Zygmunt Bauman

Sociólogo da modernidade líquida

Zygmunt Bauman (1925-2017) foi um grande sociólogo e filósofo da modernidade. Perspicaz analista de temas contemporâneos, é autor de diversas obras que avaliam o comportamento e as relações humanas em tempos de instabilidade e volatilidade.

Bauman nasceu em Poznań, na Polônia, em 19 de novembro de 1925, em uma família de judeus não praticantes. Por volta de 1939 fugiram para a União Soviética, escapando da invasão e dominação nazista de Adolf Hitler sobre o país.

Aliou-se ao exército, servindo na divisão polonesa do Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial e atuando como instrutor político. Em maio de 1945, foi condecorado com a Cruz de Valor.

Sociólogo Zygmunt Bauman
Sociólogo Zygmunt Bauman (1925-2017). (Foto: Wikipédia)

Foi durante o período que permaneceu nos acampamentos de refugiados polacos que Zygmunt Bauman conheceu sua esposa, Janine Bauman (1926-2009), com quem teve três filhas. Entre os anos 1940 e 1950 foi um entusiasmado militante do Partido Comunista Polonês.

Mais tarde retornou à Polônia, estudou filosofia e sociologia na Academia de Política e Ciências Sociais de Varsóvia, instituição em que também atuou como professor, onde permaneceu até 1968 quando passou a ser perseguido devido ao crescente antissemitismo do Leste Europeu.

Nessa fase, Bauman começava a se distanciar das correntes mais ortodoxas do marxismo, tornando-se um crítico do governo comunista da Polônia. Passou então a trabalhar com a concepção mais humanista de Karl Marx.

Por conta da censura às suas obras e de um expurgo que levou muitos comunistas poloneses de ascendência judia a irem embora, Zygmunt Bauman deixou o país e teve que renunciar à sua nacionalidade polonesa.

Posterior a isto, imigrou para Israel, onde lecionou na Universidade de Tel Aviv. Em 1971, aceitou um convite para ser professor emérito de sociologia da Universidade de Leeds, quando desenvolveu seus principais conceitos, como o da modernidade líquida.

Desde então, quase todos os seus trabalhos passaram a ser publicados em inglês, e a reputação cresceu exponencialmente, tornando-se um dos mais respeitados e influentes pensadores contemporâneos do mundo.

Bauman criticou Israel e o sionismo, movimento político que defendia o direito à autodeterminação do povo judeu e à existência de um estado nacional judaico independente e soberano no território onde existiu o antigo Reino de Israel, afirmando que Israel somente estava interessado em usar o holocausto como justificativa para cometer seus próprios crimes.

Também foi um grande contracorrente do capitalismo, expondo o lado desumano do predomínio do capital. Socialista declarado, nos seus últimos anos de vida, Zygmunt Bauman declarou que, mais do que nunca, o socialismo era necessário ao mundo.

Sem meias palavras, o capitalismo é um sistema parasitário. Como todos os parasitas, pode prosperar durante certo período, desde que encontre um organismo ainda não explorado que lhe forneça alimento. Mas não pode fazer isso sem prejudicar o hospedeiro, destruindo assim, cedo ou tarde, as condições de sua prosperidade ou mesmo de sua sobrevivência.

Trecho do livro “Capitalismo Parasitário”.

Zygmunt Bauman faleceu no dia 9 de janeiro de 2017, aos 91 anos, na Inglaterra. O ponto-chave de sua sociologia é a modernidade em ritmo veloz presente na sociedade contemporânea, provocando profundas mudanças em todos os aspectos da vida humana.

Modernidade líquida

“Vivemos tempos líquidos. Nada foi feito para durar”

Foi assim que o sociólogo preferiu definir o que muitos chamam de “pós-modernidade” como “modernidade líquida”. Para Zygmunt Bauman, a partir das últimas décadas, a “solidez” existente, na qual a sociedade era ordenada, coesa, estável e previsível foi gradualmente substituída pela liquidez.

A contemporaneidade é marcada pela fluidez das relações. Isto quer dizer que, nos tempos atuais, as relações entre os indivíduos nas sociedades tendem a sofrer grandes mudanças e são menos duradouras.

Para Bauman, essa vulnerabilidade e fluidez tornam as pessoas incapazes de manter a mesma identidade por muito tempo, reforçando um estado temporário e frágil das relações sociais e dos laços humanos, tornando tudo instável.

A modernidade líquida em que vivemos traz consigo uma misteriosa fragilidade dos laços humanos – um amor líquido. A segurança inspirada por essa condição estimula desejos conflitantes de estreitar esses laços e ao mesmo tempo mantê-los frouxos.

Amor líquido

Como todos os aspectos da nossa vida foram afetados pela sociedade de consumo e pela tecnologia, os relacionamentos também, inclusive os amorosos.

Durante o período da chamada sociedade “sólida” os relacionamentos deveriam durar para sempre. Baseado no amor romântico, desenvolveu-se a crença de que o ser humano apenas era capaz de apaixonar-se uma única vez.

Porém, com o avanço tecnológico, que torna as conexões sociais mais fáceis e rápidas, as relações passaram a ser efetivadas como um acúmulo de experiências. Bauman definiu amor líquido como um amor “até segundo aviso”.

“O amor a partir do padrão dos bens de consumo: mantenha-os enquanto eles te trouxerem satisfação e os substitua por outros que prometem ainda mais satisfação. O amor com um espectro de eliminação imediata e, assim, também de ansiedade permanente, pairando acima dele. Na sua forma “líquida”, o amor tenta substituir a qualidade por quantidade, mas isso nunca pode ser feito, como seus praticantes mais cedo ou mais tarde acabam percebendo. É bom lembrar que o amor não é um “objeto encontrado”, mas um produto de um longo e muitas vezes difícil esforço e de boa vontade.”

Trecho de uma entrevista de Bauman para a revista ISTOÉ.

Assim, a solidez das convicções foram substituída pela liquidez do instante.  Os laços amorosos também foram substituídos por relacionamentos fluidos, inconstantes e momentâneos, tornando-se uma espécie de produto de consumo.

Numa sociedade sinóptica de viciados em comprar/assistir, os pobres não podem desviar os olhos; não há mais para onde olhar. Quanto maior a liberdade na tela e quanto mais sedutoras as tentações que emanam das vitrines, e mais profundo o sentido da realidade empobrecida, tanto mais irresistível se torna o desejo de experimentar, ainda que por um momento fugaz, o êxtase da escolha. Quanto mais escolha parecem ter os ricos, tanto mais a vida sem escolha parece insuportável para nós.

Principais obras de Zygmunt Bauman 

Zygmunt Bauman deixou um significativo conjunto de obras. Com mais de 50 livros publicados, o sociólogo é considerado um dos pensadores mais importantes e influentes do fim do século 20. Algumas de suas obras são:

  • “Modernidade e Holocausto” (1989);
  • “Pensando Sociologicamente” (1990);
  • “O mal-estar da pós-modernidade” (1998);
  • “Modernidade Líquida” (1999);
  • “Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos” (2003);
  • “Confiança e Medo na Cidade” (2005);
  • “Vida Líquida” (2005);
  • “Medo Líquido” (2006);
  • “Tempos Líquidos” (2007);
  • “Vida para Consumo” (2007);
  • “A Arte da Vida” (2008);
  • “44 cartas do mundo líquido moderno” (2010);
  • “Vigilância Líquida” (2012).

Prêmios

Zygmunt Bauman recebeu dois grandes prêmios durante sua carreira.

  • Em 1989 recebeu o Amalfi, prêmio europeu de Sociologia e de Ciências Sociais por sua obra “Modernidade e Holocausto”.
  • Em 1998 recebeu o Adorno, prêmio alemão concedido pela cidade de Frankfurt pelo conjunto de sua obra.

Citações

Na era da informação, a invisibilidade é equivalente à morte.

O amor-próprio é construído a partir do amor que nos é oferecido por outros.

A preocupação com a administração da vida parece distanciar o ser humano da reflexão moral.

Hoje, o medo da exposição foi abafado pela alegria de ser notado.

Faça a referência deste conteúdo seguindo as normas da ABNT:

, . Zygmunt Bauman; Guia Estudo. Disponível em

< https://www.guiaestudo.com.br/zygmunt-bauman >. Acesso em 23 de setembro de 2020 às 18:38.

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