Sagarana

Livro com nove contos do autor Guimarães Rosa

Sagarana” é uma obra composta por nove contos do escritor Guimarães Rosa, primeira a ser publicada em livro, em 1946. O autor era poliglota e neologista e diversas palavras de suas obras foram criadas por ele.

O título desse livro já começa com neologismo. A palavra “Sagarana” é composta por “Saga”, que tem origem nórdica e significa “narrativa lendária”, e “rana”, originada do tupi e quer dizer “à semelhança de”. Ou seja, o autor quer dizer que em Sagarana há histórias que “se parecem com lendas”.

Resumo de Sagarana

Nos contos é possível perceber temas que tratam da imprescindibilidade do destino, a transcendência da vida, o medo da morte e a sobrenaturalidade da natureza. A sabedoria das mulheres é reforçada nos contos “Sarrapalha” e “A hora e a vez de Augusto Matraga”.

As características humanas também são expressas através da demonstração da honestidade, do orgulho e da sagacidade. Além disso, a natureza do homem por meio do desejo de vingança e da força dos instintos.

Veja o resumo de todos os noves contos de “Sagarana”.

Última edição do livro Sagarana, produção do escritor mineiro Guimarães Rosa.
Capa do livro Sagarana, de Guimarães Rosa, edição de 2019. (Foto: Global Editora)

O burrinho Pedrês

O conto é narrado em terceira pessoa do singular. O velho e cansado burrinho Sete-de-Ouros é escalado pelo seu dono, o fazendeiro Major Saulo, para ajudar os vaqueiros na travessia de um rio com o gado. A viagem tinha destino a cidade, onde os vaqueiros iriam comercializar a boiada.

Na ida conseguem atravessar o riacho, porém depois de uma forte chuva, o rio se transforma em uma correnteza. Ao realizar novamente a travessia de volta, a maior parte do grupo se afoga.

Enquanto isso, o burrinho continua atravessando o rio mesmo com a correnteza, mas sem lutar contra ela. Com ele se salvam os vaqueiros Francolim e Badu, que se seguram no animal enquanto caminha.

A volta do marido pródigo

Inspirado em uma história real, “Sagarana” conta o enredo da vida de Lalino Salathiel, um malando do interior de Minas que gosta de boa vida.  Interessado nas aventuras amorosas e nas festas que o Rio de Janeiro podia oferecer, junta dinheiro e parte para a cidade carioca abandonando a esposa Maria Rita.

Tempos depois, o dinheiro começa a faltar e Lalino é obrigado a voltar à terra natal. Ao chegar, encontra Maria Rita já casada com outro homem, o espanhol Ramiro, um respeitável proprietário da região.

Na comunidade ficou com má fama, pois antes de viajar  pediu dinheiro emprestado ao próprio Ramiro e, por isso, passou a impressão de que tinha vendido a esposa.

Por causa das suas aventuras, é chamado para ajudar na eleição do Major Anacleto, o que deu muito certo. A presença do malandro incomoda tanto que o espanhol ameaçava Maria Rita, atitude que a força procurar ajuda diante do Major. Dessa forma, ela se aproxima de Lalino, perdoa o ex-marido e retoma o relacionamento com ele.

Sarapalha

Entre os contos de “Sagarana” está o de Sarrapalha, um pequeno povoado do interior do estado de Minas Gerais, onde vivem os primos Ribeiro e Argemiro. Por estarem com Malária, os dois vivem isolados e de vez em quando sentam na varanda para conversar.

Em uma das conversas, Ribeiro lembra e comenta com o primo o abandono de sua esposa Maria Luísa, por quem era muito apaixonado. Nesse momento, Argemiro resolve confessar ao amigo que também era apaixonado por Luísa. Sentindo-se traído pelo primo, Ribeiro expulsa-o de casa sem nenhuma benevolência.

Duelo

Turíbio Todo passa a maior parte do tempo pescando, por causa da falta de trabalho na região onde mora. Um dia, volta da pescaria mais cedo e encontra sua esposa o traindo com o ex-militar Cassiano Gomes. Percebendo não ter chances contra ele, Turíbio deixa passar e planeja sua vingança minunciosamente.

Em determinado dia, sai com uma arma para matar Cassiano, porém sem perceber acerta o irmão do ex-militar, que fica furioso e volta-se contra Turíbio. Este então passa a ser perseguido em todo o sertão.

Cassiano Gomes fica muito doente e precisa interromper as buscas, deixando tal tarefa para o amigo Timpim Vinte-e-Um, que deveria cumprir a missão de vingar seu irmão. Pouco tempo depois, Cassiano falece e, sabendo disso, Turíbio Todo volta para a cidade natal sem saber do planejado.

No caminho para a casa, Turíbio é surpreendido por Vinte-e-Um, que o mata, cumprindo assim a promessa que fez ao seu benfeitor.

Minha gente

O conto é narrado em primeira pessoa, porém não tem seu narrador identificado. Ele fala que nas férias escolares visitava muito o tio Emílio em sua fazendo no interior de Minas. Em uma dessas viagens, desenvolve um sentimento amoroso pela prima Irma.

No entanto, a moça não está interessada no rapaz e ao invés de ceder às investidas do moço atrai sua atenção para a amiga Armanda. Esta, por sua vez, está comprometida com Ramiro, pelo qual a própria Irma está interessada.

O narrador se vê em um jogo amoroso em que a prima consegue realizar seu propósito através de estratégias. Dessa forma, Armanda se interessa pelo narrador e Ramiro fica livre para Irma. No final da história, os casais formados se casam.

São Marcos

José, personagem principal do conto “São Marcos”, ainda que muito supersticioso, não acredita em crenças populares e ainda zomba do negro João Mangolô, considerado feiticeiro na sua região.

Em um dia qualquer, quando passava pelo mato, perde a visão repentinamente, sem motivo algum. Desesperado, começa a fazer uma reza forte de São Marcos e, com isso, consegue se guiar para fora da mata através do olfato e da audição, chegando na casa de João.

Percebendo que estava na casa do feiticeiro, começa a lhe agredir de raiva pelo acontecido, até que o feiticeiro retira uma venda de um boneco e José começa a enxergar novamente. Ele sai de lá com a certeza de que feitiçaria funciona.

Corpo fechado

“Corpo fechado” é considerado um dos contos mais marcantes e quem narra a história é um médico local. A narrativa é debruçada na vida de Manuel Fulô, um tagarela que se diz esperto.

Manuel possui uma mula de estimação, chamada Beija-flor, a qual é cobiçada pelo feiticeiro Antonico das Pedras. Ele também é muito apaixonado por sua noiva Das Dores.

Antes do casamento, Targino, um valentão do lugarejo, vai até Manuel revelar o desejo de dormir com sua noiva. Manuel teria que enfrentá-lo para impedir a ocorrência dessa ofensa. Dessa forma, ele procura Antonico para fazer um feitiço e fechar seu corpo para a morte. O feiticeiro pede em troca a mula tão amada por Manuel, que aceita o acordo.

De corpo fechado, Manuel Fulô vai ao encontro do valentão com apenas com uma faca. Targino então tenta o acertar com tiros, dos quais nenhum chega a Manuel, que o mata com golpes de faca. A partir daí fica com a fama de valentão do povoado.

Conversa de bois

Tiãozinho é um menino que vive um sofrimento dentro de casa: enquanto o pai está doente de cama, sua mãe mantém relação extraconjugal com o terrível Agenor Soronho, um condutor de carros de boi que maltrata o menino e os próprios bois que administra.

Quando seu pai morre, o corpo é levado para o cemitério local no carro de bois de Soronho, juntamente com algumas mercadorias que vai comercializar no povoado. Tiãozinho segue caminhando na frente dos bois, enquanto Soronho vai montado no carro.

Os bois começam a conversar entre si e percebendo a sonolência do condutor aproveitam para fazer um movimento brusco, derrubando o malfeitor, que morre debaixo das rodas.

Homem conduzindo carro de bois no sertão, atividade comum nos contos de Sagarana.
Carro de bois no sertão, uma das características presentes em “Sagarana”. (Foto: Wikipédia)

A hora e a vez de Augusto Matraga

Esse conto de “Sagarana” também pode ser encontrado em livro de bolso, por ser uma história um pouco maior.

Augusto Esteves é um rico fazendeiro que maltrata a esposa Dinorá, vive gastando dinheiro com prostitutas e jogos e anda acompanhado de capangas para enfrentar quem se coloca em seu caminho.

No entanto, sua vida muda quando a esposa resolve fugir com outro homem, levando a filha do casal. Por causa do péssimo salário, os capangas o abandonam e vão trabalhar com seu rival, o Major Consilva.

Planejando buscar a esposa e filha, Nhô Augusto vai atrás dos ex-funcionários, mas estes, além de se negarem, ainda espancam o fazendeiro e marcam com ferro quente. Augusto consegue se arrastar até um barranco, de onde se joga e é dado como morto.

Apesar das fortes agressões e da queda, não morre e é resgatado por uma casal de negros idosos que cuidam dele até ficar melhor. Nesse período de cuidados, o arrogante fazendeiro passa por uma transformação espiritual na intenção de ser uma pessoa melhor.

Conhecido agora como Augusto Matraga, desloca-se com o casal para uma propriedade que ainda possuía no Tombador, onde passa a ter uma vida tranquila de reza e trabalho árduo.

Certo dia, chega na comunidade um grupo de cangaceiros liderados por Joãozinho Bem-Bem, que logo simpatiza com Augusto e com ele constrói uma amizade. Bem-Bem lhe chama para fazer parte do bando, mas Matraga recusa o convite e assim o cangaceiro vai embora.

Depois de algum tempo, resolve partir sem rumo. Passando por um lugarejo, reencontra os cangaceiros de Joãozinho Bem-Bem, mas eles estavam ameaçando uma família, porque um dos filhos havia matado um integrante do grupo.

Bem-Bem queria matar uma família inteira por causa de um e Augusto Matraga tenta interceder. Os dois então travam um duelo que resulta na morte de ambos. Esse conto é considerado um dos mais famosos do livro, por isso ganhou versão individual.

Análise

O conteúdo da literatura de Guimarães Rosa costuma ser chamado de regionalismo universalizante, pois o autor possui a tendência de falar de temas regionais com caráter universal, o que acontece em todos os contos de “Sagarana”, em que são apresentadas as histórias em boa parte do sertão de Minas gerais.

O escritor faz parte da terceira fase do modernismo no Brasil, momento em que se prezava pela originalidade e, por isso, em seus textos é bastante comum a utilização de palavras inventadas.

Os contos apresentam caráter mítico e os temas populares são voltados para o mistério, honra, traição, violência, destino, etc. Todavia, as histórias do burrinho Pedrês e de Lalino Salathiel em “a volta do marido pródigo” são inspiradas em causos biográficos.

Em relação a fé, feitiçaria e crenças são encontrados contos muito singulares em “Corpo fechado” e “São Marcos”. A literatura de Rosa sempre prezava pelo sincretismo religioso, principalmente o catolicismo, a umbanda e o candomblé.

Sobre o autor

João Guimarães Rosa (1908 – 1967) nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais. Desde pequeno, já demonstrava habilidades excelentes de aprendizado quando começou a estudar línguas estrangeira. Ele iniciou com o francês e continuou com o inglês, alemão, espanhol, italiano, etc.

Formou-se em medicina pela Universidade de Minas Gerais, em 1930, e atuou no interior do sertão, onde teve contato com essa realidade novamente. Estreou na literatura quando alguns de seus contos foram publicados na revista “O Cruzeiro”.

Durante uma viagem de dez dias pelo sertão, anotou todas as histórias vistas na região para resgatar esse universo. As observações resultaram em um de seus mais importantes livros, o romance “Grande Sertão: Veredas”, publicado em 1956, que tomou grande importância no mundo literário brasileiro.

Além de “Sagarana”, estão outras obras como:

  • “Com o Vaqueiro Mariano” (1947)
  • “Corpo de Baile” (1956)
  • “Noites do Sertão” (1965)
  • “Primeiras Estórias” (1962)

Faça o download do PDF do livro “Sagarana”.

Faça a referência deste conteúdo seguindo as normas da ABNT:

Oliveira, Darcicleia. Sagarana; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/sagarana >. Acesso em 19 de outubro de 2019 às 02:49.

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