Senhora

O amor e a vingança de Aurélia impulsionado pelo interesse financeiro

A obra “Senhora” inicia descrevendo uma moça de dezenove anos famosa e frequentadora dos bailes da alta sociedade. Essa é Aurélia Camargo, proclamada a rainha dos salões e a musa dos poetas.

Capa do livro Senhora
Capa do livro “Senhora” (Foto: Saraiva)

Aurélia era órfã e herdeira de uma grande fortuna deixada por seu avô. Sabiam que ela possuía um tutor, porém tal figura era desconhecida.

Na sociedade, vivia em companhia de uma velha parenta viúva, D. Firmina Mascarenhas.  Esta era uma mãe arranjada, já que a sociedade brasileira da época não via com bons olhos a independência feminina.

Aurélia Camargo era a solteira mais cobiçada do Rio de Janeiro. Disputada como um prêmio, acreditava que os rapazes só estavam interessados em sua beleza sedutora e no seu dinheiro, desta forma eles não a desejavam de fato.

Assim costumava ela indicar o merecimento relativo de cada um dos pretendentes, dando-lhes certo valor monetário. Em linguagem financeira, Aurélia cotava os seus adoradores pelo preço que razoavelmente poderiam obter no mercado matrimonial.

Certo dia, a jovem passou a questionar seu futuro e decidiu enviar uma carta para o Sr. Lemos. Este era seu tio e tutor, a quem Aurélia deu a missão de arranjar seu casamento.

Porém, não era um casamento com um marido qualquer, o pretendente que Aurélia desejava era Fernando Seixas, noivo de Adelaide Amaral.

Segundo Aurélia, Adelaide deveria se casar com Dr. Torquato Ribeiro, rapaz que ela realmente gostava mas que não recebera aprovação do pai da moça por ser pobre.

Seixas também não era rico, vinha de uma família de origem simples. Porém o rapaz mantinha hábitos de rico, o que levou a decadência da própria família. E por não poder pertencer a duas, Aurélia iria disputá-lo.

O plano consistia em, o Sr. Lemos daria uma quantia de dinheiro para Torquato, maior que o valor do dote oferecido pelo pai de Adelaide, que resultaria na aprovação do matrimonio entre Torquato Ribeiro e Adelaide Amaral.

Ao mesmo tempo o tio da jovem ofereceria de cem até duzentos mil cruzeiros para que Fernando Seixas se casasse com a moça, porém não teria conhecimento de sua identidade até que o negócio estivesse fechado.

Trata-se de uma moça, sofrivelmente rica, bonitota, a quem a família deseja casar quanto antes. Desconfiando desses peralvilhos que por aí andam a farejar dotes, e receando que a menina possa de repente enfeitiçar-se por algum dos tais bonifrates, assentou de procurar um moço sisudo, de boa posição, embora seja pobre; porque são justamente os pobres que sabem melhor o valor do dinheiro, e compreendem a necessidade de poupá-lo, em vez de atirá-lo pela janela fora como fazem os filhos dos ricaços.

Entretanto, esta não era a realidade. Aurélia era, na verdade, fruto do casamento escondido entre Pedro de Sousa Camargo, filho bastardo de um rico fazendeiro, e Emília Camargo, pertencente a uma família pobre.

Aurélia fora criada pela mãe, uma senhora pobre e enferma que vivia isolada e recolhida. Certo dia, Aurélia passou a satisfazer o desejo de sua mãe, ficava todas as tardes na janela como uma forma de ser vista e cobiçada por um noivo.

A notícia da bela moça na janela se espalhou, os rapazes inventavam passeios só para vê-la. Aurélia possuía uma legião de admiradores, porém um tomou seu coração, Fernando Seixas.

Um mês durante, Aurélia inebriou-se da suprema felicidade de viver amante e amada. As horas que Seixas passava junto de si, eram de enlevo para ela que embebia-se d’alma do amigo. Esta provisão de afeto chegava-lhe para encher de sonhos e devaneios o tempo da ausência. Seria difícil conhecer a quem mais vivia, se ao homem que a visitava todos os dias ao cair da tarde, se o ideal que sua imaginação copiara daquele modelo.

O único problema era que Seixas possuía hábitos aristocráticos. Após assumir o compromisso de se casar com Aurélia, desiste da união para ficar com Adelaide, moça rica que proporcionaria um futuro melhor para o ambicioso rapaz.  

Decepcionada, Aurélia passa a desprezar todos os homens, é neste momento que recebe uma grande herança do avô paterno. Então, do dia para o noite, deixou a pobreza e passou a integrar a elite carioca.

E assim chegou ao projeto de casamento, ou de vingança, com Fernando Seixas.

Depois de muito pensar, Seixas aceitou a proposta de Sr. Lemos. Precisava do dinheiro para amparar sua irmã que iria se casar e a mãe que havia sido abandonada pelo marido.

Recebeu parte da quantia ofertada com antecedência e foi ao encontro da misteriosa pretendente. Ao ver Aurélia, fica surpreso e feliz já não deixou de amá-la.

Fernando e Aurélia se casam, contudo, vivem uma relação de aparência. Perante a sociedade, desfilavam de mãos dadas como dois namorados, trocavam carinhos e gentilezas.

Quando estavam a sós, Seixas era humilhado por ter sido comprado pela mulher que havia abandonado por dinheiro. Seixas tratava toda a situação como certa aceitação e indiferença.

O sentimento que animava Aurélia podia chamar-se orgulho, mas não vingança. Era antes pela exaltação de seu amor que ela ansiava, do que pela humilhação de Seixas, embora essa fosse indispensável ao efeito desejado. Não sentia ódio pelo homem que a iludira; revoltava-se contra a decepção, e queria vencê-la, subjugá-la, obrigando esse coração frio que não lhe retribuía o afeto, a admirá-la no esplendor de sua paixão.

Com o passar do tempo a relação do casal ficou cada vez mais hostil, Seixas se sente como um escravo de Aurélia. Ao conseguir um emprego, passou a juntar dinheiro para devolver o valor do dote que lhe foi oferecido e se livrar da mulher.

Após onze meses de casamento, Fernando Seixas conseguiu reunir a quantia necessária, somou até os 6% de juros, e por fim se declarou livre de Aurélia Camargo.

Ao ver o amado prestes a partir, Aurélia suplica que Fernando aceite o amor que nunca deixou de ser dele. Mostra seu testamento escrito na noite do casamento, no qual deixaria toda sua herança declarando seu amor pelo atual marido.

Apaixonados, os dois se beijam e assim consumam o casamento com um final feliz. 

Análise da obra “Senhora”

Publicado em 1875, o romance “Senhora” de José de Alencar destaca-se por criticar a união matrimonial como forma de ascensão social, algo muito comum na época. Neste livro, Alencar aborda o casamento apenas como uma transação comercial.

“Senhora” dá início a uma discussão sobre valores e comportamentos da sociedade brasileira o século XIX, em que o amor era facilmente comprado.

O prestígio das pessoas naquele período era definido a partir do dote que possuíam, assim viviam relacionamentos de estima social, porém baseado na aparência e no interesse financeiro.

O romance também apresenta um certo feminismo por parte da protagonista Aurélia, que depois de ter sido abandonada aceita viver sozinha e, de certa forma, independente. A obra faz parte do romantismo, contudo já apresentava características do realismo.

Principais personagens

  • Aurélia (Senhora): jovem órfã e pobre. Aos 18 anos torna-se herdeira do avô que a tinha renegado.
  • Fernando Seixas: filho de um empregado público e órfão aos dezoito anos. Foi obrigado a abandonar seus estudos pela falta de dinheiro.
  • D. Emília: senhora pobre e doente, mãe de Aurélia. Na juventude casou-se com um jovem rico e criou os filhos sozinha.
  • Senhor Lemos: um velho de pequena estatura, tio e encarregado da tutela de Aurélia.
  • Adelaide Amaral: jovem rica que fica noiva de Fernando devido ao seu dote. Consegue se casar com Torquato graças ao plano de Aurélia.
  • Torquato Ribeiro: moço pobre e amigo de Aurélia. Recebe de Aurélia o valor suficiente para casar-se com Adelaide.

Curiosidade

  • A obra “Senhora” foi adaptada para a TV. Em 1975 a rede globo exibiu no horário das 18h a novela de mesmo nome com adaptação feita por Gilberto Braga. Também serviu de inspiração para o cinema, tornando-se filme em 1976 com direção de Geraldo Vietri.

Faça o download do PDF do livro “Senhora”

Faça a referência deste conteúdo seguindo as normas da ABNT:

BRITO, Samara. Senhora; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/senhora >. Acesso em 28 de outubro de 2019 às 15:09.

Copiar referência