Vidas Secas

Influenciada pelo Movimento Neorrealismo, traz questões sociais baseadas nos retirantes nordestinos

A obra “Vidas Secas” tem início com a migração de uma família nordestina. Caminhando arrastados e famintos pela aridez do sertão, Fabiano, Sinhá Vitória, o filho mais novo, o filho mais velho e a cachorra Baleia seguem em busca de uma vida melhor diante da seca que assola a região.

Solo rachado com a seca – Vidas Secas
Solo rachado provocado pela seca retratada em “Vidas Secas”. (Foto: Wikipédia)

Depois do desastre causado pela secagem, viviam todos calados, raramente soltavam palavras curtas. Iniciaram, então, a viagem em seis, incluindo o papagaio da família, que morreu devido à seca, e acompanhados pela fome, não viram outra alternativa a não ser comer o bicho.

A fome apertara demais os retirantes e por ali não existia sinal de comida. Baleia jantara os pés, a cabeça, os ossos do amigo, e não guardava lembrança disto.

Ao pararem para descansar na sombra da árvore de uma fazenda abandonada e sem condições de continuar a viagem, passaram dias e dias dormindo sobre a terra seca, resistindo a fraqueza até que Baleia traz nos dentes a refeição da família, um preá.

Aquilo era caça bem mesquinha, mas adiaria a morte do grupo. E Fabiano queria viver.

Depois de algum tempo a chuva finalmente chega e, com ela, o fazendeiro dono das terras que Fabiano e sua família haviam ocupado. Fabiano é expulso, se faz de desentendido e oferece seus serviços em troca de moradia.

Agora Fabiano era vaqueiro, e ninguém o tiraria dali.

Fabiano não costumava se comunicar. Certo dia foi a feira da cidade comprar sal, farinha, feijão e rapaduras, além de uma garrafa de querosene e um corte de chita vermelha pedidos por Sinhá Vitória.

Convencido de que o valor dos produtos não coincidia com a realidade, resolve tomar um querosene no bar de Inácio. Lá, é convidado por um soldado para um jogo de cartas, após diversas provocações e insultos por parte do soldado, o matuto Fabiano retruca e acaba preso.

O vocabulário dele era pequeno, mas em horas de comunicabilidade enriquecia-se com algumas expressões de seu Tomás da bolandeira.

Não achava justo um pai de família ser maltratado, e sentia-se derrotado por não conseguir contar a história do que ocorreu. Pensava em sua esposa, seus filho e na cachorra, lamentava não poder se defender.

Enquanto Fabiano permanece na cadeia, a história foca nos outros personagens da família. Sinhá Vitória era uma mulher trabalhadora e cheia de esperanças, não se conformava com a miséria. Tinha um sonho, desejava uma cama de verdade, de couro e sucupira, igual à de Seu Tomás da bolandeira.

O menino mais novo tinha o desejo de realizar qualquer ação notável que espantasse o irmão e a cachorra Baleia. Então, teve a ideia de montar na égua que seu pai havia selado e tentado amansar.

Não era como o pai, metido nos couros, de perneiras, gibão e guarda-peito, como a criatura mais importante do mundo. Mas sonhava ser, pois era pessoa que admirava. Mudou os planou e tentou montar uma cabra.

Trepado na ribanceira, o coração aos baques, o menino mais novo esperava que o bode chegasse ao bebedouro. Certamente aquilo era arriscado, mas parecia-lhe que ali em cima tinha crescido e podia virar Fabiano. (…)

Outra vez impelido para a frente, deu um salto mortal, passou por cima da cabeça do bode, aumentou o rasgão da camisa numa das pontas e estirou-se na areia. Ficou ali estatelado, quietinho, um zunzum nos ouvidos, percebendo vagamente que escapara sem honra da aventura.

Seu plano não deu certo e mesmo se sentindo envergonhado, ele não desistiria. O menino mais velho e Baleia ainda ficariam admirados.

O menino mais velho era curioso, gostava de saber o significado das palavras. Certo dia ouviu o termo “inferno”, buscou explicação com Sinhá Vitória e recebeu uma resposta vaga. Não satisfeito, recorre a Fabiano que devido a insistência do menino lhe dá um cascudo e mais uma vez lhe deixa sem resposta.

Chega o inverno e a família se reúne ao redor do fogo para ouvir as histórias inventadas de Fabiano. O menino mais novo batia palmas, fascinado. O mais velho, desconfiava da veracidade dos acontecimentos contado por seu pai.

Então é Natal e a família vai até a festa na cidade. Fabiano fica embriagado e valente, pensa em se vingar do soldado amarelo que o humilhou, no entanto dorme bêbado na rua usando suas roupas como travesseiro. Sinhá Vitória não acompanhou o marido, queria satisfazer uma precisão e no meio da cidade não sabia como.

Escapuliu-se disfarçadamente, chegou a esquina da loja, onde havia um magote de mulheres agachadas. E, olhando as frontarias das casas e as lanternas de papel, molhou o chão e os pés das outras matutas.

Baleia, a cachorra, estava doente, magra, sem pelos, com manchas escuras e sangrando.  Fabiano acredita que o animal está com princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados, porém não resolve seu problema. Sendo assim, decide que o melhor é sacrificá-la.

As crianças não sabiam o que exatamente estava acontecendo, mas perceberam que Baleia corria perigo quando viram o chumbeiro e o polvarinho. O primeiro tiro atingiu o traseiro do animal, que a fez latir desesperadamente e fazendo os meninos chorarem.

Apesar de perceber que o seu fim estava próximo, Baleia lembrava-se dos bons momentos que viveu com viveu com Fabiano e sua família. 

Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferençavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras.

E assim segue a vida da sofrida família no sertão nordestino. Até que um dia Fabiano decide que é hora de partir mais uma vez, olha pro céu extremamente azul, nenhuma nuvem à vista, e os animais em estado de miséria, é um sinal de seca novamente.

E mais uma vez a família se põe a caminhar pelas terras secas em busca de um novo lugar em mais uma tentativa de sobrevivência.

Cacto no sertão – Vidas Secas
Cacto é a única espécie da vegetação que resiste a seca (Foto: Pixabay)

Análise da obra “Vidas Secas”

Publicado em 1938, Vidas Secas é inspirada nas histórias presenciadas pelo autor Graciliano Ramos durante sua infância. Escrita durante um período de turbulência no Brasil, a obra faz parte do Movimento Neorrealismo, que tinha forte influência da realidade.

Voltado as questões sociais e culturais do período, o livro segue a linha crítica e denuncia os problemas da sociedade.

Se trata de uma obra regionalista, voltada para a Região Nordeste, precisamente ao sertão. Retratando o momento em que famílias precisavam atravessar o sertão nordestino devido à falta de recursos e políticas públicas para atender à necessidade desse povo.

A zoomorfização, animalização do homem, também está presente na obra. Fabiano alguma vezes vê a si próprio como um animal e vice-versa, já que a cachorra Baleia também apresenta comportamentos semelhantes ao de seus donos humanos.

A história apresenta pouquíssimos diálogos, pois Fabiano e sua família não falavam muito. Quando um de seus filhos fazia perguntas curiosas, ele o repreendia, achava errado ser curioso, e não se sentia à vontade em meio a civilização. Em um trecho do livro, o narrador aponta:

As vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopeias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas.

Isso retrata a limitação da linguagem por não se fazer útil, visto que esses indivíduos não tinham a possibilidade de manter vínculos sociais por serem retirantes contínuos.

Fabiano se considerava “Um vagabundo empurrado pela seca”, pois a sua vida seguia um ciclo sucessivo guiado pela falta d’água e a necessidade de sobrevivência.

“Vidas Secas” é o retrato das diversas vidas que suportaram a seca do solo e consequentemente a seca de valores, sentimentos, sonhos e, principalmente, a aridez da própria vida, que passa a ser decidida em prol da sobrevivência.

Principais personagens

  • Fabiano: Chefe da família, nordestino, rude e ignorante.
  • Sinhá Vitória: É a esposa de Fabiano e mãe dos 2 filhos. Nordestina sofrida, batalhadora e sonhadora.
  • Filho mais novo: Sonha em ser como o pai.
  • Filho mais velho : Tem curiosidade pelo significado das palavras.
  • Baleia: Cachorra da família com características humanas.
  • Seu Tomás da bolandeira: Personagem que faz parte das memórias de Fabiano. Um homem do sertão que lia demais.

Filme

Baseado no livro, o filme “Vidas Secas” foi lançado em 1963. Com direção de Nelson Pereira dos Santos, conta a história de uma família pobre e sua luta diária para sobreviver a seca da região nordeste.

Faça a referência deste conteúdo seguindo as normas da ABNT:

BRITO, Samara. Vidas Secas; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/vidas-secas >. Acesso em 18 de novembro de 2019 às 19:04.

Copiar referência