Quinhentismo

Produções literárias com valor histórico da época descobrimento do Brasil

O Quinhentismo foi um movimento literário ocorrido no século XVI, no Brasil, e que retratou as viagens exploratórias dos colonizadores portugueses.

Os textos tratavam dos relatos da época do descobrimento do Brasil quando os colonizadores europeus, especificamente os portugueses, desembarcaram na Ilha de Vera Cruz em busca de matéria-prima e recursos.

É importante destacar que não se trata de uma literatura propriamente nacional, porque eram relatos feitos sob a ótica dos escrivães europeus que estavam nas 13 caravelas portuguesas, lideradas por Pedro Álvares Cabral que aqui chegaram.

Desse modo, as produções escritas do Quinhentismo se prenderam a descrição do que foi visto e descoberto nas “novas terras”.

Então, os escrivães europeus discorriam sobre os aspectos sociais, culturais e ambientais das terras brasileiras e sobre o modo de viver dos índios brasileiros.

Contexto histórico do Quinhentismo

Na época do Colonialismo de exploração no Brasil o continente europeu vivenciava a efervescência do Renascimento Cultural.

Destacava-se nesse período a filosofia e as artes como as principais áreas do conhecimento humano.

No campo religioso, as 95 teses elaboradas pelo monge Martinho Lutero questionaram o catolicismo romano no movimento cristão chamado de Reforma Protestante em 1517.

A Igreja Católica reagiu veemente as críticas protestantes e fez o movimento contrário ao de Lutero, chamado de Contrarreforma.

Dessa maneira, o clero católico objetivou eliminar de vez as críticas que mancharam a imagem da igreja, se fortalecer enquanto instituição guardiã da vida espiritual dos fiéis e reconquistar os que se afastaram por descrença da pregação católica.

Outro fator muito importante foram as descobertas científicas do físico Galileu Galilei e do astrônomo alemão Johannes Kepler sobe o heliocentrismo.

Anteriormente, no século XVI, o astrônomo e matemático Nicolau Copérnico já havia feito estudos assertivos do modelo heliocêntrico. Mas foram as observações astronômicas de Galilei e Kepler que sustentaram cientificamente a teoria.

Essas mudanças no âmbito cultural e científico ampliaram o entendimento do homem, que reverberaram para o campo da Literatura.

Quinhentismo: literatura informativa

Os escrivães europeus mantinham o reino de Portugal informado sobre a terra descoberta através dos textos, com seus relatos impregnados de suas percepções pessoais.

Dessa maneira, essas produções literárias tinham marcas da subjetividade dos autores e um caráter de literatura informativa.

Em vista disso, escreviam sobre as belas paisagens da flora brasileira, as riquezas naturais existentes na Mata Atlântica, os animais, alguns desconhecidos, característicos da região.

E ainda discorriam sobre as relações comunitárias em que viviam os primeiros habitantes do Brasil – os índios.
Assim sendo, esses textos informativos e marcados de pessoalidade apresentavam muitos adjetivos.

O principal escrivão-mor português foi Pero Vaz de Caminha, que fez uma carta endereçada ao rei D. Manuel I, informando sobre a descoberta, as conquistas e, principalmente, do seu impressionamento com a nudez dos índios e do impacto cultural com os mesmos.

Quinhentismo Carta de Pero Vaz de Caminha
A carta de Pero Vaz de Caminha é uma literatura informativa. (Foto: Wikimedia Commons)

A carta de Caminha é uma literatura quinhentista que valoriza o aspecto materialista, fruto da mentalidade do homem renascentista que estava em agitação na Europa. Leia abaixo um trecho:

Todos andam rapados até por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas e pestanas. Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta, que parece uma fita preta da largura de dois dedos.
Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali.
Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele.
Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados.
Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora.
Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais.
Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora. [grifos nossos]

Observe que, possivelmente, beber em uma taça não era uma prática cultural dos índios. E ainda, o vinho ser uma bebida alcoólica desconhecida deles. Logo, muitos elementos da cultura do colonizador foram introduzidos na cultura nacional depois desses primeiros contatos.

Literatura de catequese e os índios cristãos

Nas embarcações portuguesas, que não paravam de chegar nos primeiros momentos do descobrimento, vieram também padres jesuítas. Eles tinham como objetivos propagar o Cristianismo para as pessoas dos territórios conquistados.

Após a chegada dos padres, a colônia portuguesa iniciou seus primeiros momentos de vida intelectual com os colégios jesuíticos.

O padre José de Anchieta foi o mais conhecido que propagou a fé católica entre os índios. Além da dedicada vida religiosa ainda foi historiador, gramático, poeta e teatrólogo.

Quinhentismo Padre José Anchieta
O padre José de Anchieta utilizava a literatura de catequese. (Foto: Wikipédia)

Para cumprir sua função de pregador, José de Anchieta e os demais padres produziam e utilizaram textos com os fundamentos da Contrarreforma, a fim de catequizar e doutrinar os índios. Os padres produziam sermões, textos teatrais, poemas, etc.

Em suma, as produções literárias religiosas que tinham a finalidade de conquistar índios cristãos eram chamadas de literatura de catequese. Eram outra categoria dos textos do Quinhentismo.

A aproximação de José de Anchieta com os povos nativos lhe despertou interesse em aprender a língua nativa “tupi”. E também elaborou a primeira gramática indígena denominada de “Língua Geral”.

José de Anchieta ainda foi um defensor dos povos nativos de toda e qualquer forma de violência dos colonizadores.

Leia abaixo a cena do primeiro ato da peça teatral “Auto de São Lourenço”, de José de Anchieta, e observe as palavras negritadas. Pois, elas significam a concepção do cristianismo católico até então um mundo desconhecido dos indígenas:

Cantam:
Por Jesus, meu salvador,
Que morre por meus pecados,
Nestas brasas morro assado
Com fogo do meu amor
Bom Jesus, quando te vejo
Na cruz, por mim flagelado,
Eu por ti vivo e queimado
Mil vezes morrer desejo
Pois teu sangue redentor
Lavou minha culpa humana,
Arda eu pois nesta chama
Com fogo do teu amor.
O fogo do forte amor,
Ah, meu Deus! com que me amas
Mais me consome que as chamas
E brasas, com seu calor.
Pois teu amor, pelo meu
Tais prodígios consumou,
Que eu, nas brasas onde estou,
Morro de amor pelo teu.

Faça a referência deste conteúdo seguindo as normas da ABNT:

ARAÚJO, Andréa. Quinhentismo; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/quinhentismo >. Acesso em 28 de outubro de 2019 às 14:55.

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