um certo padrão e assim, ter uma definição sistematizada da "raça brasileira".

Diante do contraste cultural, Euclides encontra a separação da nação brasileira entre os povos litorâneos e os interioranos. O entendimento do que essas duas partes representam permite a compreensão do Brasil como um todo.

O Brasil do litoral, era da sociedade com valores da elite e republicanos e polos de desenvolvimento político e econômico, concentrado principalmente no eixo Rio-São Paulo.

Já no Brasil do sertão estavam os sertanejos, residentes no interior e sem acesso a muitos benefícios que eram desfrutados pelo restante da população. Sofrendo pelas condições de atraso econômico, transitando entre a fome e a miséria.

“Os Sertões” pode ser considerado uma obra sociológica, geográfica, histórica e também uma crítica humana. Também pode ser lido como uma epopeia da vida sertaneja em sua luta diária contra a paisagem e a incompreensão das elites governamentais.

Nesta obra, Euclides da Cunha também faz uso de muitas figuras de linguagem. Mistura termos de alta erudição tecnocientífico com regionalismos populares e neologismo do próprio autor.

“Os Sertões” é um dos principais clássicos da literatura brasileira até a atualidade.

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BRITO, Samara. Os Sertões; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/os-sertoes >. Acesso em 28 de outubro de 2019 às 14:39.

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