Realismo em Portugal

Corrente promoveu o pensamento crítico da sociedade

O Realismo em Portugal foi um movimento artístico e literário que se iniciou no país a partir dos anos 1960. A corrente buscava promover uma crítica ao sistema social imposto até o momento e contribuir para que o país alcançasse a modernidade através da literatura.   

A tendência artística surgiu durante o embate entre autores do Romantismo e Realismo. Neste choque de ideias, denominado de Questão Coimbrã, os artistas realistas criticavam e confrontavam o individualismo e o academicismo da corrente anterior.

Entenda abaixo o contexto que contribuiu com o surgimento do Realismo, como ele se desenvolveu em Portugal e o que foi a Questão Coimbrã.

Realismo na Europa

O Realismo nasceu na França, durante a metade do século XIX, com a publicação do livro de Gustave Flaubert intitulado “Madame Bovary“. A obra rompia com a estética do romantismo e sua subjetividade, sentimentalismo e centralização do “eu”. Os pensadores realistas desenvolveram, assim, uma linguagem objetiva e clara que destacava as razões.  

No contexto histórico da corrente está a Revolução Industrial e o capitalismo. A industrialização gerou uma grande quantidade de produtos, mas também aumentou os contrastes sociais. De um lado estava uma pequena parcela da população com capacidade para adquirir os produtos e do outro estava uma maioria formada por pessoas miseráveis e sem condições de usufruir de todos os benefícios do capitalismo.

Os pensadores, cientistas e filosóficos — como Charles Darwin, Karl Marx e Engels — começaram a discutir e denunciar a exploração e pobreza dessa nova sociedade. Esses debates foram importantes para fazer surgir o Realismo na Europa.

Portugal, entretanto, teve seu desenvolvimento industrial atrasado por causa da Independência do Brasil, o que o deixou grandes consequências econômicas.

Assim como no restante da Europa, a urbanização gerada com o desenvolvimento econômico e industrial mudou as paisagens, mas não mudou as relações sociais no país. O Realismo em Portugal surge, então, com o objetivo de criticar o atraso econômico e as estruturas sociais impostas.  

Pintura de Antero de Quental, representante do Realismo em Portugal.
Antero de Quentão foi o principal envolvido no debate no qual surgiu o Realismo Português. (Imagem: Wikimedia)

Questão Coimbrã

O Realismo em Portugal teve início no ano de 1965, após a Questão Coimbrã que envolveu o grupo de jovens da época e o grupo de artistas seguidores do Romantismo.

Na época, estudantes de diversas localidades se reuniram na cidade de Coimbra e, inspirados nos ideais revolucionários e no antirromantismo, teceran críticas à organização social portuguesa e sua bases monárquicas e coloniais.

Antero de Quental e Teófilo Braga publicaram seus livros, respectivamente, “Odes Modernas” e “Tempestades Sonoras”. As obras desagradaram os literários e artistas mais conservadores do Romantismo, pois romperam com o academicismo da época e promoveram um tom mais revolucionário.

O escritor romântico Antônio Feliciano de Castilho, então, escreveu duras críticas aos autores realistas no prefácio do livro “Poema da Mocidade”, de Pinheiro Chagas, e argumentou que o novo estilo não tinha bom senso nem bom gosto.

Em resposta, Antero de Quental escreveu e publicou uma carta aberta direcionada a Castilho e a chamou de “Bom Senso e Bom Gosto”.

Parte da carta dizia:        

Acabo de ler um escripto de v. ex.ª onde, a proposito de faltas de bom-senso e de bom-gosto, se falla com aspera censura da chamada eschola litteraria de Coimbra, e entre dois nomes illustres se cita o meu, quasi desconhecido e sobre tudo desambicioso.

Esta minha obscuridade faz com que a parte de censura que me cabe seja sobre maneira diminuta: em quanto que, por outro lado, a minha despreoccupação de fama litteraria, os meus habitos de espirito e o meu modo de vida, me tornam essa mesma pequena parte que me resta tão indifferente, que é como que se a nada a reduzissemos.

Os confrontos de ideias continuaram a se desenrolar por vários anos do Realismo em Portugal. Os liberais passaram a organizar eventos com o intuito de realizar o debate de ideias e contribuir para que Portugal alcançasse a modernidade através da literatura.

As Conferências Democráticas do Cassino foram promovidas em 1871 e nelas apareceram textos que falavam sobre as classes sociais e suas lutas. Eça de Queiroz foi um personagem de destaque nessas conferências e passou a defender o Realismo em Portugal.   

Características do Realismo em Portugal

O Realismo em Portugal herdou muitas das características do movimento em outros países, inclusive do Realismo no Brasil. As principais delas foram a investigação da realidade social e a busca por entender a realidade dos países. 

Outra proposta dos poetas e artistas da geração 70 (nome dado aos jovens realistas em Portugal) era fazer com que as máscaras sociais e da hipocrisia caíssem e as pessoas mostrassem suas verdadeiras faces. A arte do período tornou-se engajada e satírica, além de ter a função de realizar denuncias.      

As outras características do Realismo em Portugal foram:

  • Objetivismo e cientificismo;
  • Foco nos ideais revolucionários do socialismo;
  • Destaque das pessoas comuns e para a vida cotidiana;
  • Oposição ao sentimentalismo e negação dos sentimentos;
  • Materialismo e busca pela realidade dos fatos;
  • Rejeição à monarquia e clero.

Principais autores do Realismo em Portugal

O Realismo em Portugal foi um movimento que permitiu o aparecimento de diversos autores focados em realizar críticas à organização da sociedade portuguesa. Conheça abaixo os principais representantes da corrente.

Eça de Queirós

Eça de Queiroz representante do Realismo em Portugal
Eça de Queiroz foi um dos maiores representantes do Realismo em Portugal (Imagem: Wikimedia)

Eça de Queiroz (1845 – 1900) foi escritor e diplomata português. Não participou da Questão Coimbrã, mas foi um dos maiores representantes do Realismo em Portugal.

O autor foi um duro crítico de Portugal e do clero do país e por isso sua obra não era bem vista pelos conservadores.

“Os Maias” e o “O Crime do Padre Amaro” foram as obras mais representativas da época.  

Os seus principais livros foram:

  • Mistério da Estrada de Sintra (1871);
  • O Crime do Padre Amaro (1875);
  • O Primo Basílio (1878);
  • O Mandarim (1879);
  • Os Maias (1888);
  • A Relíquia (1887);
  • A Cidade e as Serras (1901);
  • A Correspondência de Fradique Mendes (1900).

Antero de Quental

Antero de Quental (1842 – 1891) foi um dos autores que se envolveu no confronto de ideias gerado pela Questão Coimbrã.

Antero propôs um pensamento crítico na literatura portuguesa e para isso a organização social deveria ser questionada pelos autores. Os primeiros sonetos do autor foram publicados em 1861, entretanto foi a partir da publicação de “Odes Modernas” que ganhou destaque.

Entre suas obras estão:

  • Sonetos de Antero (1861);
  • Odes Modernas (1865);
  • Bom Senso e Bom Gosto (1865)
  • Defesa da Carta Encíclica de Sua Santidade Pio IX (1865)
  • Causas da decadência dos povos peninsulares (1871).

Faça a referência deste conteúdo seguindo as normas da ABNT:

Rosa, Joseane. Realismo em Portugal; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/realismo-em-portugal >. Acesso em 28 de outubro de 2019 às 17:00.

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